2 - Como eu agi

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E lá estava ele me falando tudo aquilo que sentia sobre outra pessoa. É estranho quando compreendemos que estamos começando a gostar de uma pessoa. Parece que os nossos sentidos ficam mais nítido para tudo o que ela fala. Eu tinha quase certeza que nunca tinha reparado no modo como ele crispava a sobrancelha. Ou eu havia reparado, mas não havia ficado fascinada por conta disso. E agora parecia que todo o detalhe de seu rosto, corpo e gestos estavam entrando em harmonia. Queria saber como uma pessoa pode se tornar bonita para a outra a partir do nada. Isso se chama paixão, amor, loucura, prisão. Sim, acredito que agora iria ser prisioneira dele. De suas vontades. Da vontade de querer fazer-lhe bem. Eu já amei outras vezes. Sei muito bem o que é isso. Essa sensação de não se pertencer mais. É estranho e ao mesmo tempo fantástico.

- Eu acho que vou me confessar para ela. – Ele continuava falando e eu queria muito dizer que ele deveria esperar. – Não sei, Ló. Tenho certeza que você já se sentiu assim. Sem saber o que fazer, certo?

- Sim – eu disse. Era o que estava sentindo agora. O que fazer? Definitivamente aquilo deveria ser meu cérebro pifando por ter passado muitas horas estudando. Ele havia lançado algum tipo de hormônio errado na minha corrente sanguínea. Iria passar. O corpo é uma máquina fascinante. Ele consegue detectar o que fez de errado e corrigir. Outras vezes ele mesmo se ataca. É uma máquina perfeita, que os homens acreditam ter descoberto tudo, quando, na verdade, não descobriram nada. O mesmo vale para o amor. O homem não sabe nada sobre o amor. Mesmo aqueles que já viveram de amar várias vezes. – Eu acho que está muito cedo para você se confessar – eu disse enfim. – Mas não vejo nada demais em você demonstrar que gosta dela, sabe? – Sim, eu ainda imaginava que o meu corpo estava sendo atacado por ele mesmo. Não iria entrar em desespero por conta disso. Só teria que agir do mesmo jeito. Eu era a melhor amiga dele. Tinha que agir como tal.

- Eu queria que você conversasse com ela – ele disse e eu quase engasguei com o vento. Se isso é possível. Ele pareceu não perceber, ou achou que o meu quase engasgo era uma coisa trivial, banal, em relação ao que ele estava sentindo. Mas ele não sabia que o meu engasgo banalizava todas as coisas do mundo. Aquele quase engasgo me dedurou e ele não percebeu. – Tenho certeza de que vocês duas seriam amigas. E tem coisa melhor do que ter a minha namorada sendo amiga da minha melhor amiga?

Epa! Namorada? Ele só poderia estar brincando comigo, certo?

- Acho que você está indo muito rápido. – Eu sorri nervosamente. Dei um tapinha em seu ombro.

- Verdade. É que eu estou tão animado! Eufórico!

- Percebo. – Tentei manter o tom casual.

- Estou atrasado.

- Sim, está. – Olhei para ele desejando não ter feito isso, pois ele sorria com os olhos ao mesmo tempo que me matava com eles.

- Me deseje sorte?

- Toda a sorte do mundo. – Sorri. Menti. Desejava que tudo desse errado. Que ela fosse que nem Linda e Narciso. Que ela tivesse um namorado. Que ela destruísse tudo o que ele poderia um dia descobrir sobre o amor, para continuar do meu lado. Sem amar ninguém, mas do meu lado.

Ele me abraçou. O mesmo abraço de sempre, quase destruindo todos os meus ossos. Comecei a rir, pois era algo comum. A primeira coisa que estava dentro do contexto depois de tudo aquilo. Até que ele me soltou e a realidade voltou.

Quando você começa a amar o seu melhor amigo você tem que agir como se nada tivesse acontecido. Afinal, você é a melhor amiga dele. E ele não tem culpa por você começar a amá-lo. Ele não irá entender se você esbofeteá-lo e começar a xingá-lo. O que pode acontecer é que a amizade de vocês irá ficar estranha. Mas isso eu não irei deixar acontecer. Irei agir normal. Como sempre, pois eu sei que uma hora isso vai passar.

E se não passar?

...




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