22.3 DESTINO

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- É muito feia, a coisa? - Perguntou-me.

Apesar da idade, meu irmão demonstrava uma responsabilidade acima da média para pessoas da minha própria idade, quase cinco anos mais velhos que eu. Entendia melhor que eu sobre muitas coisas da vida e eu imaginava que ele sabia gerenciar dinheiro e poderia me ajudar não só com o empréstimo.

- Eu tirei um empréstimo há algum tempo - disse.

Pepê estalou os lábios, ponderando a situação. A televisão agora exibia o novo filme do super homem e nenhum de nós estava muito interessado, ainda mais com a conversa que se iniciava sendo mais importante que tudo aquilo.

- E quanto que foi? - Perguntou.

- Seis pila.

Pepê revirou os olhos ao ouvir minha resposta e se levantou, sumindo por alguns minutos e voltando com um maço gigante de dinheiro. Levei um susto quando ele jogou no meu colo como se fosse pouca coisa.

- Tá louco, mano? - Inquiri. - Que isso?

Eu nunca tinha visto tanto dinheiro junto na vida e não fazia nem ideia de quanto tinha ali, mas era, certamente, mais do que eu precisava para arrumar minha vida. E a informação que Pepê tinha tanto dinheiro assim, vivo, a disposição dele na própria casa me assustava.

- Paga essa bosta antes que eles comam teu cu e pronto.

Senti a bile subindo e o pânico me acometeu. Era muito, muito dinheiro. Eu tinha toda uma proposta planejada, iria propor um sistema de pagamentos, mesmo que pouco, mês a mês, mas ele tinha me pegado desprevenido e eu não pude dizer nada. Estava esperando um "não posso te ajudar, vou precisar de uns dias pra juntar esse dinheiro", não um "toma logo esse montante e tudo bem".

- Não, espera - eu estava desesperado. - Eu vou te pagar, cara. Não pode isso.

- Cala a boca, mané. Eu fiz mais que isso em cada noite no carnaval. Tá de boa.

- Não tá de boa, eu vou te pagar.

- Mano, você não conseguiu nem arrumar um emprego ainda, relaxa. Tá de boa mesmo, cara.

- Não, não - não era assim que eu tinha imaginado o dia. Eu queria pagar ele de volta, mas ele não estava nem me dando oportunidade. - Eu vou te pagar, eu não quero pegar sua grana assim não, pô, é muita sacanagem. Cê já tá bancando a mãe que eu sei, pô.

Pepê coçou a cabeça com a minha negação recorrente e eu já estava lhe oferecendo o dinheiro de volta porque, naqueles termos, eu preferia não pegar nada. Ele ignorou minha mão estendida e soltou um longo suspiro.

- Eu não quero o seu dinheiro, mano - disse-me. - Mas tem uma maneira que você pode me pagar.

Eu sabia o que era antes dele me dizer e estava congelado em meu lugar, sem ter ideia do que dizer ou fazer. Sua proposta estava clara e o desajeito dele me fazia notar que ele queria pedir aquilo há algum tempo e, embora já o tivesse feito, dessa vez era um pedido oficial e não uma proposta. Era um: eu tô vendo que você precisa e, olha, tem isso aqui...

- É um trabalho como qualquer outro, João - pontuou ao ver meu choque pela proposta. - Você não precisa fazer nada. Sabe, a gente tem alguns privilégios por causa do pai e se eu disser a eles que você não vai pra linha de frente, você não vai pra linha de frente e pronto. Posso te arrumar um salário super legal só pra ficar em uma ou duas bocas. Tem uma perto de casa. Tem uma do lado da Dri. Você não precisa passar por essa de horror e vai poder me pagar de volta. E, tipo, se você conseguir um emprego e quiser ir, de boa.

Eu estava sem reação e sem saber o que dizer, ainda segurando o dinheiro estendido para ele. Tinha alguma coisa gritando no meu interior pelo orgulho perdido; tinha estudado tanto para voltar para o mesmo futuro que meu pai não queria que eu tivesse. Porém, via-me preso em uma sinuca de bico; eu, formado em jornalismo em uma faculdade pública correndo atrás de emprego e devendo ao banco e meu irmão, mal terminara o ensino médio, me dando um maço de dinheiro para pagar a minha dívida.

O mundo era muito sacana.

- Eu não sei o que te dizer, mas eu não posso...

- Não vou aceitar essa merda de volta. Leva isso pra porcaria do banco e paga as tuas dívidas. Deve ter a mais, compra um presente pra mamãe e diz que ganhou na loteria, se quiser, não me importa - Pepê deu de ombros. - Mas pensa sobre isso, cara. Deixa eu te ajudar. Cê sempre levou as surras pra livrar a minha cara, deixa eu levar essa por você.

Meus olhos estavam lacrimejando, mas concordei com a cabeça sobre o teor sentimental. Aceitei o dinheiro, finalmente puxando-o para mim e pegando a mochila para guardar lá dentro. Pela hora, não faria sentido correr de volta para o banco e pagar, então mentalizei que iria no dia seguinte.

- Eu vou pensar sobre... - Não consegui nem dizer.

Pepê concordou com a cabeça e deu um tapinha no meu ombro, sabendo que aquilo era difícil para mim. Queria que houvesse qualquer outra saída, que alguém me ligasse e me oferecesse um emprego naquele segundo, mas se não acontecesse...

O que minha mãe ia pensar? Ela parecia tranquila sobre a escolha de Pepê de entrar para a vida, mas não sabia se ficaria bem se nós dois estivéssemos envolvidos. Mesmo que, como Pepê dissera, eu não ficasse na linha de frente, ainda corria o risco de ser preso em uma batida por qualquer atividade suspeita. Na realidade, eu já corria esse risco só por ser irmão e filho de quem eu era, mas o risco ia aumentar.

A conversa morreu após aquilo e eu recolhi a bagunça feita, sabendo que meu irmão mais novo não o faria, e me retirei com um sincero obrigado. Corri para cara debaixo de grossas gotas de chuva de verão que caíam pesadas sobre a minha cabeça. Abandonei a mochila em casa e peguei o carro de Pepê que estava estacionado na garagem e saí dirigindo sem rumo, pensando em como solucionar aquela questão e qual seria minha decisão sobre sua proposta.



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