A Linha de Mistério e Fogo

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— Ela tá olhando pra gente — sussurrou o menino mais velho, dos dois que estavam espiando da esquina de um muro, com o medo se avolumando em sua voz, feito água represada.

— Fala sério. Ela tá com um pano por cima dos olhos! Como é que tu viu ela olhando pra gente?

— Shhhh! Fala baixo, Wallace, pô!

— Cala a boca, moleque!

Eram dois meninos, iguaizinhos a todos os meninos que todos os homens foram um dia. Eram irmãos, e na idade que tinham aqui, no começo desta história, William com treze anos e Wallace com onze, viviam às turras, brigando o tempo todo, mas naquele esquema: se alguém, que não for eu, bater no meu irmão, vai se ver comigo! Eram meninos que viviam entre dois mundos — por enquanto eram apenas dois — o mundo de Rio das Ostras, uma pequena cidade litorânea, onde vivia a mãe deles, e o mundo da cidade grande do Rio de Janeiro, onde viviam o pai, a madrasta, a irmã, o tio e a tia, e a avó. Sim, seus pais eram separados, e se alguém pergunta a um menino onde ele adora estar, raramente não será ao lado da avó, até mesmo quando a opção é uma praia, pelo menos assim eram aqueles dois. Então sempre que os irmãos podiam, passavam férias no Rio. E, pouco antes da conversa acima, lá estavam, caminhando juntos e subindo uma longa rua que ia, para a direção de onde vinham os meninos, desaguar feito um rio preto bem na Avenida Brasil; estrada que rasgava bom pedaço da cidade, por entre um mar de casebres, casas, prédios e galpões. Os meninos iam comprar pipas, conversando baixo, num tom um pouquinho triste, sobre seus mundos partidos, um mundo com a avó e outro com a mãe, quando eles viram a mulher maltrapilha, sentada em uma pedra, na calçada logo à frente, examinando a parede reta e lisa do muro de uma casa, com minuciosa atenção. Antigamente, quando eram menores, os meninos decidiram que tinham medo de mendigos, de serem raptados por eles. Agora ainda ficavam apreensivos quando viam um, e apreensão em garotos geralmente vira curiosidade, e aquela mendiga era tão diferente, tinha um jeitão, feito gente fina, mesmo sendo tão pobre... Eles passaram caminhando, mas não apontaram para ela, já sabiam que não deviam fazer isso com ninguém, nem zombaram, isso nem pensar, apenas aceleraram o passo, olhando a velha senhora maltrapilha de canto de olho, e assim que dobraram uma esquina, suas cabecinhas surgiram timidamente, espiando, no fim do longo muro, que ficava justo na curva da rua. E foi ali que começou o papo lá do início desta história. Eles se cutucavam e diziam:

— Parece uma daquelas feiticeiras de anime — falava Wallace, o menor, arregalando seus olhos castanhos.

— Eu acho que ela viu que a gente tá olhando ela. Ai, ai, ai — disse o mais velho dos dois, William, que vacilava em algum ponto incerto entre quase rir às gargalhadas ou tremer de medo. — Será que ela joga mau-olhado?

— Não fala idiotice, moleque! — Ralhou Wallace com o irmão. O coração disparado do mais novo ficava invisível lá no peito, e o que se via era sua quase constante cara de zangado. — Ela nem percebeu a gente.

Foi aí que aconteceu a coisa mais esquisita. A velha mendiga, envolta em trapos curiosos que pareciam um dia ter sido um rico e trabalhado conjunto de vestido e manto, estava a uns bons dez metros deles, e os dois meninos falavam baixo o suficiente para não serem notados, tanto que na primeira vez em que William achou que a mendiga os tinha visto, na verdade ela havia lançado um olhar vago mais ou menos na direção deles, voltando em seguida a remexer em algo que trazia dentro de uns fardos sujos que mantinha no colo, e a examinar o muro em frente, com um interesse incompreensível. Mas — e isso foi mesmo muito sinistro para os garotos — quando Wallace olhou para o irmão, para ralhar com ele, e quando William olhou de volta para Wallace, assim que o menor acabou de falar, os dois ouviram claramente a voz de uma velha, como se ela estivesse bem do lado deles, dizendo:

"Os dois deviam cuidar das suas vidas, e deixar as pessoas em paz!"

Eles ouviram isso. Ou algo muito parecido com isso. Ou acharam ter ouvido isso. Mas iriam passar o resto da vida jurando ter ouvido mesmo a mendiga falar de longe como se estivesse perto. E enquanto ouviam a frase olharam rápido para a mendiga, mas viram apenas a velha, cuja cabeça estava coberta por seu manto, olhando para eles. Na penumbra do manto, viram apenas um de seus olhos brilhando, o outro devia estar fechado. Mas a boca... a boca parecia estar sombriamente imóvel.

"Cuidem da vida de vocês, meninos intrometidos!"

E num estampido seco o reboco do muro em frente a mendiga trincou e saltou, os pedacinhos de massa desaparecendo, no entanto, um segundo antes de atingir a mulher. Ela mesma também surpresa com o estalo.

Pois, ouvindo e vendo essas coisas, os dois irmãos só pararam de correr quando deram a longa volta no quarteirão, chispando feito dois foguetes, de volta ao apartamento da avó. Chegaram lá numa carreira doida, como se fugissem do diabo.

Ninguém nunca acreditou neles, mas os meninos jamais se esqueceram daquele dia.

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