CENA IV

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E Agora Esta Palavra De New Hampshire



Naquele verão longo e quente de 1953, o verão que Jacky Torrance fez seis anos, seu pai voltou uma noite bêbado para casa, do hospital, e quebrou o braço do Jacky. Ele quase matou o garoto. Ele estava bêbado.

Jacky estava sentando nos degraus da varanda e lendo uma revista em quadrinhos do Combat Casey, quando seu baixo veio rua abaixo, inclinando para um lado, torpedeado por cerveja em algum momento. Como ele sempre sentia, o garoto sentiu uma mistura de amor-ódio-medo crescer em seu peito, com a visão de seu velho, quem parecia ser um gigantesco fantasma malevolente, com seu branco de hospital. Ele era um servente no Hospital Comunitário Berlin. Seu pai era como Deus, como Natureza, às vezes amável, as vezes terrível. Você nunca saberia qual seria. A mãe de Jacky o temia e o servia. Seus irmãos o odiavam. Somente Jacky, dentre todos eles, ainda o amava, mesmo com o medo e ódio, e as vezes a mistura volátil de emoções faziam-no querer gritar, quando ele via seu pai chegando, simplesmente gritar: Eu te amo, papai! Vá embora! Me abrace! Vou te matar! Tenho tanto medo de você! Eu preciso de você! E seu pai parecia perceber isso, no seu jeito estúpido - ele era um homem estúpido, e egoísta - que todos eles o tinham abandonado, menos Jacky, o caçula, que a única maneira de conseguir tocá-los, seria forçá-los a dar atenção. Mas com o Jacky ainda havia amor, e houvera momentos, quando ele esmurrou a boca do garoto até o sangue escorrer e então abraçou-o com uma força aterradora, a força matadora só um pouco contida por outra coisa qualquer, e Jacky deixaria ser profundamente abraçado nessa atmosfera de malte e soluços, as quais flutuavam ao redor desse velho homem para sempre, tremendo, amando, temendo.

Ele pulou do degrau e correu metade do caminho, antes de algo o interrompê-lo.

- Papai? - ele disse. - Cadê o carro?

Torrance veio em sua direção, e Jacky viu o quão bêbado ele estava.

- Quebrou. - ele disse duramente.

- Oh... - Cuidado agora. Cuidado com o que você diz. Pela sua vida, tome cuidado. - Isso é uma pena.

Seu pai parou e olhou Jacky com seus estúpidos olhos de porco. Jacky segurou sua respiração. Em algum lugar, atrás da testa de seu pai, embaixo do curto cabelo aparado, as engrenagens estavam girando. A tarde quente ficou parada enquanto Jacky esperava, olhando ansiosamente o rosto de seu pai, tentando ver se ele jogaria um braço de urso sobre seus ombros, amassando o rosto de Jacky contra o couro duro do cinto, o qual ajudava a segurar suas calças brancas, e dizendo Me leve para casa, garotão, duramente e com desdém, o único jeito que ele poderia chegar perto de amor, sem se destruir, ou se fosse alguma outra coisa.

Essa noite foi alguma outra coisa.

Uma tempestade apareceu na testa de seu pai.

- O que você quer dizer como uma pena? Que tipo de merda é essa?

- Só... uma pena, papai. É isso o que eu quis dizer. É-

A mão de Torrance balançou no final do seu braço, mão enorme, braço de pernil de porco, mas com rapidez, sim, muita rapidez, e Jacky caiu de bunda com sinos de igreja na sua cabeça e uma boca cortada.

- Seu merda. - Seu pai disse, abrindo a boca.

Jacky disse nada. Nada ajudaria agora. O balanço se inclinara para o lado errado.

- Você não vai me desrespeitar. - Torrance disse. - Você não desrespeitará seu pai. Venha aqui e tome o seu remédio.

Alguma coisa em seu rosto nesse momento, algo obscuro e ardente. E Jacky de repente percebeu, que desta vez não haveria um abraço no final dos socos, e mesmo se houvesse, ele poderia estar inconsciente... talvez até morto.

Before The Play - Stephen King (Prólogo de O Iluminado)Leia esta história GRATUITAMENTE!