Muito embora Paola fosse uma louca e eu a odiasse de cara, ela estava certa. Não era nada ético eu ficar me agarrando com Alex pelos corredores ou quartos. Ele era meu mentor e eu tinha que me comportar. Imagina se fosse nosso chefe que tivesse nos visto ali? Alex continuaria sendo o brilhante cirurgião pediátrico e eu seria apenas a ex-residente desempregada. Um trágico fim.

Alex estava vestindo a camisa quando passei pela porta do quarto de descanso e a fechei logo atrás de mim. Quando me viu, automaticamente começou a tirá-la de novo, com um sorriso brincando nos lábios. Safado! Não me contive e comecei a rir. Toda a minha pose de durona foi para o ralo.

- Pode se vestir! Nós precisamos conversar.

- Não pode ser depois? - ele perguntou, já se aproximando e colocando as mãos na minha cintura. - O que a Paola queria?

- Me dar um conselho. Quer adivinhar qual?

- "Não se deixe enganar por Alex Boaventura. Ele só quer sexo!" - Alex afinou a voz a fim de parecer Paola, mexendo o dedo como ela faz. Dei risada e ele também.

Tirei as mãos dele da minha cintura e fui me sentar no beliche. Ele soltou um "tsc", mas veio atrás de mim. Sentou-se a alguns centímetros.

- Coloque a camisa - eu insisti, apontando para a mesma jogada no chão. Convenhamos que não seja fácil conversar sério com alguém com esse abdômen.

- Ainda tenho esperanças de que você desista dessa DR.

Dei risada pelo "DR". Não estávamos discutindo a relação. Eu só queria por os pingos nos i. Assim como Alex, eu também não queria uma relação séria, principalmente com alguém que trabalha ao meu lado e está numa posição superior a minha. E a ideia dele ser um cafajeste também não é a ideal para mim. Mas ainda assim gostaria de dizer a ele que parasse de me agarrar pelos corredores, mesmo que isso só tenha acontecido agora - e que eu tenha gostado.

- Isso aqui - fiz um gesto abrangendo nós dois. - tem que parar.

- O quê?! A gente acabou de começar - ele diz. - Você só me usou, Nina Novaes. Só quis o meu corpo. Nunca gostou de mim de verdade, né?

- Para! - eu joguei a almofada nele, gargalhando da sua cara de ofendido. - É sério, Alex... Pare de me interromper.

Ele ri.

- Desculpe. Só quis descontrair. Essa ruga de preocupação na sua testa não combina com você.

- Não estou preocupada. É só que... - tento organizar os meus pensamentos, irritada comigo mesma. - Isso tem que parar, sabe? Não quero que seja como com a Paola ou as quinhentas enfermeiras. Se formos "amigos coloridos" - digo, já me arrependendo pelo termo, porque é péssimo. - que sejamos em nossas casas.

- Acredito que vá ser difícil não arrancar a sua roupa na próxima cirurgia.

- Há-há-há.

- Certo, condição número dois?

- Ok, condição número dois... - eu penso. - Ah. Pare de me constranger na frente dos médicos. Viu o que você fez com o Willian?

- Willian é um pé no saco. Vive implicando comigo pelo "meu jeito de tratar as mulheres".

- Mesmo?

- É. Te tratei mal em algum momento? - ele pergunta, com aquele sorriso de lado egocêntrico.

- De maneira alguma - digo sem conseguir me conter.

Ele faz com gesto como quem diz "viu só!".

- Mas me desculpe. Só não esperava encontrá-la almoçando com ele depois de evaporar da minha casa. Eu fiquei ofendido.

Dou risada de novo. Alex Boaventura ofendido.

Anjo (COMPLETO)Leia esta história GRATUITAMENTE!