21.2 MUDANÇA DE PLANOS

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O dia era de despedidas. Meu coração estava apertadinho por dizer tchau para aqueles dois malucos que invadiram minha casa e bagunçaram minha vida e eu estava chateada por eles morarem tão longe que eu não fazia ideia de quando os veria de novo.

"Não vai dar, Dri, eu sinto muito. Tô enrolado." Foi a resposta de JP ao pedido de levar Mila e Talles ao aeroporto.

Fiz um leve bico, sem saber o que responder, então só ignorei e continuei o planejamento. Teria que levá-los de ônibus, não que eles se importassem - Mila até preferia, porque minha mãe estaria trabalhando naquele horário. Iríamos sair mais cedo e eu não tinha certeza de qual linha pegar, mas teria que dar certo, mesmo com a quantidade de malas que nós tínhamos.

Quando informei que JP não nos levaria, os dois se encararam com uma expressão leve de pânico.

- Não é melhor a gente pedir um táxi? - Talles sugeriu. - Por causa das malas e tudo mais.

A possibilidade de pedir um táxi havia passado pela minha cabeça, mas minha situação monetária não me permitiria tamanha peripécia e sugerir isso, enquanto eles estavam na minha casa, seria uma grosseria extrema a qual eu não estava disposta a cometer. Embora a ideia me apetecesse, a minha preocupação maior não era carregar as malas até o aeroporto de transporte público e sim retornar do aeroporto para casa, sozinha e no horário de maior movimento.

- Depende do tempo, eu acho - Mila pontuou, parecendo disposta a aceitar a proposta do namorado, contrariando meu pensamento de que ela preferiria o transporte público. - É muito tempo de viagem daqui pra lá de ônibus?

Minha cabeça fez um trajeto mental, tentando encontrar os transportes mais próximos e mais rápidos para o aeroporto. Sabia que tinha um caminho mais rápido, indo por madureira, mas não o conhecia muito bem. O que eu sabia com certeza era de mais de duas horas de viagem, com um trem e um ônibus.

- Umas duas horas - respondi. - São duas passagens.

Os dois se entreolharam mais uma vez e eu soube que estava decidido antes mesmo que Talles dissesse:

- Então acho melhor pegarmos um carro. Tem algum ponto por aqui ou algum telefone pra gente marcar?

Eu não tinha um número, por isso recolhemos as malas e partimos para o centro comercial mais próximo, onde encontramos um taxista muito contente por pegar uma corrida tão longa, o que era um pouco raro, até. Conhecia os táxis dali por, as vezes, fazer compras de emergência no mercado sozinha e ter que utilizar o serviço para levar tudo para cara; eles estavam sempre reclamando de tudo, de onde iam, quem carregavam... Tinha uma lenda urbana na região que dizia que aqueles taxistas só gostavam de levar casais ao motel porque ganhavam cupons de desconto para eles mesmos.

A viagem, embora não fosse também tão rápida por causa da longa distância, foi sem muitos problemas ou engarrafamentos. A única confusão realmente importante foi que o taxista errou o portão de embarque, deixando-nos no terminal errado. Mas estávamos com duas horas de antecedência, então não houve desespero. Mila tentou insistir que eu voltasse para casa logo, que o taxista me levasse direto para casa, mas fui incisiva; todo o tempo que pudesse passar com ela antes de perdê-la outra vez seria aproveitado ao máximo.

- Mas realmente é uma boa ideia você voltar de táxi, Drica - Talles pontuou, enquanto colocava as malas no carrinho. - Não tem ônibus direto daqui, tem?

Automaticamente, mesmo que não pudesse ver o ponto de ônibus, olhei para a rua, na esperança de ver alguma coisa que me pudesse responder sim, mas não havia. Com sorte, conseguiria voltar pra casa com apenas duas conduções, mas o caminho mais rápido iria precisar de três. Embora um pouco preguiçosa e temerosa pelo horário de saída dos trabalhadores, que logo lotariam as ruas e todos os transportes públicos, não havia nada que eu pudesse fazer.

- Não, mas tudo bem - contrariei. Não tinha porque gastar cem reais em uma corrida de táxi até a minha casa só porque não havia ônibus direto. Eu iria sobreviver. - Sei como voltar, vai dar tudo certo.

Cem reais era muito dinheiro. Eu conseguia visualizar que pagaria um terço de um mês de aluguel, se eu conseguisse a república que eu tinha pesquisado há algumas semanas. Dava para pagar quase três semanas de passagens de ônibus e eu provavelmente compraria um ou dois livros que seriam necessários para a minha graduação. Então, apesar de ser mais confortável, eu não pagaria por algumas horas o que poderia salvar minha vida quando estivesse morando sozinha.

- Tem certeza? - Talles insistiu e achei fofa a sua preocupação comigo. E pela cara que Mila fazia ao seu lado, ela também. - A gente passou por uns lugares que pareciam meio perigosos.

Quase ri porque o máximo de lugar perigoso que passamos foi cortando a Maré pelas vias expressas. Não que a Maré não fosse perigosa, mas era uma situação a qual eu estava acostumada, já que viera de uma favela. Não me assustava passar pela Maré ou por qualquer outro lugar, o que me assustava era estar sozinha e alguém desejar o meu mal.

- O ônibus não faz esse mesmo caminho - garanti a ele. - Eu vou para o Centro e pego e trem. Esse horário é super movimentado por lá, não vai ter problema.

Ele não parecia muito convencido, mas começamos a caminhar em direção ao outro terminal de embarque e ele se calou, olhando as placas e tentando entender o caminho enquanto empurrava o carrinho. Mila nos alcançou, tinha ficado para trás para tirar uma foto da porta do aeroporto, e bateu levemente no ombro do namorado para chamar sua atenção para ela. Ele sorriu e envolveu sua cintura com um braço.

- E qualquer coisa, ela pode ligar pra mãe ou pro JP - Mila me apoiou, mostrando que mesmo aérea, tinha acompanhado o teor da conversa com bastante afinco.

Sorri amarelo, sem saber se eu poderia ligar mesmo para JP. Ele pouco estava falando comigo e tinha dado uma desculpa qualquer, sem nenhuma justificativa forte, para não nos trazer ao aeroporto. Estava, obviamente, ignorando-me como eu tinha medo que ele estivesse fazendo.

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