As Águas do Mar

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As águas abraçavam o pequeno corpo de Natsuki, que com os olhos fechados absorvia tudo daquele novo mundo. Estava sendo levada para o fundo do oceano, aonde iria permanecer para sempre junto do dragão Ryūjin.

Todas as criaturas marinhas passavam pelo barco que era carregado pelas tartarugas, as mensageiras do dragão, querendo espiar a filha dos homens. Como o grande dragão aceitou uma criatura tão estranha como esposa? Não haviam tubarões, golfinhos ou até mesmo polvos mais bonitos que ela?

Tentou ignorar os murmúrios dos peixes, se lembrando de que havia se tornado a esposa do Rei dos Mares para salvar seu povo.

Os mares andavam agitados desde que a filha de Ryūjin, Otohime, havia sido levada para a terra dos homens pelo pescador Hoori. Dizia-se que o dragão, furioso com os humanos, os castigou com fortes tempestades que afundavam os barcos, ondas gigantes que destruíam as aldeias e com a falta de peixes, que alastrou a fome pela região.

Foi graças ao pai de Natsuki, um sacerdote, que a ofereceu ao dragão como um modo de recompensa-lo pela filha que lhe foi tirada, que os mares se acalmaram.

O dragão foi cativado pela aparência dócil e graciosa da pequena, com os cabelos longos e negros, tão brilhantes que pareciam o céu noturno, junto da pele clara que lhe lembrava o luar. A menina possuía uma beleza terrestre, como as flores, algo que no fundo do mar não existia e que nem mesmo sua filha possuía.

A garota então se tornou a noiva do Rei dos Mares, um mero sacrifício para abrandar sua fúria contra os humanos.

Natsuki passou as mãos pelo uchikake, o tecido tingido de vermelho com imagens das flores de seu país, sua única lembrança de casa. Sonhou com todas as estações do ano que nunca mais aproveitaria: As flores da primavera, a neve do inverno, a fartura do outono e os festivais do verão.

A solidão pesava em seus pequenos ombros. Como seu pai poderia lhe oferecer para o dragão? Ele não amava a filha que tinha? E o pior eram as memórias das pessoas do vilarejo a parabenizando por se tornar a esposa da criatura.

Um buraco crescia dentro do peito da menina, uma ferida aberta pelos humanos.

As tartarugas a levaram então para o salão do palácio. Assim que entrou, deparou-se com a criatura mais magnifica que viu em toda a sua vida. O corpo de serpente parecia ocupar o salão inteiro, as escamas azuis brilhavam, como a água que reflete a luz do sol. Os olhos, grandes órbitas prateadas, a encaravam de modo curioso, fazendo-a estremecer.

― Como se chama, filha dos homens? ― A criatura falou, mas não havia voz. Era como se a água vibrasse e reproduzisse o que o dragão lhe dizia.

― Atendo pelo nome de Natsuki, meu senhor ― A garota respondeu cordialmente, o reverenciando.

― Muito bem. À partir de hoje seu lar será o oceano e sua família as criaturas do mar. Não é mais uma humana, mas sim uma de nós.

E então todos os seres marinhos aplaudiram por todos os oceanos.

Os dias de Natsuki eram preenchidos pelo dragão. Cantava e tocava instrumentos para ele, dançava e recitava poesias quando lhe era pedido, mas o que mais gostava era quando ele queria ouvir sobre a superfície.

A pequena lhe contava sobre as belezas da terra, das flores e frutos, dos animais que corriam livres pela floresta, dos pássaros que haviam domado o céu, dos festivais das cidades, do calor do fogo, da comida quente e do formigamento gostoso do sol da manhã.

Era evidente a tristeza em seus olhos quando falava sobre a terra firme, um desejo oculto dentro do coração da pequena, que mesmo não sendo infeliz no fundo do mar, ainda sentia falta de sua casa.

O dragão tinha medo de que ela o abandonasse como a filha. Não havia Otohime sido seduzida pela vida que os homens levavam? Pelas flores, pelo vento e pelo fogo? Seu próprio sangue havia abandonado seu lar, o que impediria a filha dos homens de fazer o mesmo?

Não conhecia ele bem demais a dor da solidão? Como poderia fazer outra criatura sentir tamanho sofrimento, apenas para aliviar o seu? Queria entregar a garota de volta para a terra, mas já a amava demais para lhe devolver para os homens. A queria feliz, mas a queria feliz ao seu lado.

Decidido, mandou construir um palácio que alcançasse as estrelas, que o enfeitasse com a vida da terra e com as cores das quatro estações e assim foi feito.

Ryūjin havia criado para Natsuki seu próprio jardim, uma lembrança da terra firme para ela poder admirar e aproveitar. Tinha todos os presentes da terra a seu dispor, assim como a vista de seu país pelas janelas do grande palácio.

Quando a garota viu o palácio, lágrimas de alegria brotaram em seus olhos.

― Minha amada esposa, lhe dou não só o mar, como o céu e a terra ― A voz profunda do dragão ecoava em seus ouvidos. ― Tudo o que lhe peço é que permaneça ao meu lado.

A menina riu baixo do pedido da criatura. Sentia falta sim da terra, mas não havia sido abandonada pelos humanos? Como poderia voltar para lá e se sentir amada como se sentia aqui?

As doces lembranças da terra podiam lhe trazer melancolia, mas nunca trocaria o mar pela terra, pois aqui era aceita e amada.

― Meu senhor é gentil demais comigo, mas subestima o que sinto. Nunca lhe abandonaria pelos tesouros da terra, pois não há tesouro maior do que o sentimento que guardo em meu coração por ti.

Assim foi a eternidade de Natsuki, a garota cuja a existência foi oferecida ao dragão, que em troca de sua companhia tentou lhe entregar a terra e o céu, sem saber que o que a garota mais desejava era alguém que não lhe abandonasse, pois o buraco em seu coração que lhe foi deixado pelos humanos, foi preenchido pelas águas do mar.



A Noiva do Rei dos MaresOnde as histórias ganham vida. Descobre agora