Capítulo 1 - Sara

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Aeroporto Charles de Gaulle, França. - 3 de Junho de 2011, 16:23.

Alguns sorriam, conversavam animadamente. Outros choravam, se abraçavam. Os corredores eram abarrotados de pessoas que carregavam malas para lá e para cá. Ali, todas as nacionalidades possíveis se encontravam. O ruído era ensurdecedor e eu via os mesmos pais e mães em seus olhares e desejos multiplicados. Esperanças e sonhos impulsionados pelo som de chegadas e partidas nos terminais. Embarques e desembarques diários que transportavam consigo um único sentimento comum a todos. Um sentimento que eu trazia comigo e que, de tão forte, não possuía tradução para qualquer outra língua.

Todos ali sentiam saudade.

Apontamento sobre idas e vindas:

Em aeroportos, rodoviárias, terminais de trem, paradas de ônibus.

A única rotina perene é a saudade dos que chegam e partem.

Ela nunca se vai.

Somente as pessoas se vão e somente as pessoas retornam.

Talvez as pessoas sejam como as marés, afinal.

Elas vem e vão.

Eu tinha a esperança de encontrar meu nome escrito em alguma das placas de boas-vindas, e as li atentamente. Lá estava. Um homem alto a segurava. Trajava uma camisa amarela da seleção brasileira e ostentava um sorriso copioso nos lábios. Aparentava ter no máximo 20 anos de idade e tinha cabelos ondulados e acobreados. Os olhos dele eram amarelados como ouro, radiantes. Quando percebeu que eu o fitava fixamente, esticou os braços com a placa e seu sorriso alargou-se ainda mais.

"Sara Alcântara". Sorri em resposta ao rapaz, que dobrou a placa imediatamente e a enfiou na bolsa de couro marrom transpassada em seu dorso. Aproximou-se com passos largos e até um observador pouco perspicaz notaria seu modo expansivo de se comportar.

-Sara? - Meu nome em seu sotaque soou como "Sarrá".

-É! Sou eu. - O entusiasmo dele me contaminou imediatamente, porém fui pega de surpresa por seu próximo ato. O rapaz desvencilhou-me de minhas malas e me abraçou com força, em uma vivacidade única. O fato de ter sido alertada sobre o comportamento frio dos franceses tornou a cena ainda mais inesperada. - Ah... Oi! Er... - Eu ajeitei uma mecha de cabelo quando ele se afastou.

-Cláudio não vir, e me pediu para... Hm... Pegar você. Desculpa pelo... Português ruim. - Ele falou com simpatia. - Animada com a viagem?

-Estou sim. - Senti minhas bochechas esquentarem e eu ri com vivacidade do francês. Ele continuava a olhar-me com os mesmos olhos de gato brilhantes. - Ahm... Onde arrumou essa camisa da seleção brasileira? - Falei em português, respirando a cada palavra, com o objetivo de me tornar mais inteligível para os ouvidos dele.

-Ah! - Ele passou a mão pela camisa. - Eu amo o Brasil! Estou animado em poder praticar a língua com alguém nativo... Além de Cláudio.

-Hm... E qual é o seu nome? - Suas sobrancelhas finas ergueram-se e as palavras fugiram de sua boca por alguns instantes. Parecia afobado. Vi as maçãs de seu rosto enrubescerem, o que deixava o rapaz ainda mais transparente e fofo.

-Mon Dieu, eu não disse. Meu nome é Henry. Ça va? - Ele sorriu e estendeu a mão para mim.

-Ça va, Henry. - Eu ri.

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