18.1 ENTENDIMENTO

1.2K 139 12

Estávamos todos exaustos da viagem maravilhosa que fizéramos. Foi um dia incrível, uma paisagem exuberante e eu não sabia nem que elogios eu faria a companhia. Mila sempre fora espirituosa e divertida, que fazia piadas a cada minuto. Talles, seu namorado, também não ficava muito atrás; ele tinha uma maneira mais rígida e bruta, de brincadeiras, as vezes sem nem um pingo de noção e responsabilidade, de fazer você se soltar e cair na gargalhada.

E eu não podia nem começar a falar sobre Drica. Cada dia que eu passava ao seu lado, mais eu ficava encantado com seus trejeitos e os seus sorrisos e mais me derretia com a boca dela na minha.

Adriana estava sendo o Sol atrás das nuvens da minha vida confusa. A única coisa que valia a pena naquele turbilhão de acontecimentos.

Eu era muito grato a ela e tentava demonstrar isso da melhor maneira possível, tratando-a como a rainha da minha vida, que ela realmente era.

Por isso, apesar de estar desesperado por mais, não estava pressionando-a, deixando-a livre para ir e vir da forma que quisesse. Drica parecia ter uma aversão à relacionamentos que eu não conseguia entender e, em alguns momentos, ela demonstrava que eu era a pessoa que ela menos queria ver... Apenas para abrir um sorriso em seguida e me deixar cair que nem um patinho nas suas artimanhas.

Confuso e sem saber o que fazer, aproveitei que ela foi tomar banho e Talles foi, obrigado, comprar nosso jantar e chamei a prima da garota para me ajudar a compreender, um pouco, o que se passava.

- Então... Ela fica nesse vai e não vai - expliquei. - Ontem, ela preferiu dormir no sofá do que ficar no mesmo lugar que eu, mas aí hoje parecia que a gente estava tudo bem e agora, na volta, ela ficou esquisita de novo. Não sei o que há com ela.

Ludmila sorriu, complacente e passou a mão pelo meu braço, me afagando como se eu fosse seu cachorrinho de pelúcia.

- A Drica tem medo, sabe? - Suspirou. - Por causa dos relacionamentos da mãe dela. Ela tem medo que aconteça algo do tipo com ela, então ela se afasta. Ela gosta de você, quer ficar com você, mas tem alguns medos bobos. Ela é nova também, João. Ainda não sabe exatamente o que ela quer da vida.

Mila estava me jogando um monte de informação e eu não estava acoplando nem a metade delas. Arregalei os olhos, absorvendo a parte do meio - Drica gostava de mim. Isso era o suficiente para que eu continuasse tentando entendê-la, mas um pouco de ajuda não faria mal.

- O que você quer dizer com essas coisas da mãe dela? - perguntei.

A garota arregalou os olhos e franziu a testa, pensando. Balançou a mão no ar e tentou formular as ideias, enquanto eu aguardava.

- Achei que você soubesse - disse. - Vocês cresceram juntos...

- Não fomos muito próximos, a diferença de idade era... Muito grande há alguns anos atrás. Ela era amiga do Pepê, mas eu não prestava muito atenção. - Fiquei envergonhado do meu descaso. Se eu tivesse olhado para o lado algumas vezes, talvez pudesse levar essa situação com mais tranquilidade, mas eu estava ocupado demais com os meus estudos. - Pepê contava algumas coisas, meu pai e minha mãe também, mas eu não me lembro. Não era interessante pra mim, na época.

Mila concordou com a cabeça e olhou longamente para a porta do quarto em que eu deveria dividir com Drica, onde a garota tomava banho. Soltou um suspiro e voltou a me encarar.

- Olha. O pai dela morreu trabalhando no tráfico. Ele era muito amigo... Do seu pai, eu acho - começou.

Forcei a memória e me recordei vagamente disso. Eu era muito novo, devia ter uns sete anos. Ele era muito amigo do meu pai e foi um pouco antes do meu pai virar chefe do morro - ele ficou tão revoltado com a polícia que acabou levando a medidas drásticas que eu não conseguia entender na época e nunca perguntei, por medo de saber.

- Sim. Eu lembro disso - contei. - Acho que ela era muito nova, então...

- É, ela não lembra do pai. Tinha uns dois ou três anos, mas acontece que... a mãe dela e ela ficaram sozinhas, sabe? A mãe dela abandonou tudo pelo pai dela. A única pessoa da família que apoiou ela foi a minha mãe. - Mila suspirou. - Minha mãe falou que ficou todo mundo horrorizado com a minha tia, fugir da vida boa que ela tinha em São Paulo pra morar com um bandido em uma favela do Rio de Janeiro. Ninguém entendeu e julgaram muito ela por engravidar... Sabe. Sem casar.

Cocei a cabeça, tentando entender aonde estava o problema de Drica, sem solução.

- Mas a mãe dela me adora... - Soltei.

Mila riu e deu um tapinha em minha perna, balançando a cabeça negativamente, como se eu não compreendesse totalmente a situação.

- Sim, mas você ainda pode ir embora a qualquer momento - soltou. E eu vi minhas próprias palavras vindo contra mim. - Sabe, a Drica é meio solitária porque ela tem medo de se envolver e é um pouco difícil quebrar as barreiras dela, mas você tá indo muito bem.

Fiquei envergonhado mais uma vez e tentei refletir sobre o que ela estava me falando. Eu tinha feito aquela proposta para ela e... Era isso que estava deixando ela assustada? Então, talvez se eu firmasse a situação, ela ficaria mais confortável?

- Você sabe sobre o padrasto dela, não sabe? - Mila perguntou, tirando de meus devaneios.

- Vagamente - meneei a cabeça.

Mila respirou fundo outra vez e deu um sorriso triste e cansado. Passou os dedos pelos cabelos e olhou novamente para a porta do quarto, checando Drica. Ainda conseguia ouvir a água do chuveiro caindo e acho que foi isso que a fez relaxar.

- Então... A mãe dela conheceu o padrasto quando ela tinha uns oito ou nove e eles se juntaram, mas o cara era um imbecil - contou. - Batia nas duas, fazia tortura psicológica e mandava e desmandava na casa. Mas ele tinha dinheiro, então isso durou. Ele que abriu o bar, que ela lanchonete... Largou o trabalho por causa disso. Até que ele bateu feio na Drica... Isso eu já não me lembro muito bem como foi... A gente tinha se afastado. Mas aí eu sei que tiraram ele de casa e acabou. Então... Só tenha paciência com ela. Ela tem medo.

Cocei a cabeça e concordei. Mila deu um tapinha em meu joelho e se levantou, indo para o seu quarto e me deixando pensar com os meus botões.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!