Capítulo 1 - A Sonhadora

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Fechou os olhos.

Um sinal. O burburinho da multidão foi se esvaindo, deixando o entorno do palco banhado no mais puro silêncio. Suas vestes escuras desciam até seus joelhos e expunham seus ombros e costas. Ousava também exibir parte do peito magro, do qual pendia um medalhão com uma fênix vermelha entalhada. Apertou seus olhos fechados, sentindo o frio na barriga, o nó na garganta e as pernas bambas. Mas quando a música começasse, ela sabia que não poderia mais ser Aika. Ela se tornaria Kurikara!

O bater de um tambor japonês. E depois outro e mais outro, seguido de um canto lírico e outros instrumentos orientais. A jovem abriu os braços como num convite e, ainda com os olhos fechados, começou a subir e descer as mãos como se regesse aquela canção de introdução. Como se regesse o balançar de chamas. Quando ouviu o último toque do tambor, Aika abriu suas asas e voou.

Desperte, coração de fogo! Desperto o indomável!

O filho de dois mundos, coração de Suzaku!

A plateia foi ao delírio! No ritmo de uma trilha sonora poderosa e orquestral entoada por vozes angelicais, Aika abriu seu par de asas de fênix e executou uma série de golpes, giros, chutes e socos, uma dança que escondia uma sequência de artes marciais. Assim que a música atingiu seu ápice ao solo de vozes que mais pareciam sair de túmulos, ela abriu seus olhos e, diante dos vários rostos, desembainhou uma Katana de lâmina vermelha da cintura e girou-a. Em suas mãos haviam fitas vermelhas presas, simulando chamas. Quase todos puderam ouvir uma voz que nem lhe parecia a sua:

– VENHA, PÁSSARO DE FOGO!!!

As fitas voaram e a plateia gritou em palmas. Enquanto Aika, assumindo uma grande destreza em não pisar nas fitas presas a ela e sua espada, executou mais movimentos capazes de matar se aquela espada tivesse fio.

Pois ali não havia mais Aika e sim Kurikara: o herói mais famoso de animes e mangás da atualidade. Protagonista de sua própria série anime/mangá, Suzaku no Shounen Kurikara. O Guardião de um mundo mágico e em caos, incumbido da missão de protegê-lo com seus poderes e habilidades, porém correndo o perigo de morrer pelas mãos de uma terrível maldição. E para um verdadeiro cosplayer não basta apenas uma boa fantasia. Você tem que ser o personagem. Você tem que olhar como ele, respirar como ele, se mover como ele. Naquele palco, o público não via mais a jovem Aika. O público via apenas o Guardião de Suzaku treinando seus golpes.

Quando a música cessou, as vozes sumiram como se retornassem aos mortos. Aika retornou à posição inicial e fez uma reverência. Agora, ela era novamente Aika, cujo peito subia e descia buscando fôlego. Ela sorriu e reverenciou os aplausos e gritos discretos – digo discretos, pois se fosse no Brasil, onde uma vez se apresentou como outro personagem, a multidão pularia, gritaria, assoviaria... ainda mais por ser uma garota. Mas os japoneses eram mais discretos que os brasileiros e isso, de certa forma, contribuía para sua concentração. Elogiada pelo animado apresentador (também vestido de Kurikara, embora com asas muito menos espetaculares que as dela), Aika se retirou em mais uma mesura e se dirigiu para a lateral do palco, onde ela aguardou sua nota junto com seus concorrentes.

Tremia da cabeça aos pés, como se uma corrente elétrica custasse a abandonar seu corpo. Encarou-se num espelho ao seu lado: embaixo da peruca, do símbolo pintado entre os olhos e da base que escondia olheiras pesadas, existia uma jovem mestiça de dezesseis anos. Tinha a pele morena, cor misturada da pele negra de seu pai e o branco de sua mãe. Dela também tinha os olhos puxados, herança de uma japonesa pura. Do pai brasileiro herdou lábios desenhados e carnudos. Sabia também que, quando falasse com alguém, perceberiam o sotaque ainda presente mesmo depois de cinco anos morando no Japão. O sotaque de uma carioca que, por onze anos, pertenceu ao coração do Rio de Janeiro.

AIKA - A Canção dos CincoLeia esta história GRATUITAMENTE!