22.1 CONTAS

1.1K 135 6

JP 

Estava saindo do banco na hora que respondi a mensagem de Drica, avisando-a que não poderia levá-la ao aeroporto com Talles e Mila. Como eu tinha esperado, minha situação estava pior do que eu tinha planejado a princípio.

Antes de me mudar para o Rio de Janeiro de volta, tirei um empréstimo, paguei as contas que devia, o restante do contrato do aluguel e as despesas da mudança. Eu estava esperançoso que conseguiria um emprego rápido, apesar dos problemas da minha família, por causa da faculdade que havia feito, minhas notas e o meu currículo, que era bastante bom, mas a economia sofreu uma baixa e nem emprego de vendedor eu estava conseguindo. Sabia que no começo do ano era mais complicado arrumar um emprego, mas não imaginava que seria tão complicado. E, agora, minhas economias tinham acabado, eu não havia pagado o empréstimo e tive que ir ao banco negociar, sem sucesso. O juros iria comer o restante do dinheiro guardado na minha poupança e eu não teria nem centavos para tomar uma cerveja.

Eu sabia que minha mãe estava sendo sustentada pelo dinheiro da pensão que pagavam pelos serviços do meu pai, mas também sabia que Pepê lhe dava uma quantia para que ela ficasse mais tranquila e pudesse comprar suas coisas. Queria poder fazer o mesmo, queria conseguir meu emprego e a única entrevista que eu conseguira era para trabalhar seis dias por semana, dez horas por dia e por um salário mínimo, no qual metade iria para a parcela do meu empréstimo. Mal dava para fazer compras para uma semana e, apesar do desespero, preferi continuar procurando por algo que me pagasse um pouco mais, o que certamente foi uma péssima ideia.

Não conseguia entender, não era possível que todas as empresas do mundo me identificassem como o filho do Pedro do Pó. Meu pai tinha sido o bandido mais poderoso do Rio de Janeiro e dominava grande parte das favelas da zona oeste e ainda algumas da zona norte e da baixada, mas já tinham anos. Não era possível que aquela sombra ainda estivesse me prendendo.

Tinha algo de errado comigo e eu não sabia o que era. Eu era formado em jornalismo pela melhor faculdade do país, como não conseguia um emprego? Não entrava na minha cabeça e não tinha nenhuma lógica.

Sentei-me em um dos bancos de cimento que ocupavam o calçadão e me pus a pensar no que seria possível ser feito para o meu caso. Um novo empréstimo já fora descartado pela gerente que me atendeu, eu não tinha mais uma vírgula de crédito na praça. Procurar um emprego não estava dando certo e, embora não fosse parar de tentar, não era uma solução tão imediata quando eu gostaria que fosse.

Havia uma possibilidade. Ela sempre estava ali, mas eu a descartava constantemente.

Resolvi, então, que a melhor opção era pedir dinheiro emprestado ao meu irmão caçula. Seria constrangedor ao máximo e eu sabia que Pepê seria difícil e faria chacota do assunto, mas era a única chance que eu tinha de tentar evitar meu nome de ficar sujo, já que já estava recebendo avisos sobre a inclusão no SPC. Não seria uma quantidade pequena, mas eu sabia que pra Pepê era troco de bala. Conhecia os ganhos absurdos e rápidos do tráfico para saber que meu irmão, crescendo no meio e caminhando para se tornar o herdeiro do meu pai em poucos anos, tinha grana o suficiente para comprar uma mansão no meio da mata atlântica e ainda pagar todas as multas pelo desmatamento sem sofrer nenhum dano ao seu estilo de vida atual.

Desbloqueei o celular e procurei meu irmão na lista de contatos, encontrando-o entre os últimos utilizados sem muito esfoço. Abri sua janela de conversa e tentei pensar em alguma coisa decente para dizer, sem que já entrasse no assunto do que eu precisava.

"Mano, tá com tempo livre hoje?" Mandei.

Visualizei que estava online e isso foi bastante satisfatório, era bom que ele me respondesse antes que eu pegasse a condução para casa, pois poderia pegar uma Kombi que me deixasse mais perto da casa dele. Vi quando ele começou a digitar e a resposta veio logo a seguir.

"Tô em casa, mané. Pq?"

Por quê? Levantei-me do banco em que estava sentado e comecei a caminhar em direção às escadas que me levariam ao outro lado da estação, onde conseguiria pegar uma Kombi para a casa dele. O vento estava forte nesse dia em específico, o que era muito raro, e as pessoas estavam andando com mais cuidado e reparando em tudo. Provavelmente dei sorte porque eu sabia, por conhecimento de causa, que os dias de verão no bairro e principalmente no centro comercial dele eram famosos por temperaturas beirando a casa de 50ºC.

Elaborei a resposta em minha mente e digitei enquanto andava lentamente pelo calçadão, com medo de esbarrar em alguém ou alguma sacola flutuante me acertar a cara enquanto estava desatento. Escolhi as palavras com cuidado, com medo de passar a mensagem errada ou passar a mensagem certa muito cedo. Decidi que era melhor fazer o pedido cara a cara do que fazê-lo por mensagem.

"Preciso bater um papo contigo. Coisa importante. Posso ir aí?"

A marcação de que ele havia lido a mensagem surgiu automaticamente a ela ser enviada, o que demonstrava que ele estava com o chat aberto e estava preocupado com o que eu dizia. Não gostava de deixar ninguém preocupado, mas era melhor do que surgir na casa dele do nada para pedir dinheiro emprestado.

"Beleza. Só não tem comida."

Eu estava passando na frente do McDonalds na hora que ele disse e congelei-me em meu lugar. Encarei a tela do celular e fechei os olhos, sabendo que levar comida seria ótimo para melhorar o humor do meu irmão antes de jogar a bomba em seu colo.

Com um suspiro, decidi gastar uma parcela do último dinheiro que eu tinha, entrando na lanchonete fast-food. E enquanto esperava na fila levemente grande do horário de almoço, digitei uma mensagem para o meu irmão:

"Nãose preocupe. Eu levo." 



Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!