CENA IV

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O Hotel Overlook, Terceiro Andar, 1958



Os assassinos subiram as escadas com suas meias nos pés.

Os dois homens em posição do lado de fora na porta da Suíte Presidencial nunca os ouviram. Eles eram jovens, vestidos com ternos da Ivy League, com o corte do paletó um pouco mais folgado do que a moda do dia decretava. Você não conseguiria vestir uma .357 Magnum escondida no coldre do ombro e ficar um pouco na moda. Eles estavam discutindo se os Yankees conseguiriam ou não participar de mais um campeonato. Ainda faltavam dois dias em setembro, e como é normal, os ternos risco de giz pareciam formidáveis. Simplesmente conversar sobre os Yankees faziam-nos se sentir melhores. Eles eram garotos de Nova Iorque, contratados por Walt Abruzzi, e estavam bem longe de casa.

O homem do lado de dentro era uma peça importante na Organização. Era tudo o que eles sabiam, e tudo o que eles queriam saber.

- Você faz o seu trabalho, todos ficamos bem. - Abruzzi dissera. - O que é preciso saber?

Eles ouviram coisas, é claro. De que havia um lugar no Colorado que era completamente terreno neutro. Um lugar onde até mesmo um pequeno maluco da Costa Oeste como Tony Giorgio poderia se sentar e tomar um conhaque sofisticado numa taça com os Velhos Homens Cinzas, os quais o consideravam como um tipo de inseto homicida que picava e precisava ser esmagado. Um lugar onde homens de Boston, acostumados a colocar uns aos outros dentro de porta malas de carros, atrás de pistas de boliche em Malden ou em latões de lixo em Roxbury, poderiam se unir e beber e contar piadas sobre os poloneses. Um lugar onde disputas poderiam ser enterradas ou desenterradas, pactos serem feitos e planos traçados. Um lugar onde pessoas nervosas poderiam relaxar.

Bem, eles estavam aqui, e não era muita coisa - na verdade, ambos estavam com saudades de Nova Iorque, o motivo pelo qual eles estavam falando dos Yankees. Mas eles nunca viram Nova Iorque e os Yankees novamente.

Suas vozes alcançavam o corredor das escadarias, onde os assassinos estavam seis degraus abaixo, com suas cabeças encapuzadas, um pouco abaixo da linha de visão, se você por acaso estivesse olhando pelo corredor da porta da Suíte Presidencial. Havia três homens na escadaria, vestidos em calças e casacos pretos, carregando espingardas com os canos cortados para quinze centímetros. As espingardas estavam carregadas com chumbo grosso usado para caça.

Um dos três acenou e todos eles subiram a escada até o corredor.

Os dois do lado de fora da porta nunca os viram, até os assassinos estarem quase em cima deles. Um deles estava falando animadamente:

- Agora veja o Ford. Quem é melhor na Liga Americana do que o Whitey Ford? Não, eu quero perguntar isso sinceramente, por que em se tratando de distância ele simplesmente -

O falante olhou para frente e viu três formas pretas sem rostos discerníveis parados nem dez passos à frente. Por um momento, ele não acreditou neles. Eles simplesmente estavam parados lá. Ele balançou sua cabeça, esperando que eles fossem embora como sombras negras que você normalmente vê na escuridão. Eles não desapareceram. Então ele percebeu.

- Qual o problema? - Seu colega perguntou. - O que - ?

O jovem que estava falando sobre Whitey Ford enterrou a mão dentro da jaqueta a procura de sua arma. Um dos assassinos colocou o fundo da espingarda contra a faixa de couro amarrada em sua barriga, logo abaixo de sua gola rulê negra e puxou os dois gatilhos. A explosão dentro do estreito corredor foi ensurdecedora. O lampejo da arma foi como um relâmpago no verão, roxo em seu brilho. Um fedor de pólvora. O jovem fora lançado para trás do corredor numa nuvem de terno Ivy League desintegrado, sangue e cabelo. Seu braço balançou para trás, jogando a Magnum de seus dedos mortos, e a pistola caiu inofensivamente no carpete com a trava de segurança ainda ativada.

O segundo jovem nem sequer tentou pegar sua arma. Ele colocou suas mãos no alto e molhou sua calça ao mesmo tempo.

- Eu desisto, não atirem em mim, está tudo bem -

- Diga oi para Albert Anastasia quando você estiver lá embaixo, punk. - Um dos assassinos disse, e colocou a base da espingarda contra a sua barriga.

- Eu não sou um problema, eu não sou um problema! - O jovem gritou com um sotaque do Bronx, e então a explosão da espingarda tirou-o de seus sapatos e o arremessou contra o papel de parede de ceda e sua delicada estampa. Na verdade, ele ficou preso por um momento, antes de cair no chão do corredor.

Os três andaram até a porta da Suíte. Um deles tentou a maçaneta.

- Trancado.

- Okay.

O terceiro homem, o qual ainda não tinha atirado, ficou parado em frente à porta, igualou sua arma um pouco acima da fechadura, e puxou os dois gatilhos. Um buraco apareceu na porta, e a luz brilhou atrás dele. O terceiro homem colocou a mão no buraco e segurou a fechadura do outro lado. Houve um tiro de pistola, então outros dois. Nenhum deles hesitou.

Houve um estalo quando a fechadura cedeu, e então o terceiro homem chutou a porta abrindo-a. Sentado na ampla sala de estar de frente para a janela panorâmica, a qual mostrava agora somente uma visão de pura escuridão, estava um homem de aproximadamente trinta e cinco anos vestindo somente cuecas. Ele tinha uma pistola em cada mão e enquanto os assassinos entravam, ele começou a atirar, lançando balas selvagemente. Os projéteis arrancaram farpas do umbral da porta, fizeram sulcos no tapete, derrubaram gesso do teto. Ele atirou cinco vezes, e o mais perto que ele chegou de qualquer de seus assassinos foi uma bala que raspou a calça do segundo homem, no joelho esquerdo.

Eles levantaram as espingardas com uma precisão quase militar.

O homem na sala de estar gritou, jogou ambas as armas no chão e correu para o quarto. A explosão tripla o pegou do lado de fora do corredor e um leque molhado de sangue, cérebro, e pedaços de carne espirraram no papel de parede de cereja listrada. Ele caiu na porta aberta do quarto, metade para dentro e metade para fora.

- Vigie a porta. - O primeiro homem disse, e colocou sua espingarda no tapete. Ele colocou a mão no bolso da jaqueta, retirou um canivete e apertou o botão cromado. Ele se aproximou ao homem morto, deitado no vão da porta ao seu lado. Ele se agachou ao lado do corpo e abaixou a frente da cueca do homem.

Corredor abaixo, a porta de uma das outras suítes se abriu e uma face pálida olhou. O terceiro homem ergueu sua espingarda e o rosto despareceu para dentro. A porta bateu. Uma fechadura foi travada freneticamente.

O primeiro homem se uniu a eles.

- Tudo certo. - Ele disse. - Escada abaixo e para fora pela porta dos fundos. Vamos.

Eles estavam do lado de fora e entrando no carro estacionado três minutos mais tarde. Eles deixaram o Overlook para trás, coberto com o luar dourado das montanhas, branco como um osso embaixo de estrelas. Ele ficaria um bom tempo de pé, mesmo depois que os três estivessem tão mortos quanto os três que eles deixaram para trás.

O Overlook estava em casa com os mortos.


Before The Play - Stephen King (Prólogo de O Iluminado)Leia esta história GRATUITAMENTE!