21.3 VELCRO SIAMÊS

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Estávamos sentados em uma lanchonete no aeroporto, esperando a hora do voo de Mila e Talles enquanto comíamos um lanche qualquer. Eles já poderiam ter entrado na zona de embarque, mas Mila estava delegando isso o máximo que podia, deixando-me perceber que tinha o mesmo sentimento, que eu nutria, de não querer se afastar de mim até o último minuto.

Era gostoso quando a gente percebia que o carinho era devolvido de forma igual; a satisfação de notar o esforço dela de permanecer ao meu lado e todo o carinho que tinha por mim. Meu coração já estava dolorido de saudade e parecia que cada segundo chegava a ser palpável.

Eu estava calada, acompanhando a conversa dos dois, rindo e comentando quando achava que deveria dizer alguma coisa. Não que eu não gostasse de partilhar palavras com aqueles dois, mas porque meu interior estava afundado em sentimentos não muito bons com a partida deles e com o comportamento esquisito de João Pedro.

- Você lembra uma vez... - Mila começou, assim que o silêncio se fez presente ao Talles retirar-se para ir ao banheiro e ligar para o pai para avisar que estava no aeroporto esperando o horário de embarcar. - Que a gente estava atentando porque queríamos ir em uma festa e seu padrasto nos chamou de irmãs siamesas de velcro?

Fiz uma careta porque eu lembrava bem claramente dessa situação, mas as palavras me pareceram ter um significado bem diferente com a mentalidade que tinha hoje. Mila tinha chegado à minha casa há menos de uma semana e eu tinha uma festa de uma amiguinha para ir - a qual eu queria muito ir - , mas Mila não havia sido convidada e minha mãe estava ponderando sobre ser falta de educação aparecer com ela na festa do nada. Mesmo assim, nós duas estávamos insistindo com afinco que gostaríamos de ir.

Quando o não se tornou definitivo, nós nos trancamos no meu quarto sem querer jantar (mas contrabandeamos alguns biscoitos para não passar fome) e ficamos algumas horas discutindo sobre o que meu padrasto quis dizer; eu nem ao menos sabia o que siamesa significava, mas assim que Mila me explicou, nós começamos a avaliar o contexto e tentar encontrar uma explicação adequada para a nomeação confusa que ele nos dera.

Como nossa filosofia de criança, convencemo-nos que éramos irmãs siamesas porque nós vivíamos juntas e não nos desgrudávamos para nada, mas de velcro porque nós morávamos separadas. Mila, ainda em São Paulo, passava quase todas as férias conosco e era uma festa infinita quando ela vinha. Então, embora fizéssemos tudo juntas quando ela estava no Rio, o velcro nos permitia que ela fosse de volta para a sua casa quando precisasse.

- Você só notou agora, né? - Mila riu. - Eu estava pensando sobre isso outro dia e vi o que ele realmente quis dizer. Que tipo de doente mental chama duas crianças de lésbicas só porque elas ficam juntas?

Minha memória foi um pouco mais além, enquanto nós estávamos em nossa filosofia de criança no meu quarto, lembrava-me de minha mãe gritando com o meu padrasto. Não era difícil que isso acontecesse, então nem me incomodava mais; eles gritavam um com o outro, discutiam, ele batia a porta de casa, ficava horas fora e voltava completamente bêbado para encontrar minha mãe com a cara roxa de tanto chorar. Era tão frequente que fazia parte do meu dia-a-dia e nem mesmo Mila, que era de fora, se abalou com o ocorrido. Porém, vendo desse novo ângulo, eu entendia o motivo da briga.

- Ele nunca foi um exemplo pra ninguém - murmurei.

Meu padrasto batia na minha mãe também, com uma frequência assustadora. Ele dizia que era porque ela fazia coisas erradas e, como eu, precisava de um corretivo as vezes. Eu não entendia, mas como minha mãe me dava umas palmadas quando eu fazia besteira, para mim era algo assim. Até que, uma vez, ele me bateu. De verdade. Cortou minha boca com a força do tapa que me deu e, então, todo mundo ajudou a colocar ele fora de casa.

- Prefiro nossa explicação - Mila pontuou.

- Eu também - ri.

Mila franziu a sobrancelha em minha direção e analisou minha expressão distante. Ao perceber seu interesse súbito, arregalei os olhos e fingi que nada estava acontecendo, mas já era tarde demais. O mal de se ter alguém que te conhecia há tanto tempo era que, não importava a distância ou a frequência baixa em que nos viámos, ela continuava me lendo como se fosse ontem que fizemos uma festa do pijama com hipopótamos rosas de pelúcia.

- O que há com você que tá estranha desde ontem? - Inquiriu.

Fiz uma careta. Ledo o meu engano de que conseguiria esconder isso de alguém. Já tinha sido malsucedida em esconder sem falar nada, já que teria que contar, então que o fizesse de forma direita.

- JP tá estranho - não fiz rodeios porque de nada adiantava e eu sabia que Mila com certeza teria alguns conselhos importantes para ma dar. - Eu contei pra ele... Que eu sou... Sabe...

- Virgem - Mila me ajudou, segurando o riso.

Não pude evitar fazer uma careta. Para mim, aquilo era difícil, mas Mila era natural quando falava de sexo e eu a invejava tanto por isso. Queria ter aquela confiança toda e não travar toda vez que aquele assunto vinha à tona.

- Isso. Contei pra ele e ele tá meio afastado agora. E eu não sei o que eu faço.

Mila sorriu levemente e estendeu a mão por sobre a mesa para pegar a minha e me tranquilizar. Eu sabia que deveria ter falado alguma coisa antes porque o seu voo foi anunciado nos altofalates naquele exato momento e não teríamos muito tempo para conversar.

- Dri, minha linda, homem é assim mesmo - Mila pontuou. - Provavelmente ele só está sem saber como fazer com você e com medo de te assustar. Não sei.

Mila não sabia como me ajudar e estava proferindo uma série de consolos que não faziam muito sentido, mas acabei sorrindo por ela tentar. E senti meu coração se partindo em dois por motivos diferentes, o primeiro era porque Mila não conseguia encontrar um motivo para o comportamento de JP, o que significava que eu não estava errada; o segundo era porque Talles se aproximou correndo e colocou a mão no ombro de Mila, deixando claro que era hora de ir.

Mila se levantou quase ao mesmo tempo que eu e envolveu-me em um abraço apertado.

- O velcro se separa - murmurou em minha orelha. - Mas ele sempre volta a se grudar.

Ri alto, sem conseguir me conter.

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