Capítulo 1: Tatuagens

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Dezesseis anos se passaram desde o pouso de Érico em Miesac, uma das centenas de luas que rodeavam a órbita do planeta Dyo, no Sistema Parasol. O rapaz não se lembrava muito do ocorrido antes de chegar ali. Ele estava em uma estação de embarque, sentado em um dos bancos. Assistia as famílias embarcarem e desembarcarem, enquanto as grandes Naves Transitórias vinham para reabastecer seus tanques e logo partiam. A única importância da lua de Miesac no Universo era reabastecer naves viajantes.

O jovem observou os pais chamarem a atenção dos filhos, as crianças brincarem entre si, as mães preocupadas. Famílias.

Voltou os olhos para seu colo, onde depositara a cura para todas as suas angústias: o manual de Caçadores de Relíquias, os mais legais, os mais ousados e os mais poderosos que existiam. Naquele manual, havia tudo que Érico precisava para se tornar um dos maiores aventureiros daquele vasto Universo. Desde pequeno, seu sonho era ser um deles, inspirado pelos livros de caça ao tesouro da cadela Laika, sua personagem fictícia favorita.

Ser Caçador de Relíquias era o sonho de dez entre dez jovens. Porém, era uma tarefa árdua. O manual que ele adquiriu no dia em que um grupo de Caçadores visitou Miesac – o dia mais feliz de sua vida, diga-se de passagem – continha as dicas para se tornar um. Érico andava para cima e para baixo com o livro de duzentas páginas, mesmo já tendo decorado seus escritos de trás para frente. Caçar Relíquias, os maiores tesouros do Universo, requeria coragem, e isso lhe faltava um pouco. Ele precisava dar o primeiro passo, e naquela plataforma, voltou a ponderar sobre entrar escondido em uma daquelas Naves e dar o fora de Miesac. Ir em busca de sua grande aventura e das Relíquias que o tornariam famoso.

Novamente, ele partiu da plataforma sem coragem para executar a ideia.

Érico ajeitou o cachecol vermelho sobre o pescoço assim que chegou ao bosque, sentindo o frio arrepiar os pelos do braço. O clima era sempre mais frio ali. A câmara na qual ele viajou estava metade para dentro e metade para fora de um lago dourado. Ela tinha um formato cilíndrico, semelhante a uma pílula. A única porta de entrada era uma escotilha pesada com um vidro redondo pelo qual se podia ver o lado exterior. O musgo avermelhado havia invadido sua carcaça exterior, mas ele sempre visitava o lugar e se certificava de impedir que eles entrassem pelos orifícios.

Érico sonhava em consertar a câmara e voar para longe daquela lua sem graça, rumo à sua glória de Caçador. Era grato aos gêmeos Miro e Exel por terem-no criado, mas nunca mentiu para eles: seu lugar era lá fora, viajando pelo Grande Universo. Em dias estressantes, Érico visitava a plataforma, e depois o bosque, onde nadava pelo lago dourado e deitava no interior da câmara.

Aquele era um dia estressante.

Deitado no banco, o jovem estendeu o braço à frente do corpo. O desenho de uma tela brilhou nas costas de seu braço e ele acessou seu ID, um aparelho acoplado à sua pele, onde era possível fazer quase tudo através do acesso à Siret, rede virtual Universal. Ele acessou as mensagens não lidas de sua Caixa Correio, e viu novas propagandas de viagens e datas de passagens das Naves Transitórias por Miesac. Ele sentiu um aperto no estômago ao ver os preços: nenhuma era menos de duzentos mil Coins, a moeda Universal que ficava armazenada nos IDs. Ao longo de sua vida, Érico tinha juntado dois mil Coins. Para uma pessoa ter qualquer coisa, era necessário escanear os IDs do cliente com os IDs do vendedor e transferir as Coins para eles. Todo dinheiro do Universo era virtual, e os bancos eram modernos softwares que armazenavam essas Coins em seus cofres igualmente virtuais.

Após alguns minutos sonhando com sua viagem, Érico jogou as propagandas no lixo eletrônico. Um dia teria Coins, um dia teria coragem, e um dia seria um grande Caçador.

Naquele momento, ele pensou na irmã que o enviou para longe de sua terra natal. Ele não se lembrava de nada sobre ela, nem mesmo seu nome ou sua face. Mal sabia se ela estava viva. Também nunca a encontrou na rede, e segundo o irmão adotivo Miro, uma pessoa sem perfil na Siret praticamente não existia mais no mundo real. Estaria ele sozinho no Universo?

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora