Capítulo 23

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Nina Novaes.

Terça-feira.

"Onde diabos você está, Marcelo?"

Digito rapidamente e jogo o celular no bolso do jaleco, tomando o cuidado de olhar ao redor para me certificar de que continuo sozinha na sala de exames. Já eram quase quatro horas e nem sinal de Marcelo, bebê e Luiza. Será que ninguém entendia que eu tinha outras obrigações?

Meu celular vibra de novo.

"No estacionamento. Tivemos que parar no meio do caminho porque a louca da Luiza começou a vomitar no meu carro. Meu carro."

"Você foi buscá-la?"

"Fui né."

"Acho que a paternidade está se instalando em você, meu amigo. Você não deixa ninguém além de mim, Sofia e a sua mãe entrar no seu carro."

"Cala a boca."

Começo a rir sozinha ao imaginar a cena, mas paro quase que no mesmo instante ao pensar no resultado do exame. Seria possível que somente um filho daria ao Marcelo um pouco de juízo? Não haveria um jeito mais fácil?

Imagino que eles já tenham passado pela recepção e tudo o mais, porque eles chegam à sala de exames quase meia hora depois. A essa altura eu já estava morrendo de tédio, futricando todos os aplicativos do meu celular e torcendo para não haver uma câmera naquela sala.

Ele beija o meu rosto e nem se dá ao trabalho de me apresentar formalmente a garota atrás dele. Eu já a havia visto na boate aquele dia, mas estava escuro e eu mal havia conseguido reparar. Hoje, porém, dou uma boa olhada. Ela era menor que eu e meio gordinha ─ talvez por estar de dois meses. Loira, exagerava na maquiagem e tinha cara de fresca.

Ainda assim, abro um sorriso sem graça e cutuco o mal educado do meu amigo.

─ Ah, é! Ni, essa é a Luiza. Luiza, Nina ─ ele diz e se joga na cadeira que eu chamo de "cadeira-pai". Vê-lo sentado ali me faz ter uma vontade enorme de rir, e é o que eu faço. Luiza ergue uma sobrancelha.

─ Oi, Luiza. Muito prazer! ─ digo depois que paro de rir. ─ Desculpe, é que a situação é muito engraçada.

─ Sei... ─ ela diz, apertando a minha mão.

─ Bom, vamos lá. Vamos ver de quem é este bebê ─ eu sorrio e depois percebo o quanto isso foi grosseiro. ─ Quer dizer, v...

─ Tá, tá, esquece... ─ ela diz e eu tento conter o ataque de risos ao perceber que ela está tão feliz quanto Marcelo, que agora parece até esverdeado.

Ela se senta ao lado dele e eu começo a me preparar para coletar o sangue dos dois.

(...)

─ Quanto tempo vai levar, hein? ─ um Marcelo muito impaciente me pergunta. ─ Ela não para de comer!

Estou com ele e Luiza no refeitório há pelo menos vinte minutos. Não tínhamos cirurgias para o fim da tarde e eu já havia feito todas as verificações pela manhã, de modo que Alex me liberou até o fim do meu turno para poder acompanhar Marcelo e Luiza ─ que, a propósito, não parava mesmo de comer. Neste momento ela tinha acabado de levantar para comprar mais alguma coisa (com o dinheiro do Marcelo).

─ Ela é bonitinha ─ digo, acompanhando-a com o olhar.

─ Pensei nisso aquele dia.

─ Ah, sim, meu amigo... Deu pra notar!

Ele revira os olhos.

─ Para de rir. Quem você acha que vai trocar as fraldas da criança se eu for o pai? ─ ele pergunta e eu paro de rir no mesmo instante. ─ Exatamente!

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