23.3 - ALGO ERRADO

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Com os pensamentos focados na ideia de Mila, meu dia foi mais fácil. Chequei a nota de corte da UFG de Jataí e ela tinha razão, se tivesse me inscrito para lá, teria passado para o primeiro semestre. Isso dava uma certeza de que eu teria minha vaga no segundo semestre e embora quisesse sair daquele fim de mundo ontem, era melhor um pássaro na mão do que dois voando. Comecei a pesquisar sobre a cidade e seus preços e descobri que Mila tinha razão em muitas coisas e que aquela talvez fosse a solução da minha vida. A faculdade de direito da UFG estava entre as vinte e cinco melhores do país e, mesmo a USP sendo a primeira, era algo a se considerar.

Estava animada com a possibilidade e isso levantou meu astral o suficiente para passar o resto do dia em paz. Terminei de cuidar da cozinha e fui tomar meu banho para abrir o bar, imaginando que minha mãe não apareceria tão cedo e eu ficaria sozinha no trabalho por boa parte da noite.

Mantenha a calma, repeti para mim mesmo. Os conselhos da minha prima ecoavam na minha cabeça e tentei não ficar completamente irada com a minha mãe quando saí do banho e encontrei uma mensagem dela dizendo que ia demorar mais que o previsto - o que significava que, talvez, ela só aparecesse no dia seguinte.

Eu me vesti e me arrumei normalmente. Rotina. Tinha que aceitar que aquela rotina me venceria por mais alguns meses, até meu aniversário. Quando esse porém entrou em jogo, recordei-me que faria dezoito aquele ano e que me mudando após o aniversário, não precisaria convencer minha mãe a assinar qualquer documento que dissesse que eu sabia me virar sozinha; eu seria dona de mim mesma.

Parecia que as coisas estavam se acertando e eu sorri, apesar do furacão.

Saí de casa e, do portão, pude ver alguém parado na porta do lanchonete, esperando que eu o abrisse. Revirei os olhos, sem nem um pingo de paciência. Tantos outros lugares para se beber e a pessoa ficava parada esperando que eu chegasse para abrir?

Porém, conforme eu me aproximava, comecei a identificar que eu conhecia aquelas formas, conhecia o tom loiro do cabelo e a maneira impaciente de andar de um lado para o outro e o sorriso foi impossível de controlar.

- Você voltou! - Gritei, antes mesmo que ela me visse.

Cela virou-se para mim em um susto e abriu um sorriso idêntico ao meu. Corri, acabando com o pouco espaço que ainda havia entre nós duas e pulei em seus braços abertos, apertando-a em um abraço forte por causa da saudade. Não a via desde o carnaval e não nos falávamos direito desde então, também. Tinha muito para se ser atualizado e a enxurrada de informações começou antes mesmo que eu pudesse levantar a porta de metal da lanchonete.

- Você primeiro - eu insisti apesar de ter dividido a informação sobre o vestibular e a ideia de Mila antes, Cela queria um resumo sobre a viagem para Angra e sobre JP e o nosso recente e estranho namoro. - Como foi na casa dos seus pais? Tudo bem?

Cela me ajudou a arrastar as mesas para os seus lugares adequados e sentou-se em uma cadeira enquanto eu terminava de varrer o salão e a entrada. Ela suspirou e pareceu muito cansada, quando olhei em seus olhos, notei que Cela estava parecendo muito mais velha do que realmente era. Achava que seus problemas lhe davam mais maturidade, assim como eu, mas nunca tinha reparado que externava-se em suas feições.

