Me sinto meio idiota

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  Chegar atrasada nas aulas já estava virando rotina, ainda mais depois de alguns acontecimentos. Esses dias me fizeram perceber o quanto estive afastada das pessoas, ainda mais quando essas pessoas eram meus melhores amigos. Lola e Yuri faziam de tudo para me distrair desde que souberam de minha situação, e eu agradecia muito eles por isso. Tudo estava tão confuso, e o pior de tudo é que não falei com Rafael desde semana passada. 

   Podem me xingar de todos os nomes possíveis e impossíveis, também não sei como paramos de nos comunicar assim, do nada. Acredito que seja pelo fato de eu ter ignorado suas ligações no dia da briga com a minha mãe, ou talvez seja porque suas fãs estejam me xingando mais que o normal esses dias. Não me importo com isso, nunca me importei na verdade, mas não aguento que enviem xingamentos a minha mãe por ter me colocado no mundo. Isso me rendeu uma boa risada. Meu deus, Lia, pare de se preocupar com isso. 

   A primeira aula do dia era de física. A matéria era insuportável, mas o professor nem tanto. Acho que conseguiria aguentar alguns minutos com ele. 

   Não prestei atenção na aula e acho que isso era óbvio para todo mundo, principalmente para as duas pessoas que mais se preocupam comigo ultimamente. A cada dez minutos recebia uma bolinha de papel enviada de Lola, na maioria das vezes a bolinha acertava na minha cara - tenho a leve impressão de que nessas vezes, ela fazia de propósito-. 

   Mergulhada em tantos problemas, pensei em minha mãe. Me sentia péssima com a nossa discussão, lembro que já nos desentendemos algumas vezes, só que não tanto a esse ponto. A consciência pesava mais ainda por eu ter usado a noticia de que meu pai estava na cidade para escapar de casa. Queria que quando nos encontrássemos depois de três meses, quando ele finalmente tirou as merecidas férias no trabalho, eu me jogaria em seu abraço e riria igual uma bobona, igual quando era pequena. Mas isso não foi como o planejado. 

   Me pergunto o que ela está fazendo agora, como ela passou esses dias sem mim. Infelizmente, tive que parar de pensar nisso quando caí da cadeira quando fui atingida por um objeto não identificado. Olhei paro os lados atordoada e com a bunda dolorida, a sala estava vazia exceto por Lola e Yuri que estavam rindo desesperadamente.

- De onde isso veio? Ah, não... - olhei para o objeto voador, aquilo eram um estojo. - Nunca pensei que estojos fossem tão pesados assim. 

- Agora aprendeu a lição. - Yuri recuperou o fôlego e parou de rir aos poucos, enquanto isso a bobona ainda estava tendo um ataque em cima da mesa do professor. - Você está parada igual uma idiota a horas, nem percebeu que bateu o sinal para o intervalo. 

- Era realmente necessário o estojo? - ainda estava indignada, levantei do chão com a bunda doendo enquanto o melhor amigo de todos guardava meu material em minha bolsa. Lola continuava jogada na mesa do professor rindo de mim. Peguei o objeto do chão e joguei na mesma. 

- AI! - gritou Lola quando o estojo acertou sua cara em cheio! Fiz uma dancinha escroto de comemoração. 

- Tudo que vai volta, querida! - ditei uma das famosas frases. - Agora, da pra você levantar da mesa do professor? Quero ver se alguém pega você deitada ai em cima. 

- Vamos? Estou morrendo de fome. - Yuri já tinha arrumado minha bolsa e estava com a mesma pendurada em seu ombro, aquilo estava um peso mas para ele parecia que estava carregando uma bolsa cheia de papéis. Que inveja. 

   Saímos da sala, caminhando pelo corredor meio cheio pude perceber como o tempo passou rápido. Cumprimentei alguns conhecidos, não é como se eu conhecesse só Lola e Yuri nesses três anos que estudei aqui. Fiz amigos e alguns não tão amigos assim. Não estava afim de comer nada, felizmente eles entenderam isso. Sentei em um banco dentro do pátio mesmo, a chuva lá fora não permitia que ninguém circulasse por um lugar que não fosse coberto.

Clouds → Rafael Lange | CellbitOnde as histórias ganham vida. Descobre agora