Cotidiano

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            Caminhava pelo metrô depois de um dia cansativo de trabalho burocrático. Achei que passar da recepção para o estágio fosse ser mais fácil e legal. Isso foi um engano. Ao menos, agora não têm mais clientes berrando em meus ouvidos, apenas meus chefes.

Senti um leve desânimo. Tenho o costume de fazer meu saldo do dia enquanto percorro os túneis cheios de gente. Naquele dia o saldo foi negativo. Não era surpresa, nos últimos tempos raros eram os dias com saldo positivo.

Quando comecei a me afundar em meus problemas os vi. Na verdade, escutei, uma voz forte acompanhada pelas cordas do violão e pela gaitinha-de-boca. O som me fez virar e vê-los. O moreno tocava o violão e o loiro a gaitinha-de-boca.

Estavam tocando algo original. Falava sobre tempo perdido em saldos de dias negativos. Na música era como se os dias fossem quase sempre bons. Nossa contagem é que estava errada, focávamos demais no negativo e esquecíamos que se em um único dia fossemos capazes de sorrir, ou ainda melhor: fazer com que outros sorrissem, então o dia teria valido a pena e não poderia ser considerado ruim.

Ouvir aquilo foi como levar dois tapas na cara. Mesmo no meio de papéis e berros, eu rira bastante com meus colegas, recebera elogios e finalmente assinei o contrato de estágio.

Olhando assim, o saldo do meu dia era positivo.

Só que... Ainda faltava algo para que se classificasse como um dia bom. Não parecia mais um dia ruim. Mas aina não era positivo o bastante no saldo.

Enquanto minha mente viajava outras músicas tocaram. Não muitas, mas o suficiente para eu perder meu horário.

Só me toquei disso porque meu telefone tocou.

-Onde você tá: A aula começa em 15 minutos! Tem prova hoje!

-É de recuperação, não preciso ir – respirei fundo. Por algum motivo aquilo me irritou, não ligava em passar cola, mas ter que fazer prova desnecessariamente porque alguns colegas não conseguiam sobreviver a uma prova sem cola, pareceu abuso demais comigo, e eu estaria sendo idiota se fosse apenas por isso.

-Mas você vem, né? Precisamos de você.

-A professor disse que se eu fosse, perderia meio ponto na média – era uma meia verdade, ela insinuara que se me pegasse passando cola, aconteceria isto. Não fazia mal fingir que valia para a recuperação optativa por estar sem ânimo de fazer a prova, fazia?

-Tudo bem, então! Como se meio ponto a menos para você fosse mesmo um problema!

-É sim – mas já havia desligado quando disse isto. Dei de ombros e guardei o celular. Peguei dez pratas pros caras que estavam tocando.

Eram bons e animaram meu dia, mesmo que por alguns minutos.

Aquela ligação me lembrou de porquê eu só queria ir para casa, ligar o som, me jogar na cama e fumar alguns cigarros, tentando não pensar em nada que não fosse o futuro.

Aproximei-me dos rapazes. Já estavam levantando, indo embora. Meu plano consistia em deixar as dez pratas antes de o moreno pegar a capa para guardar o violão. Depois disso pegar o próximo metrô e ir direto para meu apartamento.

O que aconteceu foi mais ou menos assim:

-Ei você – o moreno cutucou meu ombro, o reconheci: trabalhávamos juntos – Parece estar precisando de um café forte.

-Ou de duas doses de vodca – respondi quase automaticamente. Era o cumprimento padrão entre os estagiários – Não sabia que você cantava e tocava violão, sabe, naquele terno, você não parece músico.

Quis por um microssegundo voltar no tempo. Aquilo era quase grosseiro e não havia motivo para agir assim

Ele riu.

O que me fez rir também.

-Olha, não sabia que era capaz de rir – ele me cutucou de leve – Sabe como é, você sempre parece meio triste.

-Normalmente, estou.

Minha sinceridade me surpreendeu, creio que era efeito da melancolia e das músicas.

Ele pareceu sorrir um pouco mais.

-Bem, então vem... Sei que seu metrô para casa passa às seis e meia. Não, não sou stalker, é que você comentou esses dias onde mora. É no mesmo bairro que o meu, só por isso que sei – Ele não precisava ter se explicado tanto, mesmo assim era fofo e engraçado. Acho que sorri – Ahm....

-Você estava dizendo para eu ir à algum lugar, mas se perdeu no meio da explicação – comentei dando uma risadinha. Ele corou.

-Tem uma cafeteria ali, bem, eu te pago um café.

Não tive tempo de me esquivar, ele segurou meu braço, pegou metade do dinheiro da apresentação com o amigo e fomos para o café.

Assim como não consegui recusar o convite, mesmo querendo fugir para a solidão e para o "silêncio" do meu quarto, também não consegui recusar seus beijos, nem a entrada dele em minha vida.

Também não posso negar que depois daquela música e daquele café, meu saldo dos dias começou a ser positivo, minhas companhias melhores, minha vida menos solitária.

E tudo mudou só porque pareci para escutar uma bela melodia que cantava sobre a positividade e felicidade.

Aliás, meu saldo foi positivo e meu dia ótimo.

E o seu?

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