Mulher loira

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Desde que sou criança tenho um interesse particular na morte, se é que se pode ter um interesse nisso. Como a sociedade me define como "estranho" nunca tive muitos amigos ou relacionamentos, o que me deixou muito tempo livre para estudar. Consegui me formar com a nota máxima em medicina e agora trabalho no hospital geral de Nova York na ala onde se "cuida" de pacientes terminais, ou seja, a ala sem retorno, como todos a chamavam. Quase todos que entravam ali já não tinham salvação alguma.

No inicio eu não estudava para cuidar da morte, eu estudava para ser cirurgião, queria ser o melhor do meu país, mas digamos que o destino trocou as minhas voltas e agora estou num ramo mais apropriado para mim, pois segundo o meu chefe: eu não tenho sentimentos e sou frio o suficiente para ver pessoas morrer nos meus braços.

Quando ele me disse isso pela primeira vez eu não entendi, mas agora que trabalho aqui à 3 anos acho que compreendo. Já vi um monte de pessoas morrerem à minha frente e nenhuma das mortes me abalou minimamente.

Estava distraído olhando a prancheta que estava na cama de um dos meus pacientes, aparentemente ele estava tendo melhoras, mas com certeza iria piorar logo e quando morresse era menos um. Estava tão distraído que só notei Regina atrás de mim quando ela deu um tapa nas minhas costas.

Me virei para trás e quando a olhei ela soltou um suspiro. Ela sorriu amigavelmente e esticou a mão para que eu a cumprimentasse, mas eu simplesmente me virei de novo para o que estava fazendo a ignorando.

Regina e Graham, o meu chefe, são os únicos que insistem, inutilmente, em manter contacto comigo, até parece que não têm mais nada para fazer do que encher o meu saco quando estou trabalhando.

Ouvi Regina sussurrar um "Vou entrar de licença de maternidade" e sair da sala. Eu sempre me esquecia que ela estava grávida, digamos que eu não presto muita atenção nas pessoas que não me interessam. Ela e o seu marido, Robin, tinham se casado à 2 anos e esse seria o primeiro filho deles, me lembro perfeitamente que ele me convidaram para a sua festa de casamento e Robin me obrigou a dançar com Regina três vezes.

– Que bom, para você. - Disse antes de ela fechar a porta da sala.

– Afinal você fala, não é mesmo? - Ela entrou de novo e eu me virei para ela, já frustrado, por ela não ter ido embora. Só agora eu tinha reparado que a barriga dela estava consideravelmente grande.

– Poupe as suas palavras, Regina, eu sei o que me vai pedir e sim, eu fico com as suas pacientes, vá aproveitar as suas férias. - Me voltei de novo para a prancheta e ela me deu um curto abraço.

– Obrigada, Killian, o que eu faria sem você? Tenho a certeza que ela vai ser um bom desafio para você. - Ela me largou e eu a encarei com a sobrancelha erguida.

– Ela quem? - Perguntei largando, finalmente, a prancheta em cima da cama e cruzando os braços esperando uma explicação.

Depois vai descobrir, seu coração de gelo. - Ela começou a se afastar e antes de fechar a porta ainda disse. - Coloquei os relatórios no seu gabinete.

– Tudo bem, depois eu vou conferir. Tchau, Regina. - Me virei de novo para o paciente e pude ouvir a porta se fechar delicadamente atrás de mim.

– Cuide bem dela! Ela é uma mulher frágil! - Ainda a pude ouvir gritar do outro lado da porta. Ela não tem noção que tem pessoas dormindo?

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– Oi Killy! Me desculpe, amor, mas não vou conseguir chegar hoje a NY, tenho que ficar aqui tratando de um processo de um cliente. Até daqui a uns dias! Te amo! - Foi a primeira mensagem da minha secretária electrotécnica, ao ouvir voz de Millah não consegui conter um pequeno sorriso, que logo sumiu quando ouvi a próxima mensagem.

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