0. Para sempre é apenas um dia da semana.

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Onze e cinquenta; Sábado.

De verdade, eu não sei por que eu ainda faço isso. Quero dizer; é o Davi, mas eu não aguento mais. Mesmo sendo o Davi.

A gente tem uma história, eu bem sei que temos, mas se ele não mudar, eu não sei se vou conseguir continuar com isso.

Ok, é o seguinte: Eu não sei mais o que fazer. Não consigo mais dormir aos sábados porque eu sei que ele vai acabar jogando pedras na minha janela para me acordar. Eu também não consigo mais me divertir, afinal eu nunca sei o que ele está fazendo. Eu não sei porque ele não me atende quando eu ligo ou, quando atende, me responde tão friamente que nem parece que seja a mesma pessoa.

Não consigo entender. Nem ao menos qual o problema com os domingos. Não faço ideia de o porquê ele aparecer só aos domingos.

Eu só o queria de volta como ele costumava ser uns tempos atrás...

Eu fechei o diário secando a lágrima que escapou de meus olhos, sem que percebesse, enquanto escrevia. Já havia chorado demais no último ano, tentando entender Davi e sem nenhuma perspectiva de sucesso. Estava cansada, mas simplesmente não conseguia negá-lo quando ele aparecia... Coincidentemente ou não, apenas aos domingos.

No começo, nem ao menos notei. Ele disse que estaria passando por uma fase complicada no trabalho e precisaria fazer algumas horas extras e eu achei que nunca seriam tantas horas extras assim e acabei deixando que ele sumisse por uns tempos. Nem ao menos me dei conta quando ele começou a aparecer só em um determinado dia da semana, até mesmo porque ainda conseguia que ele me atendesse uma vez ou outra. Com o tempo, as ligações foram ficando cada vez mais frias e distantes, até que chegou ao ponto de não atender algumas delas. Agora ele não atendia quase nenhuma.

Da mesma forma que a mudança das ligações foi gradual, o nível de torpor dele ao chegar a minha casa, além do horário completamente abusivo, foi mudando. Primeiro, ele chegava quase sóbrio, cheirando um pouco a álcool por volta das oito horas da manhã; nada que um café forte não melhorasse o dia para nós dois. Agora, eu não dormia mais aos sábados, ele estava chegando por volta de uma da manhã, completamente bêbado.

O nosso tempo juntos era insuficiente. Quando eu conseguia um momento, eu piscava e já havia sumido.

Com um suspiro cansado, afastei-me do diário e me levantei. Achei que seria melhor um pouco de água no rosto para que o sono não me pegasse desprevenida antes que ele começasse a jogar as pedras ou fizesse qualquer outra coisa para chamar atenção como correr pelado pela rua. Eu não duvidava mais de nada.

Caminhei lentamente até o banheiro do meu quarto, ignorando totalmente a calça jeans que havia chutado sem querer. Prometera a mim mesma que tentaria não jogar mais roupas no chão quando a faxineira tinha ido à minha casa da última vez. Obviamente, eu havia falhado com a promessa. Também havia prometido não comer tanto sorvete, mas na situação que eu estava... Quase todas as garotas do mundo comeriam tanto sorvete quanto eu estava comendo.

A água estava gelada, mas não me importei em molhar todo o rosto, pescoço, parte do busto e ainda algumas mechas de cabelo. Minha coordenação motora não era muito boa e o senso de espaço e direção que eu tinha também não funcionava muito bem, mas ao menos isso me despertaria.

Quando levantei o rosto para checar o estrago que aquela simples ideia poderia ter feito, a garota que me encarou de volta no espelho parecia tão digna de dó que me deu vontade de chorar. Ela estava tão pálida que parecia que não via a luz do dia há eras. Seus olhos cor de avelã estavam opacos e sem vida, fazendo com que as olheiras, embaixo deles, ficassem ainda mais chamativas. Seu cabelo parecia descuidado, quebradiço e embaraçado. Suas feições delicadas eram bonitas, mas expressavam tanta confusão e tristeza que isso quase não importava. A garota parecia, na verdade, um zumbi preso na infelicidade.

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