Só por um dia e pra sempre

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[Recomendação de música: Heroes - David Bowie]

    Perdoa o meu corpo cansado que deixei pousar no seu sofá. Eu não trouxe nada, além de chegar transbordando sentimentos, sentimedos, as más emoções sem-ti e coisas assim. Porque venho como uma curiosidade qualquer indecifrável. Pareço lua cheia em eclipse - me mostrando por inteiro no lado escuro. Escondo tudo de mim para que não roubem pedaços, e me revelo em quartos fechados apenas para não me sentir presa sempre. Ando com medo de assaltos à mão afável, que no primeiro toque discreto levam bens e segredos não-materiais. Deixei pra fora qualquer vontade, e fui um tanto mal educada não oferecendo (a mim mesma) abraço (seu) nenhum. Só cheguei para ser só, como sempre sou, mas dessa vez do seu lado.

    Perdoa o meu cheiro de cigarro tomando a sua casa. Eu traguei a nicotina e a saudade, amarelando cada parte minha. Meus pés queimando dentro do sapato como se fosse dentro deles que as cinzas e bitucas tivessem caído, meus pés quiseram me fazer te buscar. E eu vim, desse jeito de quem não nega mais impulso algum. Eu vim sem explicar as razões que não tenho, que não engulo, que minhas emoções não deixam me atravessar.

    Perdoa por não ter muito o que dizer agora que estamos frente a frente, e por pedir pra ligar o som naquela música que só eu gosto. É porque nela tem toda a poesia que não sei te mostrar e te fazer digerir através das palavras minhas. Aos poucos, eu apenas sei dizer que venho me apaixonando. Não é por você, é por detalhes seus. Não quer entrar nessa dança sem ritmo comigo? Passo-a-passo: olhares, desviares, um projeto de não ser mais um estranho pra mim, de não ser mais uma estranha pra você. Se fingirmos uma boate na sua sala com a coragem de uma embriaguez, podemos ficar até não existir mais calendário.

    Para além do agora, não tenho planos. Para além de hoje, não conto dias. Para além de nós, não há mais ninguém. Mas eu espero que a gente sobreviva. Nós poderíamos ser heróis só por um dia, não é isso que o David Bowie canta? Nós poderíamos nos salvar e salvar a nossa atmosfera apenas se respirarmos juntos entre tudo o que podemos fazer com os nossos corpos.

    Eu pediria desculpas apenas por ter começado esse novo texto sobre você, mas depois do vigésimo quinto a gente já não se preocupa mais. Eu pediria desculpas pelas ironias tamanhas que tentam disfarçar minhas vergonhas, meus anseios, meus desejos, mas depois de um dia inteiro fazendo confissões em um tom de voz sarcástico, você já aprendeu a descobrir as minhas verdades. Eu pediria desculpas por, a essa altura, te querer tanto. Mas estamos juntos, não estamos? Então você me quer também. A culpa é de quem não pode mais nos ter.

    Sei que, caso você acredite em alguma coisa de instinto masculino, vai querer ir embora na minha primeira demonstração de afeto. Eu sou dessas pessoas que escrevem sentimentos, materializam sentimentos, transformam sentimentos, e uma demonstração é sempre exagerada. Mas eu juro que mesmo sentindo muito e mostrando ainda mais, o que peço de você é bem pouco.

    Eu peço - como quem conta um segredo - para me encontrar por acaso até quando penso que não vai vir, para me roubar um riso até quando acho que o dia só quer me trazer uma dessas depressões contemporâneas que nos afundam só por estarmos vivos. E se for pedir muito, peço apenas para me deixar te encontrar e te fazer rir. Posso ser o bem pra você que eu quero que seja pra mim. Eu peço para acreditar no que não digo, porque significa sempre mais do que as besteiras que me escapam.

    Por fim, me perdoa por andar pela rua sorrindo por lembrar das frases que me diz, algumas meio a toas, e por acabar tropeçando por ir depressa apenas por querer parar no portão de casa e te chamar mais uma vez.        



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