Dezoito - Alice

Começar do início

E era exatamente por causa de Filippa que eu não queria que ele me visse ali, porque o modo como suas mãos acariciavam o pelo dela, o modo como ele sorria – aquela era a primeira vez que eu o via sorrir – e parecia tão... Calmo, e não perturbado como sempre. Ele parecia um rapaz normal.

- Gostando da visão, princesa?

- Tobias!

Me virei tão rápido que quase caí com o movimento, e encontrei o gato de botas sentado displicentemente na placa da hospedaria Trent. Ele balançou o rabo daquele jeito preguiçoso e, embora gatos não fosse capazes de sorrir, eu podia jurar que era o que ele estava fazendo.

- Você não respondeu minha pergunta – ele insistiu com um bocejo entediado.

- É porque não é da sua conta, seu gato folgado. – respondi, cruzando os braços, e lancei um outro olhar à Jax. Ele, obviamente, tinha sido despertado de seu transe de normalidade com meu grito e, naquele momento, estava me encarando com aquele misto de ódio e tristeza. Então simplesmente montou em FIlippa, sem sela, sem nada, e pressionou os pés em seus flancos, fazendo-a arrancar. A crina branca da égua batia em seu rosto e ele continuou a me encarar, selvagem, quando passou por mim e desapareceu em um rastro de poeira.

- Bom, acho que já tenho minha resposta.

Era Tobias outra vez, o senhor gato inconveniente.

- O que é que você está fazendo aqui? – demandei. – Você me trouxe para o meio do nada, me largou nessa hospedaria, depois volta como se nada tivesse acontecido? Por onde você tem andado?

Ele estreitou seus olhos felinos, embora eu não soubesse se gatos eram capazes de fazer isso também.

- Por acaso a princesa está preocupada comigo?

- Não, estou irritada com você. É completamente diferente.

Tobias desceu da placa e veio andando em minha direção apoiado nas patas de trás como um humano meio desajeitado. Por que ele gostava de andar daquele jeito, quando assumir sua natureza quadrúpede devia ser muito mais confortável, era um mistério.

- Pois eu sei de uma coisa que posso fazer para que você não fique mais tão irritada comigo.

Revirei os olhos e cruzei os braços. Se houvesse um prêmio nas Terras Encantadas para gato mais convencido do ano, Tobias com certeza levaria o primeiro lugar por unanimidade.

- Eu sei – ele continuou, enquanto eu o encarava com ceticismo. – para onde Jax Trent foi, e não me diga que não quer ir trás dele, porque está nos seus olhos. Sou um ótimo observador, princesa.

Pensei em xingá-lo, pensei mesmo. Pensei em bater o pé e voltar para dentro da hospedaria, pesei até em espantá-lo com um balde de agua gelada, mas o batimento acelerado do meu coração e o sangue rugindo em minhas bochechas denunciava para mim mesma que ele estava certo. E, percebendo que estava certo, Tobias, sorriu e passou por mim – dessa vez nas quatro patas – roçando a cauda ruiva em minhas pernas.

- Só não entendo uma coisa – disse, enquanto o gato caminhava na direção que Jax tinha tomado. – Por que você e o Sebastian querem tanto me empurrar assim para o ogro do Jax?

Acho que ele deu de ombros, mas não tenho certeza.

- Talvez você seja capaz de amolecer um coração endurecido. Só isso.


Por algum motivo, eu sabia que seguir Tobias, a pé, pelas Terras Não-Clamadas, não era a coisa mais inteligente que eu podia fazer. Mas, mesmo assim, fiz, e por isso reconheço que mereci tudo o que aconteceu. Mas calma, vocês já vão entender.

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