21.1 ESQUISITO

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Drica

A viagem de volta para casa foi tranquila como deveria ser. Mila estava tão esgotada que dormiu o caminho todo e Talles e JP ficaram conversando sobre tipos de bebidas que eu não conhecia, então me retraí a ouvir músicas no meu celular.

Tinha certeza que havia algo de errado em tudo aquilo, João estava agindo de forma esquisita, sendo mais polido, mais centrado e até mesmo mais distante desde a minha confissão à beira mar. Eu não sabia o que fazer com isso; sentia o nervosismo subir até a garganta e congelar todo o meu corpo quando nos falávamos. A noite anterior tinha sido esquisita o suficiente e, agora, estava me ignorando durante toda a viagem de volta para casa.

Devia ser coisa da minha cabeça.

Só podia ser coisa da minha cabeça.

JP era fofo e atencioso o tempo todo, o fato de estar levemente calado e distante e preferindo conversar sobre outras coisas com outras pessoas não o fazia estar estranho e distante, fazia? Era só um acaso, eu estava vendo coisas demais.

Quando estacionamos na garagem de casa, minha mãe estava nos esperando de camisola na porta de casa e deu um pulo ao ver Talles carregando Mila para dentro de casa, enquanto ela dormia tão profundamente que parecia desmaiada.

- O que houve com ela? - Perguntou, seguindo-o. - Ela está bem? Qual o problema?

- Só está cansada - ele riu de suas preocupações.

Ouvi-os conversar, mas eles tinham entrado e eu ainda estava descendo do carro e não pude identificar o que estava sendo dito. JP estava correndo o portão da garagem para fechá-la e eu fiquei sem saber se deveria entrar ou ficar ali e acabei ficando parada em frente a porta fechada do carro, desligando a música do celular enquanto decidia qual era a melhor maneira de reagir.

Fiquei só uns dois segundos sem olhar JP enquanto bloqueava a tela do celular, quando levantei a cabeça, não o encontrei em lugar algum. Meu olhar vagueou pela garagem, procurando-o pelos espaços não bloqueados pela visão do carro, até que senti braços envolvendo minha cintura e soltei um grito, sem conseguir me conter.

A gargalhada de JP se fez presente e eu sentia seus lábios em meu pescoço, arrepiando-me por inteira.

- Desculpa pelo susto, morena - murmurou. - Mas me deu uma vontade súbita de te agarrar.

Virei-me de frente para ele e foi como se combinássemos a movimentação, pois, no segundo seguinte, ele me apertou contra o carro e me tascou um beijo daqueles, que tira o fôlego e bagunça os sentidos. Minhas mãos ficaram comportadas espalmadas em seu peito e as dele envolveram minha cintura com graça. Beijou-me a boca e eu suspirei em seu beijo, ficando na ponta dos pés para acompanhá-lo.

- Ficou quietinha a viagem toda... - Murmurou, assim que seus lábios soltaram dos meus.

Sorri porque percebi, ali, que tudo só podia ser bobagem da minha cabeça mesmo. Ele me dissera que não se importava com o fato de eu ser virgem, por que então estaria agindo de forma esquisita?

Relaxei instantaneamente.

- Não consegui acompanhar o papo de vocês, meninos - pontuei.

João Pedro riu do que eu disse e escondeu o rosto no meu pescoço, fazendo-me arrepiar levemente. Senti seus lábios depositarem alguns beijinhos leves na região e minhas pernas começaram a se assemelhar à consistência de gelatina.

- Tenho uns problemas pra resolver que acumularam por causa da viagem - alertou-me, enquanto voltava a me encarar. - Acho que vou ficar com o tempo curto por uns dias e...

Eu parei de ouvir o que ele falava, sentindo meu estômago embrulhar ao perceber que ele estava me avisando que iria se afastar, depois de quase me fazer acreditar que estava normal comigo. Depois daquilo, quanto tempo bastaria para ele me dar o fora?

- ... E eu ainda não sei como que eu vou fazer, mas eu te aviso - continuou, sem que eu conseguisse entender todo o contexto do seu discurso.

Tinha perdido mais da metade do que JP dissera com meu pequeno ataque de pânico e decidi que era melhor falar menos e ver no que dava.

- Tá.

Ele me deu um beijo rápido na boca e sorriu sobre meu olhar confuso e levemente triste.

- Me leva no portão?

Concordei com a cabeça e deixei-o entrelaçar a mão na minha. Caminhamos até o portão, que eu abri, deixando-o passar. Ele me deu mais um beijo rápido e suspirou.

- Tchau, morena - disse.

- Tchau - falei, com o coração apertado.

Tinha algo muito errado acontecendo e eu não fazia ideia do que era, mas era ruim. Fechei o portão e encostei minhas costas na parte de dentro, olhando para o pequeno trecho de céu que podia ver acima da minha cabeça, implorando por algum tipo de luz divina que me ajudasse a entender o que acontecia agora.

Eu nunca tinha namorado com ninguém, nem estado com ninguém por tanto tempo ou tantas vezes. Não fazia a menor ideia de como me comportar ou reagir. Não sabia se eu podia aparecer na casa dele ou lhe mandar uma mensagem perguntando qualquer coisa boba que eu conseguisse pensar. Não sabia qual era o nível de proximidade que podíamos manter e, definitivamente, não fazia ideia de como reagir quando ele parecia tão distante quanto estava.

João era sempre prestativo e tinha me envolvido na rede de doçura e liberdade dele. Enquanto os outros caras com quem eu saía eram, em sua maioria, babacas querendo se satisfazer por alguns momentos, JP parecia curtir cada segundo ao meu lado e me fazia sorrir tantas vezes quanto era possível. E lá estava eu, completamente apaixonada e sem saber o que diabos eu fazia com tudo aquilo.

E se eu estivesse esperando demais? Via Talles e Mila, Cela e Pepê... Eles moravam juntos, estavam quase sempre juntos e eram como se fosse uma extensão um do outro, sempre sabiam de qualquer informação de seu par que você precisasse... E se eu estivesse esperando o mesmo de JP antes de conseguirmos desenvolver esse tipo de coisa e isso estivesse assustando ele de alguma forma?

Urg. Relacionamentos eram difíceis demais.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!