Capítulo Dezoito - Hannah

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 — O que você está fazendo aqui? – Percebo que ela faz esforço para deixar a voz firme.

— Quero falar com você há dias – respondo — mas você resolveu deixar de atender minhas ligações e agir como se fosse a mais nova aqui.

— Ok – Tia Holly engole em seco e percebo que ela finalmente se toca que não tem mais como escapar de mim. — Que tal um chá?

Bom, pelo menos ela me convida para entrar. Balanço a cabeça, uma resposta afirmativa. Ela sorri, mas não parece muito confiante.

Tia Holly anda alguns passos, abre a porta da casa e entra logo depois; eu faço o mesmo e dou de cara logo com a sala espaçosa. Ela despeja a bolsa em cima do sofá e eu vou para a cozinha ao seu lado.

Tia Holly pega a chaleira do armário da bancada da cozinha e é impossível que não me lembre de quando eu era criança e ela sempre insistia que um chá fazia qualquer situação ruim parecer melhor pelo simples fato de a bebida esquentar seu corpo.

E, de fato, chá se tornou uma das minhas bebidas favoritas por causa das ocasiões em que eu passava as tardes das minhas férias na casa de Holly.

— Quer bolinhos? – Sei que ela está evitando me responder e que, muitas vezes, tia Holly pode ser a pessoa mais covarde desse mundo. Entretanto, eu também estou gostando de adiar um pouco isso. Afinal, quero mesmo saber o porquê de ela ter me deixado sozinha com Frank?

Eu sempre fui uma pessoa curiosa; desde criança me metia em lugares que não devia, mas depois de me ferrar tanto, aprendi a controlar meus instintos e sempre pensar muito bem antes de tomar alguma atitude.

— Sim, eu quero os bolinhos.

Tia Holly, além de tentar ser uma boa tia e apreciar o lugar em que mora, também é uma ótima cozinheira e seus bolinhos são os melhores.

Sempre preferi os de Holly aos da minha mãe, que fica frustrada com isso desde sempre, já que as duas aprenderam a fazer os benditos bolinhos no mesmo dia e com a mesma pessoa, minha avó, que já é falecida.

— De cenoura com cobertura de chocolate – ela diz, enquanto tira a bandeja da geladeira. Direciono um sorriso para Holly. Alguns minutos depois o chá já está pronto e estou comendo um pedaço do bolinho enquanto espero que ela se junte a mim, o que não demora a acontecer.

Mordo um pedaço do bolo, mastigo e o engulo com uma demora desnecessária. Penso no que eu posso começar a dizer a ela e, se eu ficar enrolando, é capaz de eu nunca tirar minhas dúvidas, então decidi ser sincera e ir direto ao ponto.

— Por quê? – Pergunto. Tia Holly ergue uma sobrancelha e para com a xícara próxima a boca. Espero ela terminar de tomar um gole antes de eu continuar — Porque me deixou sozinha com Frank?

Ao contrário que imaginei, ela não demora mais para me responder.

— Sei ver o arrependimento de uma pessoa de longe– ela diz, me surpreendendo. —Mudei de ideia de última hora porque soube que se ninguém empurrasse você para começar a ter uma conversa com ele, essa conversa, ou um provável beijo, nunca aconteceria. E o medo que coloco em Frank? – Ela deixa uma risada escapar de seus lábios no meio da frase — Eu descobri que gosto de botar medo nas pessoas, – ela dá de ombros — nada em especial, é só para garantir que ele não iria fazer nada de novo.

— Ele não fez de propósito – não sei por que, mas quando vi, já o tinha defendido — ele só apostou e....

— Sim, ele foi correto em tentar ir contar para você, mas ele acabou não tendo tempo de fazê-lo. – ela suspirou — O que eu estou querendo dizer é que Frank ama você. Ele foi um adolescente imaturo ao demorar tanto para contar, mas não podemos esconder o óbvio e isso está claro toda vez em que ele põe os olhos em você. – Meu coração falha uma batida com essa constatação do fato — E conheço minha sobrinha o suficiente para dizer que você está totalmente apaixonada por ele... De novo.

— Eu não quero! – desabafo de repente surpreendendo a mim mesma — Não quero que ele faça comigo o que fez antes. Ele ainda tem a porcaria dos mesmos amigos que tinha no colegial; o mesmo, provavelmente, com quem fez a aposta de ficar com a idiota da turma...

