19.2 CAMISINHAS

1.4K 166 29

- Tem certeza de que não precisa de ajuda? - JP estava me perguntando isso pela milésima vez em dois minutos, enquanto eu ainda descascava alhos para fazer o arroz.

Compras tinham surgido no armário e eu não me recordava como, mas conseguiria fazer um pouco de arroz e comer o frango requentado do dia anterior. Não era nada muito difícil e eu já tinha feito coisas mais elaboradas, mas JP continuava insistindo que gostaria de me ajudar.

O arroz estava lavado em cima da pia, tinha uma panela requentando o frango e uma chaleira com água para colocar no arroz depois que eu refogasse o alho. Tudo estava indo muito bem, mas não importava o quanto eu dissesse isso para ele, ele continuava insistindo.

No fundo, embora irritante e insistente, era fofo.

- Está tudo bem, João - repeti, usando seu nome porque sabia que isso deveria deixá-lo alerta para os limites da insistência. - Consigo me virar aqui, você pode relaxar.

Ele estava sentado à mesa e me encarava como um cachorrinho que caiu do caminhão de mudança, mas, ao mesmo tempo, parecia perdido. Eu tinha uma intimidade com a cozinha, afinal trabalhava nela todos os dias, há pelo menos dois anos, embora já ajudasse minha mãe antes disso. Embora não fosse uma excelente cozinheira, minhas habilidades não fossem muito elaboradas, a experiência não fosse exatamente vasta e eu ainda tivesse um pouco de desastre em mim, que provocava acidentes e queimaduras, eu sabia me virar muito bem.

Tinha um propósito, é claro. Eu conseguiria viver bem, sozinha, e fazer minha própria comida, assim que eu precisasse.

- Mas eu podia...

- Está tudo bem - repeti, cortando-o, sem nem deixar ele completar a frase que eu já sabia de cor e salteado.

Não sei se foi a minha voz impaciente ou se foi a faca que eu levantei ao ar, mas JP engoliu em seco e murchou um pouco, me deixando levemente triste por ter reagido daquela forma bruta com ele, apesar da sua insistência irritante.

Eu sabia que, por mais que estivesse me deixando louca, ele só queria ajudar de qualquer forma para que eu não ficasse mais cansada do que eu já estava e eu o adorava por isso. Mas uma das coisas que eu mais gostava de fazer no mundo era arroz. E adorava comê-lo quentinho, as vezes ainda molhado, quase secando, então não era nenhum esforço estar ali cozinhando. Era prazer.

- Tudo bem, então - ele se levantou e andou até mim. Abraçou-me por trás, arrepiando todos os pelos do meu corpo. Deu um beijo na minha nuca e eu virei-me para beijá-lo na boca, sendo recebida com um sorriso deliciosamente lindo. - Eu vou lá fora rapidinho, ok?

Franzi a testa para ele, sem entender porque ele iria "lá fora rapidinho", mas concordei com a cabeça, enquanto ele me apertava com mais força e deixava outro beijo em minha nuca, antes de me soltar.

- Ok... - murmurei.

JP saiu da cozinha e alguns momentos depois, deixou a casa. Ouvi a porta batendo e entortei o lábio, sem entender nada.

Meu primeiro pensamento foi que eu não estava sendo uma companhia agradável, seguido de JP ter achado minha resposta com a faca ofensiva demais. Talvez ele estivesse saindo para respirar fundo e voltar a ter paciência comigo por eu ter passado dos limites... Mas JP não era nem um pouco agressivo, então ele não precisava sair para respirar fundo...

- Não encrenca, Drica. - murmurei, pra mim mesma.

Não tem problema nenhum, vai ver ele só foi comprar alguma coisa que esqueceu em casa, completei, mentalmente.

Quis acreditar nisso, mas enquanto refogava o alho, minha mente viajou em um mundo de possibilidades, sem se focar em nenhuma propriamente dita.

A alho dourou, coloquei o arroz, a água e então um pouco de sal. Mexi o frango com cuidado, deixando que todos os pedaços esquentassem por igual. Estava tampando as panelas, satisfeita, quando ouvi a porta da casa abrir.

João Pedro entrou silenciosamente e eu me esgueirei para fora da cozinha, encontrando-o abrindo a porta do quarto com duas sacolas em uma das mãos.

- Oi - chamei-o.

Ele virou para me olhar e sorriu, tentando esconder as sacolas atrás de si. O horror encheu-me os olhos e eu tive que me controlar para não transpassar o ataque de pânico que eu estava tendo.

Camisinhas.

Era a única explicação lógica.

Comecei a hiperventilar.

- Você... Você pode olhar o frango para mim? - Pedi, quase sem conseguir falar.

JP arregalou os olhos em surpresa e abriu um sorriso maior ainda, como se olhar o frango fosse a melhor coisa que lhe acontecera no seu dia.

Ele passou para a cozinha, deixando um beijo no canto do meu lábio ao cruzar comigo, e eu corri em disparada para o quarto, fechando a porta e encostando minhas costas nela, fazendo respiração cachorrinho para tentar controlar os batimentos acelerados do meu coração. Acabei escorregando até o chão, onde abracei minhas pernas e tentei respirar fundo.

Se eu dissesse não... JP ia embora, não ia?

Se eu dissesse sim...

Começava a tremer só com a possibilidade de dizer sim.

Fiquei uns dez minutos nessa posição, desesperada e tentando manter-me calma para que JP não conseguisse ver o meu pânico através da minha carcaça de silencioso sofrimento, antes de tomar coragem e sair do quarto.

Arrumei o cabelo, os cachos problematicamente amassados onde estiveram em contato com a porta, mas nada que eu não conseguisse resolver jogando uma mecha da frente para trás - para disfarçar.

JP estava sentado à mesa quando cheguei, e levantou-se em um pulo ao me ver chegando, fazendo meu coração aumentar a pulsação automaticamente. Ele caminhou até a geladeira e eu fiquei parada ali, sem entender e sem nem me preocupar com a comida - que talvez estivesse queimada sem solução.

Ele se aproximou de mim, escondendo alguma coisa atrás de suas costas. Virei-me, tentando olhar, mas ele desviou, com uma risada. Pegou uma de minhas mãos e levou até o lábio, beijando-a docemente. E então se ajoelhou.

Ele se ajoelhou.

Se ajoelhou!

Na mão que saiu de suas costas, ele exibiu um quindim do tamanho da sua palma. Um quindim quase gigante.

- Futura doutora Adriana, você aceita, através desse quindim, esse humilde servo como seu namorado?

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!