01. Garota Assassina

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Este é um mundo à beira do colapso.

Onde se mata e se morre por sete espadas.

As lendárias Lâminas do Santo Ofício.

Promessas de poder e onipotência. Por um preço. Maior do que qualquer homem ou mulher possa imaginar. Mais pesado do que qualquer um possa suportar. Nenhuma alma que as tenha empunhado consegue encontrar paz. Portar uma Lâmina do Santo Ofício é queimar pela eternidade em um tormento inescapável.

***

O pai reservou-lhes um olhar agradável.

— Esperem aqui, meninas. Não vou demorar.

A expressão confiante de um guerreiro no auge da forma física e das habilidades não poderia ser superada por qualquer desafiante que fosse. À frente havia um único homem, de máscara de ferro contornada por linhas finas de metal cromado, que papai dizia fazer parte de uma das duas facções que lutavam pelo destino do mundo. Papai sempre fora neutro em uma guerra na qual ele não tinha outra escolha se não lutar. Desafiantes sempre apareciam. Sempre em busca de um duelo, espada contra espada. Eles desejavam uma única coisa, o poder que papai guardava com dedicação, a Lâmina do Santo Ofício.

Por baixo da máscara, podia-se ouvir a respiração pesada e distorcida, como quem respirava com auxílio de aparelho mecânico. Era enlouquecedor o ruído cadenciado de inspirar-expirar. O sobretudo negro sacudia ao vento; a cor preta ocupava toda a roupa. O homem parecia um demônio saído de um pesadelo horrendo.

— Nos encontramos de novo, Retalhador? — a voz saiu grotesca, abafada pelo ruído mecanizado da máscara. O tom de desdém sugeria que estava sorrindo de satisfação pela chance do duelo. — Dessa vez a Lâmina será minha.

Aquele era o homem que matara mamãe anos antes. Aquele era o maior desafiante de todos e o mais perigoso. Papai estreitou os olhos, um misto de raiva e pesar:

— Isso acaba aqui e agora.

Papai nunca foi vingativo. Até aquele duelo.

Quando executou o primeiro movimento, a pisada profunda levantou poeira do solo, soprada pelo vento. Ele empunhou a Lâmina do Santo Ofício na direção do adversário. O homem da máscara de ferro preparou-se, sacando a espada de lâmina grossa e fosca que trazia atada às costas. O duelo começou em movimentos rápidos e pesados, de espadas chocando-se furiosamente uma contra a outra. Duas Lâminas do Santo Ofício. O homem da máscara de ferro também possuía uma.

Papai lutava com a agilidade sobrenatural proporcionada por sua lâmina escura, a Dança da Morte, o cabelo ruivo e cheio ondulando a cada movimento de ataque ou esquiva contra a espada do inimigo. O homem da máscara de ferro era mais lento que papai, porém, mais preciso nos ataques. Quanto mais lutavam, os golpes se tornavam mais potentes. Cruzaram espadas, uma, duas, três vezes, movendo-se em círculo, quase que completamente engolfados em uma nuvem de poeira que não parecia incomodá-los. Papai deu um passo atrás e cortou na horizontal, obrigando o adversário a aparar o golpe e jogar o corpo para trás a fim de evitar um contragolpe. Papai tentou aproveitar a chance e avançou; a pisada firme levantando mais poeira. O homem usou o impulso do ataque de papai para encostar a lâmina fosca na máscara de ferro e arrastou-a com um puxão; a fricção fez o aço brilhar como fogo. Não flamejava, apenas brilhava alaranjado. O calor intenso da Tempestade de Fogo obrigou papai a se afastar.

Os dois ofegavam, encaravam um ao outro, empunhando as espadas com as duas mãos, aguardando por um momento para executar o próximo ataque. Dança da Morte contra Tempestade de Fogo. Papai deu um passo à frente e cortou na vertical; o homem da máscara de ferro aparou e faíscas voaram nos olhos de papai, cegando-o por um instante. O visor preto da máscara protegia os olhos do adversário. Papai não parou de atacar; cegueira não era um empecilho para alguém com o treinamento dele. Os dentes trincavam de raiva. Aquela definitivamente era uma batalha de vingança.

As Lâminas do Santo OfícioOnde as histórias ganham vida. Descobre agora