Pulei da árvore e andei do outro lado da rua, seguindo-o discretamente, mas parei.

Eu não queria fazer aquilo agora. Tinha viajado tanto e merecia um descanso.

Continuei caminhando até a moto, e subi nela relutante. Mas olhei para trás uma última vez, para o carro. Antiquado, mas com um certo estilo atual, vai ver era a pintura. Corri os olhos pelo carro mais uma vez, e parei na...

Na placa.

743−HXA.

Vou me lembrar disso.

*

− Alicia, onde estava?

Olhei para Bárbara, sentada na cama do quarto que Emily me dera, segundo ela, mas eu ainda achava e insistia que ela só tinha me emprestado.

Era um quarto gigante, com as paredes em tons de marfim e branco. As paredes eram decoradas com estantes e pinturas: algumas eram representações de pinturas famosas, outras eram quadros simples, que pareciam ter sido feitos apenas por passatempo. Naturezas-mortas, florestas, jardins, um vaso de flores. A cama era de casal (como as de todos os quartos que eu vi) e era branca. O guarda-roupa era imenso, a tevê era o sonho de qualquer amante de filmes; ela tinha vários jogos, um frigobar e um baú. Em cada canto do quarto, haviam jarras de vidro lindamente decoradas, com flores secas e algumas especiarias. Emily dissera que aquilo era um pot-pourri*, e exalava um cheiro muito bom.

As roupas novas de Barbie fazem com que ela pareça uma socialite muito lindinha: Seu vestido a primeira vista era branco, mas era um tom de branco marfim coberto por um tecido finíssimo rosado. Ela usava sandálias brancas e parecia reluzente. Vi que passara pelos mesmos mimos no banho que eu.

− Dei uma saída.

Era um tiro perdido. Somos ensinados a ler a linguagem corporal das pessoas e a disfarçar a nossa própria, e eu era uma ótima mentirosa, se não fosse para Bárbara a pessoa para quem eu mentia. Ela podia ver formigas andando na terra a meio quilômetro de distância; ler sinais que indicam mentira no corpo de seus interlocutores não lhe é exatamente um desafio.

− Você está mentindo; foi procurar seu irmão, não foi? Onde estava? - Ela respondeu, quase imediatamente.

− O que me entregou?

− Você cerrou os punhos e suas pupilas dilataram. Não mude de assunto. Onde você estava? - Barbie repete a pergunta. Seu olhar é frio, metálico, e uma pedra a 100 quilômetros por hora causaria menos impacto em um humano que as palavras dela causam em mim.

Bárbara era um poço de calma, e essa era uma boa armadilha. Todos pensam que ela não se irrita, mas sim, ela tem seu limite. E seu pior jeito de enfrentar as pessoas é o que ela estava usando comigo. Seus gestos fariam qualquer um se encolher e baixar a guarda.

Mas eu não sabia o que a fez chegar ao limite.

− Observando a delegacia. Por quê?

− Alicia, você não consegue descansar? - Ela perguntou, como se estivesse exausta. Barbie soava como uma mãe que se cansa de dar o mesmo sermão para a filha por um motivo bobo. Ela se levantou e pôs as mãos nos meus ombros. - Ficamos a esmo por tanto tempo, mulher, tanto tempo! E agora que temos chance de descansar, você vai ter mais trabalho. Alicia, você é workaholic* por acaso? - Ela girou o corpo para ficar atrás de mim, mas eu disse algo que a fez parar:

− Há um nobre aqui.

Ela parou. Seu corpo ficou tenso; senti pelas suas mãos, que apertavam meus ombros. Sua respiração se aprofundou, apenas para, então, reduzir; suas mãos me soltaram e eu me voltei para ela, que parecia tensa.

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