19.1 NÃO VAI ACONTECER

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Acho que eu nunca dormi tão bem na vida.

Tinha passado aqueles dois dias apavorada em dividir a cama com JP e acabar acontecendo coisas que eu... Não estava preparada para que acontecessem.

JP me deixava segura que respeitaria qualquer que fosse minha decisão, mas eu sabia que não pensava na hora que as coisas aconteciam. Elas só iam acontecendo até que algo fosse demais. O problema todo era que, com JP, tudo parecia melhor e mais gostoso e eu não queria parar. Mas eu também não me sentia bem com a ideia de avançar e acabar se tornando insuportável.

Ele era a única coisinha que me fazia quebrar a proteção de sempre. Com sua beleza estonteante, seus olhos de tom raro e seu sorriso perfeito, possivelmente o mais bonito que eu jamais vira. O fato dele ter me encantado antes, quando eu ainda era uma menina, me deixava ainda mais aberta para continuar naquele rolo esquisito com ele. Todavia... Ele me respeitava. Não era aquela coisa de me tratar como uma mocinha incapaz e em perigo, ele me respeitava como mulher, todas as minhas capacidades e acreditava em mim.

Eu sabia o quão difícil era encontrar um cara que visse a mulher como uma parceira igual, não inferior. E acho que isso era uma das coisas que mais me encantava nele.

Talvez eu estivesse apaixonada outra vez... Talvez eu nunca tivesse deixado de estar apaixonada por ele.

Não.

Eu nunca tinha deixado.

E apesar dos conselhos de Mila, ainda não tinha certeza se eu queria que aquilo acontecesse com JP. Nosso relacionamento era como um tapa buraco. Se tudo corresse bem, eu iria embora para São Paulo nos próximos meses e o que aconteceria? De que adiantaria?

Porém, enquanto estivéssemos ali, estava bom. E eu não podia imaginar no quão maravilhoso era acordar com os braços dele ao meu redor e o seu perfume entranhado em minha narina. Sem sequer abrir os olhos, me apertei ainda mais de encontro a ele e soltei um murmúrio de contentamento.

- Bom dia, morena - cumprimentou-me, parecendo ter acordado há algum tempo.

Forcei-me a abrir os olhos e encará-lo. Ele sorriu, deixando meus pensamentos se embolarem, perguntando-me há quanto tempo ele estava acordado e quanto tempo ele passara me olhando dormir.

Poderia ser mais fofo?

- Bom dia, moreno - murmurei, sonolenta.

Seu sorriso se abriu ainda mais e senti seus lábios em minha testa. Ele me apertou, me abraçando com os dois braços e me acomodei melhor em seu peito descoberto.

Era tão confortável ali...

- Vamos acordar? - Perguntou. - Dar um mergulho, comer alguma coisa...

Estava com uma preguiça louca, provocada pelo cansaço excessivo dos dias agitados desde que Mila e Talles chegaram ao Rio de Janeiro. Entendia que eles queriam aproveitar ao máximo, mas eu estava quase no osso. Quase caindo pelas tabelas, sem conseguir aguentar nem mais um passo.

Com o pouco de dignidade que eu ainda mantinha na frente dos outros - ainda mais de JP - pela manhã, cocei meus olhos e me obriguei a mantê-los abertos.

- Que horas são? - Questionei de volta.

JP se esticou na cama e tirou o braço de cima do meu corpo para alcançar seu celular, na cabeceira da cama. Desbloqueou a tela e franziu a testa.

- Hm... Quase onze horas - respondeu.

Levantei-me em um pulo e meu cabelo pareceu responder sozinho ao meu desespero, balançando ao redor do meu rosto, completamente embolado. Demoraria até que eu conseguisse colocá-lo no lugar, então apenas procurei um elástico na mala, no pé da cama, para prendê-lo de forma a não me confundirem com um leão.

- Eu tô atrasada - agitei-me. - Vamos, vamos logo! Acorda eles!

Tenho certeza que proferi mais uma série de ordens desconexas para JP, que apenas sentou na cama e colocou os pés para fora dela, pensando em se levantar, enquanto eu ainda estava deitada, de bruços e com a cabeça para fora da cama, pesquisando elásticos e presilhas na minha mala.

- Espera - ele parecia um pouco lento e eu quis lhe dar um chute na bunda. - Tem uma mensagem aqui da Mila.

Achei um elástico, cantando vitória, e me sentei, engatinhando em direção à JP. Sentei-me em cima dos joelhos, atrás dele, e senti-o jogar o corpo para trás, enquanto minhas mãos estavam ocupadas em amarrar meus cachos revoltos em um péssimo dia para eles. Beijei-lhe atrás da orelha e ele estremeceu levemente, me fazendo suspirar e sentir meu estômago dar leves cambalhotas.

- Deixa eu ver - pedi.

Ele levantou o celular e exibiu a mensagem de Mila, em um grupo que ela tinha feito com nós quatro - nem tinha visto que eu tinha sido incluída naquele grupo e possivelmente tinha acontecido pela manhã, enquanto dormia. Era a única justificativa.

"Bom dia, pombinhos dorminhocos! Talles e eu resolvemos fazer uma viagem rápida. Vamos pegar um desses barcos e fazer um passeio pela Ilha grande com trilhas tudo mais. Planejamos voltar à noite, qualquer coisa a gente avisa. Um beijão! Descansem, tá?"

Embaixo, uma mensagem de Talles:

"Mila, você viu a minha sunga?"

Sem resposta.

- Ah... - Soltei um muxoxo indeciso entre o alívio de não estar atrasada e a decepção por não ter ido junto. - Bom, o que a gente faz agora, então?

JP deu de ombros, rindo. Virou metade do corpo para mim e enlaçou minha cintura, procurando meus lábios. Aceitei seu beijo com um sorriso, levando minha mão ao seu pescoço e encostando nossos narizes.

- Temos que arrumar algo pra comer - ele murmurou. - Depois a gente descansa um montão, vê um filme, sei lá. E qualquer coisa a gente dá um passeio mais tarde, o que você acha?

Um dia inteiro em uma casa vazia, JP e eu sozinhos. Cozinhar, comer, dormir, ver um filme.

Meu estômago estava se revirando outra vez e não era de fome.

Balancei a cabeça em concordância, sabendo que descansar era a melhor solução para o meu corpo usado ao extremo nos últimos dias, mas também estava nervosa por todo o resto.

Não vai acontecer nada. Repeti meu mantra. Não vai acontecer nada.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!