17 - Parágrafos recheados de bolachas

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Vamos comparar o texto/livro a um pacote de bolachas recheadas (você pode substituir a palavra bolacha por biscoito, se quiser).

Compramos o pacote pela capa, aquelas bolachas "photoshopadas" que parecem crocantes com recheio cremoso, escolhemos o sabor, eu leio um pouco o rótulo como as pessoas leem as orelhas e as resenhas dos livros.

Podemos dizer que o pacote é a introdução do texto, o que podemos esperar da narrativa. A primeira bolacha, os parágrafos iniciais, vai nos dizer se gostamos ou não do texto. Lambemos o recheio e sentimos se o texto tem um bom conteúdo, é docinho sem ser duro (oferece pouca ligação com a história), ou mole (cheio de gorduras desnecessárias). Se estamos com fome ou se nos delicia vamos até o fim do pacote de uma vez sem arrependimentos.

Regra geral para se comer bolacha recheada: separe as duas metades, lamba o recheio, coma as duas metades. Regra geral da construção de parágrafos. Ideia central ou nuclear tem que vir primeiro, "teoricamente"; ideias secundárias, que envolvem ou explicam, decorrem da ideia central.

Vou usar uma frase que acabo de discutir com o amigo Giovani Arieira, para explicar o conceito de ideia central:

Ele escreveu:

"A escuridão foi rompida por uma lâmpada acesa no canto da sala que iluminava só uma parte do ambiente oposta ao que Gregor se encontrava."

O mais importante nesta sentença é a luz, assim como nas subsequentes o fato de nomear o protagonista, único personagem da trama é desnecessária, portanto a menção é gordura. Reescrita ficou assim:

"A luz intensa de uma lâmpada suspensa rompeu a escuridão, iluminando apenas o lado oposto à porta." (o protagonista havia entrado na sala no parágrafo anterior).

Outra questão importante na construção de parágrafos é a sequência. Principalmente se estamos contando/mostrando um evento, ou desenrolando uma ação. O que aconteceu antes deve vir primeiro. Tomando o exemplo do texto anterior.

"A luz intensa de uma lâmpada suspensa rompeu a escuridão, iluminando apenas o lado oposto à porta, assim que Gregor abriu a porta da biblioteca e entrou, depois de percorrer toda a casa e perceber que nenhuma porta abria. Quando ele acordou, ou pensou que acordou, aquela madrugada." (Este não é o texto do Giovani, é só um exemplo criado a partir da frase)

Qual é a intenção do escritor? Criar confusão no leitor? Uma sequência muito rocambolesca pode levar à indigestão. Quem lê fica incapaz de perceber a essência, tem que voltar ao começo, ao meio e talvez nunca encontre o fim.

"Quando Gregor acordou, ou pensou que acordou, a noite ia alta e envolvia tudo em penumbra, mesmo assim decidiu percorrer a casa à procura de uma porta aberta. Uma após outra estavam trancadas tanto as para os cômodos internos quanto as que davam para fora. Até que uma delas cedeu. Era a porta da biblioteca. Assim que entrou, a luz intensa de uma lâmpada suspensa rompeu a escuridão, iluminando apenas o lado oposto à porta."

Eu gosto de comer as bolachas inteiras, sem separar, conheço quem come as partes e deixa o recheio e outros que raspam o recheio com faca para comer depois. A apresentação de um parágrafo é tão relativa quanto o modo de se comer uma bolacha recheada. Depende do assunto, da complexidade, do gênero, do público leitor etc.

O autor, no entanto, precisa saber gerir os recursos de expressão e desenvolvimento da ideia, não existe liberdade sem que se saiba onde estão as correntes, por isso precisamos conhecer e estudar a estrutura das frases e parágrafos para que elas não nos limitem. Um parágrafo mal construído pode sugerir ao leitor desordem de raciocínio, falta de unidade ou objetividade, acabando por enjoar e desinteressar.

Nos livros de técnicas literárias aprendemos que o parágrafo é uma unidade de composição que representa um processo completo de raciocínio dentro da ideia principal. Ou seja, o ponto central e seus contornos, o recheio e suas duas metades. Até que aparece alguém como Roberto Bolaños (não é o Chaves, pois ele gostava de churros) e escreve "Noturno do Chile", um livro de 120 páginas, com somente dois parágrafos, um que ocupa quase todo o livro e outro com 8 palavras! Não significa que o autor não domina a construção do texto, significa que ele se sente tão livre que pode fazer o que bem quiser que o texto continuará apresentando unidade. Muitos consideram "Noturno" sua obra-prima.

Então, a extensão do parágrafo é menos importante do que a coesão com o conteúdo da ideia principal.

De uma forma bem rasteira podemos dizer que o parágrafo tem que ter:

1. Uma ideia centra e principal que puxa o texto e ocupa dois ou três períodos curtos,

2. O desenvolvimento ou explicação da ideia e

3. Uma conclusão ou ligação para o próximo parágrafo.

" 1- Naquela manhã perdi toda a esperança de encontrar Madalena, pois ela havia partido, de forma definitiva. 2 - A nave em que ela embarcou tinha um destino bem diferente da minha, o tempo em que ficaria em estado de suspensão, muito mais longo que o meu. 3 - Percebi que não há está coisa de destino traçado, duas metades da mesma laranja, par perfeito. Se houver o que podemos chamar de para sempre, não se aplicava a mim e a ela."

Desdobramento da ideia em parágrafos

Recurso comum e eficiente é desdobrar uma ideia mais complexa em alguns parágrafos. Argumentar sobre ela, narrar um incidente que a explique, descrever o quadro geral, respondendo perguntas sobre o quê, quando, onde, para quem, por quê.

Trecho de O Homem Sintético de Theodore Sturgeon

"Livrou-se da embriaguez. O alcoolismo não é uma doença, mas um sintoma. Há duas maneiras de liquidar o alcoolismo. Uma é curar a causa. A outra é substituí-lo por outro sintoma. Foi esse o caminho escolhido por Pierre Monetre.

Escolheu desprezar os homens que o liquidaram e acabou desprezando o resto da humanidade, porque estava muito próximo daqueles homens.

Gozava com esse desprezo. Erigiu um pedestal de ódio e encarapitou-se nele para escarnecer da humanidade. Isso era, naquela época, a única coisa que o satisfazia. Ao mesmo tempo, morria de fome; mas, como os ricos eram a única coisa que tinha valor para o mundo do qual zombava, gozou também sua pobreza. Por algum tempo."

Nestes três parágrafos o autor demonstra a passagem do estado de alcoólatra desiludido para sociopata lunático do personagem.

No primeiro ele diz o raciocínio de Pierre para abandonar o alcoolismo.

No segundo, onde ele aplicou esse raciocínio.

No terceiro, o como.

Abra um livro qualquer, um bom livro, escrito por um autor renomado, daqueles que tanto o público quanto a crítica gostam. Também pode ser um escritor profissional como Jay Bonansinga, responsável pela adaptação de The Walking Dead para romance, ou Timothy Zahn que adaptou Star Wars. Dê uma boa olhada na construção dos parágrafos e na sua disposição, na próxima história que escrever pratique o que aprendeu com suas leituras e veja o quanto sua história ganha em clareza e coerência.


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