23.2 NOVOS SONHOS

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"Espera. Respira fundo."

Mila saira de sala para poder ligar pra mim e me acalmar. Estava tendo um colapso nervoso e não conseguia parar de chorar de forma alguma, vendo meu sonho se afogar no mar das minhas lágrimas e morrer.

- Eu não consegui - eram as palavras que eu repetia incansavelmente nos últimos dez minutos.

"Dri, sua colocação. Você me mostrou. Deve dar pro segundo semestre. Sem contar que, com a sua nota, você conseguiria qualquer outra faculdade de direito, menos a USP. Tem outras opções disponíveis, Dri. Se acalma. Tem muita coisa pra acontecer ainda, não se desespera."

- Eu não sei... - As palavras se formavam na minha mente, mas não saiam na minha boca. - Eu não sei se consigo mais seis meses nesse fim de mundo, não com a minha mãe assim.

Ouvi Mila suspirar do outro lado da linha e me joguei deitada na cama, encarando o teto e deixando as lágrimas caírem em puro desespero. O teto branco do quarto era a explicação mais viva e clara da minha vida no momento: vazia, sem nenhum propósito.

"Mas, Dri, pensa que você tem mais seis meses pra curtir o JP e..."

- Ele não fala direito comigo há dias - tenho quase certeza que gritei essa frase. - Ele mal responde minhas mensagens e não nos vemos desde que voltamos de Angra.

Pelo silêncio do outro lado da linha, eu soube que Mila não sabia como me ajudar. Eu não sabia como me ajudar. Só fiquei chorando em silêncio, ouvindo as palavras de conforto da minha prima se repetirem como uma cantiga.

"Tive uma ideia"

- Fala - eu estava sem ânimo e nem a ideia de Mila estava me animando muito.

"Você tenta. Sério, Drica, você tem que pelo menos tentar. Você tenta ficar aí com a sua mãe por mais algum tempo. Se as coisas saírem do rumo até você não aguentar mais, eu te compro uma passagem pra cá. E aí você vem e pode ficar o tempo que quiser ficar. Eu tenho um quarto extra aqui que o Talles usa só pra treinar e, bom, você pode acabar gostando da cidade! Acho que, com a sua nota, você teria passado pra cá pro primeiro semestre e a faculdade de direito daqui é ótima, a gente tem um amigo que faz. A gente se forma nesse semestre e você pode ficar até com o apartamento, ele é meu e eu estava pensando em alugar, mas se você quiser, ele é seu. Você pode até alugar o quarto extra pra alguma outra estudante, se quiser, e tirar um dinheirinho. A gente ainda conhece muita gente por aqui, vai ser fácil te arrumar um emprego se quiser. E não é uma cidade muito grande, eu com certeza ia ficar mais tranquila com você aqui. E mais ainda: vamos estar super perto! São umas seis horas de viagem de carro, mas ainda é perto."

Ela riu e eu estava, agora, encarando a porta do meu quarto. Estava vendo uma saída agradável e tirar as despesas de aluguel do meu futuro era, com certeza, um alívio para o meu bolso e parecia ser uma solução agradável. Ainda gostaria de tentar a USP, mas se eu fosse pesar o bolso... A UFG parecia mais em conta.

- Acho que é uma boa ideia.

Ela continuava rindo e eu sabia que era alegria.

"Queria ter tido essa ideia antes" disse. "Você estaria vindo pra cá agora."

Eu ri, sem me conter. Não teria deixado Mila no aeroporto, talvez ela teria adiado sua viagem até o resultado e nós embarcaríamos juntas.

- Gosto de pensar sobre isso. Mas eu ainda quero muito a USP.

Mila suspirou.

"Olha, Dri, eu amo muito você. Não tenho como te sustentar e, se eu pudesse, eu faria. Minha mãe ajudava muito sua mãe quando ela era viva e agora eu tenho o meu dinheiro e eu quero voltar a fazer isso, mas com você, que tem um futuro brilhante pela frente, e vai precisar agora, enquanto universitária. Talles mesmo pretende ter uma aventura em São Paulo muito em breve e a gente tá economizando pra isso, o que é um problema, não só pra gente, mas pra você, se escolher ir pra lá. É uma cidade cara e perigosa, mas no que eu puder te ajudar, eu te ajudo. Sinceramente, são seis anos. Acho que você tinha que cogitar fazer direito em alguma faculdade do Rio mesmo..."

- Não quero - choraminguei. - Não quero mais ficar aqui, você viu como é...

"Eu sei. Tá tudo bem. Só pensa com carinho. Se você não quer ficar aí, você pode vir pra Jataí. Vai ter uma casa pra você e eu consigo um emprego. Sei que você não ia gostar que eu te desse dinheiro e assim vai ser mais fácil. Temos amigos aqui que vão te ajudar a se adaptar. Pensa sobre isso, tudo bem?"

- Eu vou pensar - não poderia dizer não. Tinha apenas que voltar a fazer cálculos e ver o quanto disso seria bom para mim e se valia a pena desistir do meu sonho da USP por isso. E mais: precisava pesquisar sobre a faculdade de direito da UFG e saber se ela seria boa o suficiente para cogitar a hipótese de abandonar a USP. - Muito obrigada, Mila. Eu juro que vou pensar. Parece muito bom.

"Queria que você pudesse ver Jataí. Quando eu cheguei aqui, fiquei apavorada. Não fazia ideia de como era uma cidade pequena e eu achava que aconteciam crimes todos os dias, iguais as cidades pequenas das séries de TV. Mas, na realidade, é bem tranquilo. Mas também tem muita festa por causa da faculdade, então acho que você vai gostar muito."

Sentei-me na cama, rindo, com a alma lavada. Realmente, aquela opção me parecia muito agradável e, a cada segundo, soava como a decisão mais correta a se tomar. Enquanto pensava no que mais dizer, senti um cheiro não muito agradável e congelei, pulando para fora da cama.

- Ai, pelo amor de Deus! - Gritei no telefone. - Vou ter que desligar que eu queimei meu arroz!

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