O tumulto e a falta

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    Imagina aquele bar lotado como você nunca viu. As luzes até pareciam insuficientes, as pessoas em pé cobriam a visão de quem, como eu, estava sentado. O atendimento sempre foi ruim e a mulher não ouvia meu pedido, eu só queria uma cerveja gelada. Para ser atendido era preciso gritar, mas minha timidez no mundo fora de casa nunca me deixou fazer isso, você sabe, e eu só consegui beber depois da meia-noite, uma coisa meio quente e sem graça. O tempo todo olhando ao redor buscando qualquer alma que pudesse me salvar da solidão de ter me enfiado ali naquele meio de gente esquisita. O tempo todo te buscando, tanto que te vi. Eu sabia, eu juro que ainda sabia que você estava longe naquelas horas, andando pelo Chile ou pelo Peru, mas imagina o bar lotado me sufocando, me deixando tonta, me deixando agoniada. Eu queria tanto te encontrar para buscar abrigo que te vi no rosto do moço com uma barba feia perto da nossa mesa. Nossa, porque a marcamos com fogo do isqueiro. Tentei, toda errada, passar pelas pessoas suadas e te alcançar - mesmo que dentro de mim uma pessoa mais sã estivesse gritando que não era você ali. Posso ter tropeçado duas ou quatro vezes, posso ter me perdido em um rápido apagão. As pessoas queriam ouvir o primeiro show acústico que iria rolar daquele homem quase-famoso no bar, enquanto eu só queria saber por que infernos tinha ido parar no pior lugar para se estar naquele dia, naquela noite. Eu correria dali, digo, atropelando todo mundo no meio de um surto desesperado. Eu correria, mas não poderia admitir que estar ali sem você era tão difícil a ponto de causar uma fuga.

    As fugas são suas, no fim. É você quem vai embora sem deixar muitos rastros além de mentiras, é você quem some do dia pra noite. Enquanto fico aqui - querendo não admitir que outra vez o baque da sua falta foi causada pela minha falta de preparo para outra partida sua - acabo esquecendo como foram os erros que cometi ao seu lado, e sei que quando você retorna, eu os refaço.

    Imagina aquele bar formigando como não aconteceu na inauguração e nem no dia de promoção de cerveja por dois reais e setenta e cinco. Você estaria achando graça do meu olhar assustado e não se preocuparia em buscar caminhos até alcançar o balcão e garantir quantas bebidas quisesse com todo o ar de certeza sobre as próprias decisões da vida que sabe transmitir.

    Sem que eu precise pedir para imaginar, você sabe que fiquei naquele canto cobrindo os furos da mesa com os dedos como um joguinho infantil improvisado, toda distraída em relação aos movimentos alheios. Se não ficasse ali, eu não saberia ir mais longe e voltaria para casa para olhar fotos antigas e olhar seus olhos nelas e olhar o bem que você me fazia e olhar tudo o que você deixou escapar de mim.

    Eu não estava gostando do som, da bebida, do trânsito de pessoas, dos sentimentos aflorando como uma sintonia que soa nos ouvidos até alcançar as partes que doem, como se dedos puxassem fios dentro de mim buscando notas musicais de ritmos tristes. Como são aquelas músicas que você me apresentou do Neil Young, como Like a Hurricane.

    Os cachorros estão com gravatinhas natalinas, de banho tomado, esperando você voltar com o perfume que eles gostam de sentir a três quadras de distância. Eles sentem saudade e correm pela varanda e brincam entre eles e querem que alguém arremesse a bolinha amarela para que busquem o mais rápido que podem. Mas meu coração te espera como uma moça esperando seu homem no porto vindo na próxima embarcação, parado e taciturno.

    Imagina aquele bar lotado como você vem lotando minha mente. Eu não sei dizer se os burbúrios de fora conseguiam ser piores que os de dentro de mim, mas sei que nenhum calava o outro. E para acalmar qualquer um dos dois, eu precisava de você ali. E para a noite não ser tão boa como poucas vezes foi, você não estava. E para variar um pouco do que sinto, eu me arrisquei naquele cara que parecia um pouco com você.

    Imagina aquele bar lotado e eu - engolindo choro, cerveja e saudade - dei o amor que sobrou para o primeiro que falou algo que fizesse sentido, ainda que fosse só naquela hora, porque eu estava só, feita de só, lá, dó. Naquela hora, eu sabia, você percorria ruas e ruas parando apenas para tocar violão e notas mim. E sei ainda que perdeu de fazer seu maior concerto no bar. Eu apenas não sei quem anda perdendo mais, quem caminha mundo afora ou quem fica economizando pernadas. Quem vai e deixa a vida ou quem fica e perde a chance de viver melhor. Quem não liga mais por ter perdido a coragem ou quem não recebe mais ligações por ter perdido o contato. Quem vai pior?

    No meio de tanta gente talvez eu não fosse a única no fundo de um poço emocional. Talvez estivessem ali os mais desgastados, os mais cansados de perder alguém. E se você foi embora para andar com os alegres, talvez esteja se desequilibrando, sendo o único sozinho e com espaços vazios a preencher. Eu não acuso, eu tento me conformar de um jeito distorcido como me ensinou. Essa comparação apenas nos aproxima porque, sem um e sem outro, somos iguais.

    Imagina aquele bar lotado e você me encontraria, reconhecendo-me até mesmo se a lotação fosse só uma coisa de um sonho meu ou seu, assim como eu soube te encontrar.


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