- Difícil - disse. - Meus pais me odeiam - ela parecia magoada como alguém que já chorara muito por aquele motivo e agora só se cansava ao perceber que nada mudara e nunca ia mudar. - Eles não conseguem entender porque eu prefiro ficar aqui com o Pepê a morar no castelo de cristal deles. Mas minha avó tá doente e eles não querem que ela descubra que eu tô morando numa favela, casada com bandido... É duro quando a gente escuta alguém falar assim - tranquei o maxilar, vendo que ela repetia as palavras que escutara. - Minha avó me adora e foi ótimo ver ela lá, mas também foi triste porque ela tá doente e as vezes esquece as coisas... Me chamou pelo nome da minha mãe várias vezes, mas tudo bem. Meus pais queriam me convencer a não voltar, eles reformaram meu quarto, acredita? Tinha um monte de coisa nova lá, tudo mega caro... Eles disseram que era pra me lembrar da vida que eu tinha. Sei lá. Mas eu não podia ficar, né? Pelo menos, roubei o notebook.

Caí na gargalhada, sem conseguir me conter.

- Como se você precisasse roubar um notebook, né, Cela? - Perguntei.

Ela deu de ombros.

- Estou pensando em te dar de presente qualquer dia desses - confessou, fazendo-me arregalar os olhos e corar. - Mas primeiro tenho que apagar as nudes do Pepê - ela riu e eu tampei o rosto com as mãos, deixando a vassoura cair no chão. Abaixei-me para pegá-la e fui entrando para trás do balcão, começar a arrumar os salgados e descascar as batatas. - Cadê sua mãe? - Perguntou, franzindo as sobrancelhas.

- Saiu - respondi, com a voz embargada.

Não precisava dizer mais nada. Cela me conhecia há tempo o suficiente para saber que aquele saiu significava que eu ficaria sozinha pelo resto do expediente e que minha mãe estava provavelmente me punindo pela semana de farra quando Mila estivera comigo, mesmo que ela estivesse com ajuda e eu não.

Cela estalou os lábios e se levantou em um pulo.

- Vou avisar o Pepê que vou te ajudar hoje - disse.

Antes que eu pudesse negar sua ajuda, ela correu para fora do bar. Revirei os olhos e sabia que ela não iria demorar muito, se não preferira mandar mensagem para o marido, era porque ele devia estar no ponto de venda de drogas que era quase ali do lado. Então, ela podia aproveitar a desculpa para dar uns beijinhos.

Como eu esperava, Cela voltou menos de dez minutos depois, enquanto eu começava a descascar as batatas. Tinha os olhos arregalados e as bochechas coradas e entrou para detrás do balcão com nenhuma cerimônia.

- Você tem que ir no beco - disse. - Você precisa ir lá agora. Eu cuido de tudo. Só vai.

Sua urgência me fez levantar e abandonar tudo sem pensar duas vezes. Meu coração acelerou-se sabendo, mesmo que nada tivesse sido dito, que tinha algo de muito errado com JP.

NOTA DA AUTORA: Oi, meus amores!!!!

Podem mandar a conta do hospital pra mim, sim! hahahaha

Sinto muito pelo sufoco que estou fazendo vocês passarem, mas espero que estejam se divertindo, afinal é pra isso que estamos aqui!

Estou muito, muito contente em poder passar um pouco da minha realidade pra vocês e ela é nua e crua. Então, embora toda a história tenha sido guiada de uma maneira para quebrar preconceitos, peço que, se ainda os mantenham aqui, tirem de vocês. Vamos entrar um pouco mais profundamente no problema. Queria dizer, também, que apesar do que vamos ver sejam um pouco diferente do que vocês provavelmente já viram nos noticiários (e isso já aconteceu antes, durante a narrativa, não?), muitos dos fatos aqui são baseados em fatos reais. Inclusive em localidades reais. Quem conhece o Rio de Janeiro bem, sabe. 

Então, ok. Vamos lá.

O que vocês acham que vai acontecer agora? O que está esperando pela Drica agora?

Semana que vem, nesse mesmo wattpad, nesse mesmo horário. Vou estar esperando por vocês.

E muito, muito obrigada por estarem comigo e continuarem comigo e amarem essa história junto comigo. É lindo demais!

Beijos rosados :*

Leka

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