012 - Fim da curiosidade, início do tormento

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E assim foi feita a vontade de Margot, e os três foram conversando animadamente até chegarem à sala que em que acontecia todos os encontros de Mary e Thed.

A sala onde eles trabalhavam soaria melhor, talvez.

Seria mais prudente da parte da Noviça Mary ter insistido para a menina continuar no jardim com as outras crianças, entretanto, não conseguia negar para si mesma – e provavelmente nem para qualquer um que viesse a perguntar – que estava encantada com a menina. Não só porque era filha de Thed, mas também era uma criança encantadora, risonha e com muita energia, fazia Mary se lembrar um pouco como ela mesma era na sua infância e até na adolescência.

Mas suas bochechas gordinhas e seus cabelos pretos e brilhantes eram muito diferentes dos de Mary, a menininha parecia-se muito com uma boneca, com grandes e brilhantes olhos azuis e uma pele tão branca que parecia de porcelana. Era bem possível que Mary estivesse encantada um pouco demais para uma noviça que estava trabalhando em busca de uma promoção à freira. Porém tudo se tornava perfeitamente justificável quando, com um de seus comentários, provocava o riso em Margot e Thed. Era muito satisfatório, pois sabia que ajudar pessoas em dificuldade era um dos grandes objetivos de vida das freiras.

E só Deus sabia o quanto aqueles dois deveriam estar precisando de um sorriso, coitadinhos, passar por um divórcio não deveria estar sendo fácil.

De certa forma, aquilo trouxe um alívio para Mary, era claro que tinha vocação para freira! Não que ela tivesse ficado em dúvida sobre isso, mas ela sempre bom ter uma certeza a mais.

- Vou adorar brincar com os números! – disse Margot entusiasmada enquanto os adultos se instalavam em suas respectivas cadeiras.

Thed não conseguia entender muito bem como as palavras "brincar" e "números" podiam coexistir em uma mesma frase, somente sua filha para pensar numa coisa dessas, pensou Thed sem saber muito bem o que ela estava tramando.

Mas em questão de instantes ele descobriu.

Margot surrupiou um dos grossos cadernos da pilha que esperava ser examinada e achou interessante jogá-lo para o alto, desarrumando todas as anotações, colocando-as fora de ordem e, quiçá, rasgando alguma delas.

Thed quase podia ver os meses de trabalho crescerem a cada vez que Margot sacolejava mais o caderno. Tentou repreendê-la e chamar seu nome com bastante firmeza, entretanto, a menina parecia estar conectada ao seu próprio mundo de diversão e destruição.

Não necessariamente nessa ordem.

Mary ao notar a movimentação estranha logo atrás de sua cadeira, resolveu tomar as rédeas do assunto, e , com a graça de sempre, se levantou da cadeira e sem levantar a voz disse:

- Senhorita Margot Hopkins.

Como num passe de mágica a criança se virou para ela. E Thed começou a desconfiar que está criando uma traidora.

- A senhorita pode me explicar o que está fazendo? – perguntou a Noviça completamente intrigada com a destruição, como se não tivesse idéia de que aquilo era mesmo uma destruição.

- Bem... – começou a pequena Margot hesitante, olhando do caderno mutilado para Mary. – Estava jogando esse caderno para o alto...

- E por que estava fazendo isso?

- Queria ver se quebrava – disse Margot perto do desânimo, talvez porque concluiu que o caderno de fato não quebrava. – Fora isso, ele é marrom, não gosto dele.

- Mas eu gosto dele, ele é meu – falou Mary. – O que você fez foi errado.

Margot concentrou seus olhos no chão, sua boquinha rosada começava a tremer, e após alguns instantes de reflexão, falou com a voz trêmula.

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