17.1 BISCOITO!

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CAPÍTULO 17 - QUERIA ENTENDER POR QUE EU SEMPRE ACABO ENCRENCADA

- Pirata's Shopping - Mila soltou uma gargalhada animada. - Parece legal.

- Ai, tinha que ser paulista - Resmunguei, levando uma olhada mortal da minha prima, ao que eu só percebi por causa do espelho retrovisor. - Vem pra praia e a coisa mais interessante que encontra é um shopping!

Mila ficou emburrada com a minha brincadeira e Talles estava gargalhando também, olhei para trás para vê-lo tentar ganhar um beijo e receber um tapa estalado no ombro no lugar.

- Do que você está falando? - Mila se fez de sonsa. - Vocês chamam bolacha de biscoito.

- Vocês que chamam biscoito de bolacha.

Mila estava prestes a retrucar, quando JP a cortou.

- É biscoito - JP concordou comigo. - Esse tempo todo que você passou no Rio e ainda não aprendeu como é que se diz?

Mandei um beijo para ele no ar por me apoiar na discussão e recebi um aperto em minha coxa de resposta. A minha barriga se revirou por inteiro e eu ainda não sabia o que ia fazer com nós dois. Éramos sério? Não éramos? O que estávamos fazendo?

- Mas é claro que não! - Continuou reclamando. - Porque vocês estão errados. É óbvio que é bolacha.

- Tá escrito na embalagem - pontuei.

Mila, esquentada como era, estava vermelha como um pimentão. JP balançou a cabeça negativamente, voltando a prestar atenção no caminho que fazia, através do centro de Angra dos Reis. Tirou a mão da minha coxa para dar a marcha e voltou-a para o volante.

- A bolacha é minha e eu chamo ela do que eu quiser! - Finalizou.

- Argumentos de perdedores - voltei a olhar para frente, ouvindo Mila bufar e Talles gargalhar.

Pelo estampido que eu ouvira a seguir, com certeza não tinha terminado bem para ele. Sorri, porém, por aquela discussão infantil, que me lembrava dos tempos em que Mila praticamente morava na minha casa de praia durante as férias, tempos melhores, financeiramente falando, de quando minha tia, mãe de Mila, nos ajudava um pouco.

Encarei JP concentrado e me admirei com o quanto eu gostava de vê-lo assim, com a expressão decidida e compenetrada. Ainda não conseguia me acostumar com a sua beleza bruta, o maxilar bem marcado, os olhos quase dourados e os ombros largos, mas, além de tudo, não conseguia acreditar que ele tinha olhado pra mim e escolhido passar o verão em minha companhia.

Acho que era só por isso que eu continuava por ali. Porque era ele... Qualquer outro cara já teria me enjoado, mas JP era sempre inteligente, sempre tinha algo a dizer ou me ensinar, mas mais que tudo, eu continuava ali porque ele me dava abertura para desistir a qualquer momento. Nós estávamos juntos porque queríamos ficar juntos, no momento em que alguém precisasse abandonar o barco ou não quisesse mais, era só falar e ir... Era o nosso acordo.

Deixei de encará-lo porque vi-o me olhar de rabo de olho e cerrar os olhos com um sorriso daqueles de fazer tremer as pernas. Resolvi admirar a cidade, quase rústica, meio imperial, meio urbana, meio praieira. Angra dos Reis era um belíssimo reduto de paz, mas crescera absurdamente nos últimos anos. Com os estaleiros abertos pela cidade, a vida do povo dali melhorara bastante, embora a sua economia ainda fosse bastante ligada ao turismo, mas assim também era o Rio de Janeiro, embora ainda como capital urbana.

Apesar de estar escurecendo, a cidade estava em fervorosa. O carnaval parecia não querer acabar por ali e podia-se ouvir marchinhas aqui e acolá, além de placas e faixas, anunciando programações por toda a próxima semana. Os bares e estabelecimentos estavam se preparando para abrir e uma penca de gringos e forasteiros dominavam as ruas, dificultando até mesmo a transição dos carros, cheios de areia e vermelhos demais para os próprios bens, arrastando cadeiras de praia e guardas-Sol.

A luz alaranjada deixava a cidade ainda mais bonita, ainda mais festiva e ainda mais encantadora. Pouco me lembrava das vezes que passara por ali quando criança, apesar de ficar por longos períodos em Muriqui, o bairro fazia parte do município de Mangaratiba e era onde resolvíamos a maior parte dos problemas, quando tínhamos um. Exceto quando minha mãe caiu nas pedras da praia e nos encaminharam para um hospital no centro de Angra porque lá tinha algum tipo de exame que a máquina tinha quebrado no hospital principal de Mangaratiba. Mas acho que minhas memórias estavam mais focadas no hospital e como o meu padrasto tinha sido um total imbecil naquele período, reclamando que estava perdendo tempo de praia por causa daquela palhaçada.

JP estacionou na frente de um portão de grades do que parecia ser uma vila. Havia uma senhora sentada em uma cadeira ao lado do portão e sorriu ao ver o carro. Talles desceu do veículo e apertou a mão da velha, se apresentou e ela lhe ofereceu a chave. Ensinou-o a abrir o portão e os dois nos deram passagem para que JP pudesse estacionar.

- Vamos só deixar o carro e dar uma volta - Mila sugeriu, parecendo ter esquecido completamente da nossa pequena discussão.

Concordamos, nós dois, e descemos. JP desligou e lacrou o carro, oferecendo a chave do mesmo para Talles, que recusou e deu um tapa no ombro de JP.

- Uma volta, então? - Perguntou, ao ver que a namorada já estava do lado de fora do portão, enquanto nós três continuávamos parados ao lado do carro.

Não sabia como os dois continuavam juntos, enquanto Mila era um bichinho agitado e Talles era mais largadão, além de brigarem o tempo todo. Mas era bom que estivessem, porque, quando não discutiam, eram um casal adorável e divertido.

- Esperem! - Reclamei, quando Talles correu para alcançá-la e ficamos JP e eu para trás.

Talles e Mila pararam em frente ao portão e JP riu da minha cara. Abracei o corpo, sentindo a brisa marítima da noite me incomodando e, então, senti algo quente e macio em minha mão.

Olhei para o lado e meus dedos responderam instintivamente, entrelaçando-se com os de JP.

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