20.2 REVELAÇÃO

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Mesmo ainda à distância, eu podia ver seu sofrimento. Enquanto caminhava pela areia até onde ela se entocara, via seu corpo balançar e tremer. Estava sentada, abraçando os joelhos e com o rosto escondido entre as pernas e os braços e claramente chorava muito.

Parei um pouco afastado ainda, sem saber como abordá-la, sendo que eu era o causador do seu desconforto e tristeza.

Admirei-a, então, a distância por um período de tempo.

Ela continuou chorando por um período, a cabeça balançando para baixo e para cima, junto com os seus ombros, claramente por causa de soluços contidos. Seu cabelo balançava levemente por causa da brisa marítima e ela pareceu se encolher ainda mais, com frio, talvez.

O que eu poderia fazer para acalmá-la? Para deixar claro que eu não estava indo a lugar algum? Eu tinha acabado de pedi-la em namoro, na esperança de que isso a fizesse relaxar e abaixar a guarda comigo, sem ficar com aquelas neuroses intensas e fugir quando algo mais intenso acontecia.

Não sabia mais o que fazer, mas teria que aprender a lidar com aquilo de alguma forma - e talvez, em algum momento, Drica se acalmasse e passasse a confiar em mim. Eu bem me recordava que a adolescência era um período difícil e confuso, ainda mais quando o vestibular e toda aquela pressão estavam rodeando um ambiente, ainda mais em Drica que via que todo o futuro dela dependia disso.

Se não passasse, ela achava, seria garçonete para o resto da vida.

Então, apenas respirei fundo e prometi a mim mesmo que teria toda paciência do mundo com Drica e com suas reações exageradas.

Aproximei-me vagarosamente e decidi apenas sentar ao seu lado. A movimentação fez Drica levantar a cabeça para me olhar e encarou-me, sem acreditar que eu estivesse ali, por três segundos, antes de desviar o rosto, envergonhada.

- Você não acha maravilhoso? - perguntei. Ela murmurou alguma coisa incompreensível, enquanto estava tentando secar as lágrimas de forma disfarçada. - O mar. Esse lugar inteiro. É um dos lugares mais legais que eu já visitei. Ia ser ótimo morar aqui o ano inteiro, deve ser uma delícia no inverno.

Drica pareceu ter se recomposto das lágrimas, mas seu nariz continuava inchado e suas pálpebras estavam ligeiramente molhadas. Enquanto notava que seus lábios ainda tremiam, decidi que eu a achava linda assim também, com a cara toda inchada de choro e sem nenhum vestígio de intervenção externa, como maquiagem. Drica era linda sem nada.

- Tem razão - murmurou, com a voz tremida.

O silêncio venceu a gente, Drica não parecia muito disposta a conversar e eu não sabia exatamente o que dizer, então só fiquei ali, sentado, admirando Drica e o mar, e aproveitando o momento, mesmo que não fosse de forma plena, pela preocupação que eu sentia por ela. Imaginei, porém, que só o fato de estar ali, de ter corrido atrás dela e tê-la procurado, era o suficiente para que ela se sentisse tranquila quanto a nós dois e o nosso recente status de relacionamento.

Então, descobri alguma coisa que eu poderia falar.

- Ei, quando você acha que a gente deveria trocar o status de relacionamento do facebook? - Perguntei.

Drica virou o rosto para me olhar e eu achei que essa era a minha permissão para poder admirá-la descaradamente. Seus olhos arregalados me informavam sua surpresa ao assunto repentino. Ela respirou fundo e, então, soltou o ar, deixando lágrimas escaparem de seus olhos negros.

- Ei, ei, calma - murmurei.

Aproximei-me dela e envolvi-a em um abraço apertado. Drica aceitou-o sem cerimônias, afundando o rosto em meu peito e respirando fundo. Senti o molhado de suas lágrimas e senti o balanço de seu corpo aos soluços de tristeza da minha morena.

- Desculpa, Dri... - murmurei, sem saber o que falar. - Eu só estava tomando um ar...

Drica parou de soluçar naquela hora e levantou a cabeça, encarando-me avidamente com seus olhos brilhantes das lágrimas derramadas. Ela passou as costas das mãos pelas bochechas molhadas e eu levei minha mão a um de seus cachos rebeldes, levando-o para trás e evitando molhá-lo.

- O que... O que você tá falando? - Perguntou, com a voz fraquinha.

Franzi a testa, sem entender. Balancei a cabeça, tentando colocar meus pensamentos em ordem e compreender o que estava acontecendo.

Sem sucesso.

- Você saiu correndo... - Murmurei, porque era a única coisa que eu sabia daquilo tudo. Drica fez bico como se fosse chorar mais e concordou com a cabeça. - Não sei o que eu fiz... Mas desculpa.

Isso teria que servir e ao ver Drica derramar ainda mais lágrimas e concordar com a cabeça, antes de se jogar para cima de mim em um abraço molhado e solucento, percebi que tinha feito alguma coisa certa no total, embora não soubesse exatamente o quê.

- Você quer conversar sobre? - Perguntei, curioso.

Drica voltou a se afastar e secar suas lágrimas. Sentou-se, cruzando as pernas e encarou o mar à sua frente, como se ponderasse tudo o que queria dizer. Resolvi deixá-la quieta com seus pensamentos e me estiquei na areia, encarando o céu.

Ouvi-a suspirar e limpar a garganta, então olhei para ela. Permanecia com o rosto virado para o mar, mas seus olhos escuros me encaravam pelo canto, suas pálpebras apertadas pelo inchaço das lágrimas, e disfarçou quando eu a olhei.

Sorri, voltando a encarar o céu e Drica suspirou.

- Eu sou... Eu sou... - Tentou dizer, sem muito sucesso.

- Linda? - Perguntei.

Drica soltou uma gargalhada que eu não soube se era de nervoso ou se realmente achara meu complemento divertido. Seu sorriso, permanecido após o riso, me deu a resposta que eu precisava. Ela soltou mais um novo suspiro e me encarou com seus olhos negros brilhantes e extremamente sinceros. Ponderou por um longo momento, abrindo e fechando a boca repetidamente, sem saber o que proferir ou como dizer.

-Virgem - disse, por fim, simplificando, com um tom de voz tão baixo que euquase não pude ouvir. - Sou virgem.

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