23.1 PERDEDORA

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Drica

O FUTURO NEM SEMPRE É COMO A GENTE ESPERA, MAS ELE NÃO CANSA DE SURPREENDER

O resultado do vestibular.

A resolução de toda a minha vida de estudos em uma só nota, em uma pequena oportunidade. Tinha feito uma prova boa, mas eu sabia que a concorrência para direito era imensa e eu teria que torcer pra conseguir uma colocação.

Foi com o coração na mão que eu loguei no sistema para ver se havia passado. O site estava sobrecarregado e estava demorando uma eternidade, a ansiedade me dominando por inteira e fechando minha garganta. Não conseguia parar quieta, enquanto o site girava e girava, tentando carregar, eu batia minhas mãos na mesa, caminhava ao redor da cadeira, chutava a parece... Tudo para tentar controlar aquela sensação desesperada que estava dominando o meu ser.

- Adriana? - Minha mãe chamou do andar de baixo e eu congelei. - Você já está aí há mais de meia hora e a louça está aqui. Daqui a pouco está na hora de abrir o bar e você ainda não fez nada!

Já tinha perdido a noção de quantas vezes minha mãe tinha me chamado e de quanto tempo eu havia gastado na frente do computador, sem conseguir ver o resultado. O sistema estava lento demais e meu computador também não era dos mais rápidos. Com o coração na mão e sabendo que minha mãe estava tão apavorada que o resultado fosse positivo que preferia que eu não o visse, resolvi deixar ele carregando e ver mais tarde.

Desci as escadas com os olhos inchados da noite mal-dormida. Tinham alguns dias que minha vida voltara aos eixos da rotina nA Caverna. Eu estava nervosa com aquele resultado infeliz e isso me deixara desatenta e desastrada, fazendo o número de discussões com a minha mãe aumentar. Para piorar a situação, Cela estava passando uns dias longe, na casa dos pais, e pouco conseguia entrar em contato comigo, além de JP que se tornara monossilábico e dissera que estava resolvendo uns problemas sérios e não tinha muito tempo para me ver por enquanto.

Se namoro era assim, era uma droga.

Cheguei na cozinha para encontrar uma pilha imensa de louças que eu não sabia de onde tinha vindo, visto que o almoço estava ainda por fazer e não era dia de preparar os salgados para a lanchonete. Minha mãe estava na sala, colocando um brinco usando a televisão desligada de espelho.

- Não fiz o almoço porque não dá pra chegar nessa cozinha - anunciou. - Agora eu tenho que sair, então você lave a louça e faça algo pra comer. Não vou comer em casa, então pode fazer algo só pra você. Posso chegar atrasada, mas tenho certeza que você consegue abrir o bar sozinha.

Queria soltar meia dúzia de injúrias contra a minha mãe, mas segurei a minha língua. Duas coisas se tornaram bastante óbvias quando ela saiu para o quintal e abriu o portão do carro, para então sair com ele: a primeira era que ela estava me punindo por estar tão concentrada com a questão do vestibular e tão distraída com as outras coisas, jogando um monte de responsabilidade no meu colo no dia mais importante do meu mês; a segunda era que ela estava de namorado novo e provavelmente estava indo almoçar e talvez a um motel.

Aquela era, definitivamente, uma péssima notícia. Minha mãe não era muito de arrumar namorados, mas quando o fazia, a vida dela parecia girar em torno do homem em questão. Fora assim que nos enfiáramos no problema que meu padrasto era; ela sabia que ele era um babaca completo, ele ainda batia nela, mas ela simplesmente não conseguia deixar ele ir embora porque, na cabeça dela, ele era o mundo inteiro. Sem contar que, quando ela arrumava um namorado, ficava insuportável: mais coisas sobravam para eu fazer e todo o humor dela dependia do status do relacionamento dos dois, se brigassem, ela estaria gritando com todas as outras pessoas e, principalmente, comigo.

Coloquei uma chaleira cheia de água no fogão e lavei o arroz por cima das louças sujas e peguei uma panela limpa no armário, onde soquei o alho descascado anteriormente. Dourei-o com alho e sal e joguei o arroz limpinho em cima da mistura, refogando-o. Então, joguei a água e coloquei mais um pouco de sal, para que ficasse ainda mais temperado e gostoso. Respirei profundamente, encarando a pilha de louças sujas e tentei tomar coragem, ainda pensando na minha mãe e no seu novo namorado.

Meu celular estava a tiracolo e foi movida pela raiva e o pavor que eu enviei uma mensagem para Mila. Estávamos nos correspondendo bastante nos últimos dias, fosse pela amizade redescoberta, fosse pela ausência de Cela. Enquanto esperava sua resposta, ataquei a louça, lavando-a com a rapidez e destreza que desenvolvera por todos os anos auxiliando minha mãe com a lanchonete e, mexendo nas panelas e talheres, pude identificar que minha mãe estivera fazendo algum doce, o que era bem raro. Ao não encontrar vestígios dele na geladeira, soube que havia cozinhado para o novo namorado.

Pra ele, ela faz o doce. Pra mim, nem o almoço.

Não pude deixar o pensamento irritado e magoado ecoar pela minha mente.

O celular deu o apito característico de mensagem recebida e eu fechei a geladeira com a garganta apertada pelo choro e corri para o aparelho, encontrando a resposta de Mila.

"Ai, Dri, que droga. Olha, fica calma, tá? Não dá motivo pra ela. É melhor você abaixar a cabeça agora do que provocar uma terceira guerra mundial. Se tudo der certo, mês que vem você tá de mudança, né gata?"

A lembrança do resultado do vestibular me fez subir as escadas correndo, dois degraus por vez, o que era muito perigoso, já que a escada da minha casa tinha um alto índice de acidentes. Corri para o meu computador para encontrar a aba carregada e corri os olhos pelas opções, procurando a minha colocação.

Demorou um pouco para carregar e, quando o fez, senti meu coração despencar de uma altura de cem andares.

Eu não conseguira uma vaga.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!