Capítulo 02 - Mesmo que digam não?

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Era pra eu estar achando bem feito. O Thiago havia sido estúpido suficiente para pedir que eu mantivesse distância dele.

Mesmo assim, depois que fiquei a par do assunto sobre a revolução nas ruas, principalmente sobre o que a mídia televisionava e que não condizia com nada da realidade, eu estava dando razão a ele. Toda a razão.

- Está dormindo, Caio Henrique? - Sobressaltei com o chamado do professor Rubens e me irritei com sua voz paciente me chamando pelos dois nomes.

De novo.

- Oi, professor?

- Vem pegar o trabalho.

Eu franzi a testa. Era para o meu nome não estar naquele trabalho. E como eu demorei muito pensando, o professor Rubens veio ao meu encontro e depositou o trabalho em cima da minha carteira.

- É. Você está dormindo, Caio Henrique - ele disse, de novo, e virou as costas.

- Quanto você tirou, Caio? - A Laura mal esperou o trabalho esfriar na minha mão para fazer aquela pergunta. Ainda exclamou para toda a sala ouvir: - Uau! Dez?

O "dez" em vermelho destacava-se na folha, mas aquilo não me chamou tanta atenção quanto outro detalhe. Os nomes: "Thiago César e Caio Henrique" escrito no topo da página.

Eu conferi a letra do Thiago nas respostas, era inclinada para direita, uma caligrafia bonita, bem desenhada. Era a mesma caligrafia que havia escrito "Caio Henrique" ao lado de "Thiago César".

Nunca fiquei tão bobo na minha vida por algo tão idiota.

Tentei ignorar o pedido de "deixa eu ver as suas respostas, Caio" da Laura ao meu lado. Ela queria conferir com o trabalho dela e da Dafne e entender porque elas tinham tirado só sete e meio.

- Depois - resmunguei. - O professor vai começar a revisão.

Foi só uma desculpa. Eu não queria entregar para ninguém aquela página tão preciosa, principalmente a primeira página. Não que eu imaginasse que seria impossível ele ter colocado meu nome. Afinal, o Thiago era um cara que clamava por justiça, por um país mais justo. Apesar de que aquilo não era nada justo. Não era certo eu ganhar a nota nas costas dele, e ele deveria ter pensado o mesmo.

Então, por que ele fez aquilo?

Aquela noite eu dormi abraçado com aquele pedaço de papel enquanto lia e relia o "Thiago César e Caio Henrique" escrito no cabeçalho.

...

A sexta-feira chegou, mas eu estava tão ansioso para ver o Thiago que já havia determinado em minha mente: se ele não aparecesse na aula, eu iria perguntar para o professor Roberto, no fim dos primeiros tempos, o que tinha acontecido. Vai que o Thiago havia até sido expulso e eu não sabia. Não que fosse realmente da minha conta. Mas a ideia de não vê-lo nunca mais fazia meu peito apertar.

O professor Roberto entrou na sala e nem nos desejou "boa noite" e já foi avisando que faria revisão da matéria para a prova da próxima semana. Mal ele começou a falar e duas batidas na porta fizeram meu coração disparar; toda a sala se voltou para a entrada.

- Posso entrar?

- Entra, rapaz - o professor autorizou sem muita cerimônia.

Eu vi o Thiago entrar de cabeça baixa, o capacete na mão, a mochila nas costas. Ele passou pelo Roberto, que estava de costas apagando o quadro, chegou na sua carteira, largou o capacete no chão, perto do pé da mesa e colocou a mochila em cima da mesa.

Tá. Ele andava todo esquisitão, estava mal vestido como sempre, mesmo assim meu coração continuava disparado que nem um louco. Não consegui prestar atenção em nada da revisão do Roberto.

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