22.2 PROBLEMAS

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Mesmo que a Kombi passasse próximo à casa de Pepê, eu ainda tinha que andar um grande trecho íngrime até chegar lá. Pepê morava no alto do Alto e eu sabia que a localização era estratégica para fugas pelo restante de mata que havia no morro e todas as trilhas que levavam a outros bairros, por onde poderiam fugir com mais facilidade, caso houvesse algum confronto mais pesado, que os encurralasse.

Não que o caminho fosse muito difícil, mas fazê-lo carregando uma bandeja de papelão com dois copos de refrigerante doidos para derramarem: nunca parecia uma boa ideia. Por sorte, estava com uma mochila com meus documentos guardados em uma pasta, o que me deixou guardar o lanche dentro dela; se não estivesse com ela em minhas costas, a aventura de levar a comida até a casa de Pepê seria basicamente impossível. Mas eu consegui, com força e persistência, sem muitos acidentes. Toquei a campainha e ele me atendeu um minuto depois, parecendo desgrenhado e pouco vestido, provavelmente tendo acordado há pouco tempo, ao que eu soltei uma careta.

- Bom dia, entra aí - ele deu espaço para que eu passasse.

- Você tá fedido - pontuei, sem conseguir me aguentar.

Ele fechou o portão com um estalo e fez uma careta parecida com a minha. Eram poucos os momentos em que eu me recordava que éramos tão parecidos quanto irmãos poderiam ser. Pepê e eu tínhamos puxado as feições brutas do nosso pai, mas os olhos da nossa mãe. Ele era, basicamente, uma versão menos comportada minha em sua idade. Não haviam muitas diferenças, além dos caminhos opostos que escolhemos.

- Não sou eu, mané, é o cocô do cachorro que eu não tirei ainda - Reclamou.

Eu nem me recordava que eles tinham um cachorro, mas lá estava o animal, tirando um cochilo sob o pequeno pedaço iluminado pelo fraco sol do dia fresco. Pepê começou a caminhar para dentro de casa e eu o segui, sem pestanejar, ainda equilibrando os copos de refrigerante em minhas mãos.

- Cela não te comeu o couro por quê?

A pergunta ecoou ao ver o estado da casa; no pouco tempo em que eu estivera de volta ao Rio, nunca a tinha visto tão bagunçada, tão suja e com tanta louça na pia. Não que eles fossem um exemplo de limpeza, mas a quantidade acumulada era assustadora. Não conseguia ver Cela, tão patricinha como era, vivendo em um lugar assim. Comecei a pensar que eles tinham brigado e que a pergunta feita era a pior possível quando ele me explicou.

- A avó da Cela tá na cidade. Os pais dela imploraram pra ela ir até lá e fingir que está tudo bem. Tem uns dois dias.

Não era a resposta adequada à situação porque não explicava tudo; eu sabia que eles tinham uma empregada que cuidava da comida e da limpeza e não fazia sentido toda a confusão e sujeira em que a casa se encontrava, mas explicava como meu irmão continuava vivo da fúria da namorada. Também explicava porque ele se arrastava pelo caminho e seus olhos fundos. Eu sabia que Cela tinha um péssimo relacionamento com os pais e que ela abdicara da vida de primeiro mundo que levava por ele; havia algo nessa história que indicava que a avó não sabia e nem deveria saber que ela tinha sido expulsa de casa e Cela aceitara perpetuar a mentira e voltar à casa dos pais para que ela não descobrisse, mas imaginava que isso não deveria ser fácil para ela e imaginava que Pepê deveria estar assustado pela garota ter todas as mordomias de volta e não querer voltar mais para... A zona que estava a casa em que eles moravam juntos.

Todo mundo tinha seus problemas, aparentemente.

- Mas tá tudo bem? - Perguntei, sem saber qual era a coisa certa a ser dita.

Ele concordou com a cabeça, enquanto nos sentávamos no sofá da sala e separávamos os lanches entre nós dois.

- Tá - confirmou. - Mas ela tá tendo problemas com os pais lá, claro. E quase não consegue ligar pra mim porque não quer que a avó saiba sobre a gente.

Não quis estender o assunto, sabendo que lhe era doloroso. Já havia namorado uma garota que o avô era alemão e tinha algumas ideias nazistas implantadas na cabeça e ela morria de medo de me apresentar para a família dela. Sabia qual era o sentimento e doía.

A televisão estava exibindo um dos episódios novos de The Walking Dead e nós assistimos, discutindo as cenas e reclamando por falta de cenas de mortes.

O lanche acabou e eu já estava pensando em desistir de conversar com Pepê sobre o empréstimo. Ele estava com a cabeça em outro lugar e a incerteza com Cela com certeza estava mexendo com sua cabeça. Ao que parecia, pelo estado da casa, ele não estava sequer trabalhando com a mesma frequência e eu não queria lhe trazer mais problemas. Decidi, ao final do episódio, que poderia aguardar mais alguns dias antes de falar com ele, mas quando ele desligou a televisão e virou-se para mim, eu soube que não adiantava o quão eu o enrolasse, ele não cederia até que eu lhe dissesse qual era o problema.

Pensei em inventar qualquer coisa sobre Drica, pedindo-lhe qualquer tipo de conselho sobre a garota, que ele conhecia tão bem. Mas sabia que se perguntasse algo a ele, ele iria contar para Cela que contaria para Drica, ou ele mesmo contaria à morena e isso poderia render um disse-me-disse sem nenhum pingo de verdade porque eu e Drica estávamos bem além do limite. Ela era meu porto seguro no momento, a única coisa certa no vendaval.

Ele cerrou os olhos em minha direção, tentando me ler e eu sorri amarelo, percebendo que ele já tinha ideia de qual era o problema. Sabia que não teria como inventar qualquer coisa para não jogar aquela responsabilidade nele no momento e só foi confirmado quando ele disse:

-Mãe disse que você foi ao banco hoje. 



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