— Hey, querida! – Ela coloca a mão em meu braço, impedindo que eu continue a divagar. — Sim, mas ele é um homem agora. Ele é médico. Ele cresceu. Frank já sabe o que faz e tenho certeza de que ele faz de tudo para se redimir.

— O que você sabe sobre o amor, afinal?! – Grito de repente, mas me arrependo das minhas palavras rudes logo em seguida. Tia Holly não merece o meu desaforo.

É tão ruim o fato desses sentimentos por Frank estarem voltando? O quão ruim para o meu emocional é querer beijá-lo novamente, mesmo que isso só tenha acontecido duas vezes?

A expressão de tia Holly muda drasticamente para algo como nostálgico. Engulo em seco quando ela se levanta. Eu nunca soube ao certo se ela já teve envolvimento com alguém antes; mamãe nunca mencionou algo e uma sensação ruim está se apoderando de mim à medida que Holly se aproxima.

— Venha aqui – ela diz e estende a mão, que eu seguro firmemente.

Holly me leva para a sala e abre a pequena caixa que fica embaixo do suporte da televisão e retira um álbum de fotos.

Sento-me no sofá ao seu lado e ela me mostra o álbum.

— Veja – ela pede.

Eu começo a passar as páginas do álbum e a medida que olho as fotos, me surpreendo ainda mais com o que vejo.

É um garoto que está na maioria das fotos. Ele é magrelo, usa óculos e tem um sorriso bonito, apesar da aparência de um típico garoto desastrado. Em uma das fotos, ele e Holly estão de mãos dadas. As fotos são em preto e branco.

— Esse é Fabian – ela diz. — Ele era o idiota da turma, o que ninguém queria sentar junto no intervalo porque todo mundo tinha medo de ser excluído como ele. As pessoas eram cruéis e o colocavam preso dentro de armários durante os intervalos. Perdi a conta das vezes em que o retirei dos armários apertados demais, apesar de ele ser extremamente magro. Temos estas quantidades razoáveis de fotos porque ele amava tirá-las. Eu era razoavelmente popular, e nunca admitiria um namoro com ele porque eu era covarde demais para assumir tal feito, mas, apesar disso, eu tentava ajudá-lo sempre que possível porque eu estava perdidamente apaixonada.

— E o que aconteceu? – Não consigo segurar minha língua; minha curiosidade está maior do que qualquer coisa.

— Ele se matou, – ela diz — ele não aguentou o bullying que, na época, nem esse nome tinha. Ele não aguentou o fato de eu amá-lo pela metade. E eu iria contar. Mas ele atirou em si mesmo. Ele estava no hospital quando eu finalmente decidi fazê-lo, mas o médico me deu a notícia deque ele havia conseguido o que queria antes que eu pudesse dizer aquilo de que mais precisava.

Sinto as lágrimas se formando em meus olhos, mas faço de tudo para não chorar na frente de Holly.

— Ele teve que levar um tiro para que eu percebesse o que realmente valia a pena. E o que eu estou tentando te passar é que Frank olha pra você do mesmo jeito que Fabian me olhava e... Isso é o tipo de coisa que só acontece uma vez na vida. Ou, pelo menos, duas, se você for uma pessoa muito sortuda. Sei que você levou aquele tiro e talvez Frank apenas percebeu a mesma coisa que percebi quando estava no hospital esperando notícias de Fabian: que vocês dois existem, é real, e é para acontecer. Você olha para ele da mesma forma que ele olha para você e não adianta negar isso.

Um soluço escapa dos meus lábios. Não consigo mais controlar e sinto os braços de Holly me envolverem, exatamente como ela fazia quando eu era criança e acordava no meio da noite por causa de algum pesadelo sobre monstros embaixo da minha cama.

Ela continua acariciando meus cabelos, mas não deixa de continuar a falar. Meus braços apertam sua cintura, retribuindo o abraço reconfortante que eu tanto amo receber em meus momentos de fraqueza.

— Não posso decidir isso por você, mas qualquer decisão que julgar ser melhor para você estarei ao teu lado, e me desculpe por ter te jogado logo pra ele. Frank apenas parecia angustiado demais e devido a minha história, eu simplesmente não consegui ficar parada e apenas observar.

— Obrigada, Holly – falo em uma fungada por causa do choro. — Eu amo você.

— Eu também te amo, pequena.


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