-TERREMOTO-

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Peter Sand

Paciência

Segundo minhas contas, já passaram-se quarenta anos desde que comecei a andar. Desde aquele dia, nunca mais parei, é uma viajem infinita. Parece que estou andando em círculos, como se eu caminhasse em uma esteira e nunca chegasse em algum lugar. A velhice já chegou, bateu na porta e está começando a me destruir, tanto por dentro, quando por fora, o cansaço está me consumindo, não vejo mais esperança em nada, tudo foi em vão, e a história de eu ser um protetor ou qualquer coisa do tipo, agora não passa de uma simples lenda. Minhas pernas estão me matando, mas jurei a mim mesmo que só pararia quando cumprisse minha meta, e agora ela parece mais distante que antes, inalcançável.

O tempo aqui passa tão rápido e ao mesmo tempo tão devagar, as vezes penso que nem passa. Estou aqui, será que alguém pode me ver? Alguém pode me ajudar? Estou aqui, um prisioneiro da história, alguém pode me ajudar?

Só não perdi a esperança, pois foi isso que me restou, nada mais para me apegar, nada mais de bom existe. A natureza ficou para trás, continua do mesmo jeito, apenas eu que mudei. Minha paciência deve ser algo extraordinário, pois já se passaram tanto tempo e ainda não desisti, nem irei desistir.

Durante todo esse tempo, vi coisas inacreditáveis, passei por um lago que era surreal aos meus olhos, eu o chamei de O Lago do Céu, a sua água era colorida feito uma imensa bacia de tinta verde-esmeralda, azul-turqueza e porções de amarelo-ouro. A borda de pedras brancas realçava sua transparência. Um cinturão verde de pinheiros altíssimos enfileirados balançava lentamente ao vento. E tinha mais: uma muralha intimidadora de vales cinzentos formando uma cordilheira de formas incríveis, tudo isso emoldurado por um lindo céu azul. Chegando lá, meu coração acelerado era a única coisa que se podia ouvir naquele silêncio.

Bem ao lado desse lago havia outro, eu o chamei de O Lago das Cinco Cores, ele era incrivelmente transparente, possuía pedras no seu interior que refletiam todas as cores em sua superfície, no começo da manhã o lago tomava para si um brilho dourado e cintilante surreal, no começo da tarde a água era de todas as cores, no entardecer ela possuía um brilho alaranjado e hipnotizante, pela noite, a água refletia o brilho prateado da lua, e por último, no fim da noite, a água adquiria um tom bem escuro e ameaçador de azul.

Coisas desse tipo me motivavam cada vez mais a continuar, a nunca parar. Durante essa longa viajem eu encontrei várias criaturas mágicas, e outras que eu nem conhecia, as plantas desse lugar são incrivelmente deslumbrantes, cada uma com seu toque especial, umas com cores vibrantes, outras com cheiros incríveis, mas todas eram diferentes, tinham suas particularidades.

Uma dessas flores -Com toda certeza falo que era a mais chamativa- era a hortência, já vi muitas fotos dessas pequenas flores em livros, pequenas folhas aveludadas banhada em tons rosas, azuis e violetas, formando um ao incrível algodão doce de arco-iris, tudo isso sustentado por um caule alongado e fino na cor verde musgo. Todas as flores ficavam uma ao lado da outra, formando um formoso campo de cores. Mas uma coisa que descobri sobre essa flor me fez afastar dela, um dia eu está as observando quando um pequeno bichinho chegou no campo, ele ficou atraído pelas flores, pegou algumas pétalas e comeu, no mesmo instante, o pequeno animal começou a se contorcer, uma espuma branca saia de sua boca e seus olhos ficaram vermelhos, ele começou a ter ataques epilépticos, e tristemente morreu.

Agora que já estou com a idade muito avançada, o tempo parece está voltando a ser como era antes, talvez a vida tenha visto o quanto lutei para ficar em pé e nunca desistir, e agora está me recompensando por minha paciência de sempre continuar.

Durante todo esse tempo, todos esses anos, fiquei pensando em como os outros estavam, em como Melissa estava, tive a oportunidade de falar o que sentia para ela, mas fui covarde. Será que eles venceram esse mal que tanto temiam? Será que ainda estão vivos? Ou será que eles se encontram em minha mesma situação?

Agora que está tudo voltando ao normal, criei mais ânimo para voltar a andar. A faça que eu tinha em minhas botas quebrou, mas o arco continua em minhas costas e uso as flechas para cortar plantas e outras coisas. Me sinto feliz em ver que estou quase chegando a meu destino, falta muito pouco para chegar ao buraco dourado que ainda continua com o mesmo brilho. Depois de subir algumas pedras com muito esforço, finalmente chego na entrada da caverna de ouro, nesse momento estou pensando o que me aguarda lá dentro, talvez nada, ninguém sabe. Entre com o pé direito na caverna, me sinto revigorado, me sinto vivo, minhas pernas pararam de doer, pego uma flecha, mudo sua composição para um metal brilhante e vejo, estou do mesmo jeito que estava quando comecei essa jornada. Agora a única coisa que me resta é adentrar a caverna e ver as surpresas que me aguardam.

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