Capítulo 1

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Finalmente! Depois de tanto tempo esperando, arrumando, planejando... Minha exposição estava pronta! Que orgulho, meu trabalho recompensado. Uma exposição na maior galeria de Londres com os convidados mais requintados que eu poderia sonhar!

Todos os meus quadros, todos os meus trabalhos arrumadinhos e prontos para serem vistos e quem sabe comprados...

- Você vai ficar rica, pequeno gênio - Brendon passou, rindo da minha cara.

Suspirei, passando a mão pela moldura do meu quadro favorito. Pateticamente feito como se fosse um desenho mal feito pintado como um retrato de Sol, uma menina sendo carregada por um rapaz que caminhava pela areia da praia. O primeiro que eu havia feito. Quando eu havia sido decepcionada o suficiente pra precisar de uma válvula de escape.

Nova vida. Era isso que eu tinha agora.

Sacudindo meus cabelos, eu olhei no relógio e vi que faltavam poucos míseros minutos pra começar à exposição. Resolvi, então, dar uma passada no galpão pra me acalmar enquanto não chegavam às primeiras pessoas.

O galpão ficava nos fundos da galeria. Ele não era muito grande, mas a segurança era mais fraca porque era de mais difícil acesso. Ali ficavam algumas obras que não eram de grande valor e era um lugar mais calmo, então ficavam algumas poltronas ali para que os expositores e as pessoas que trabalham pudessem descansar.

Sentei-me no sofázinho e tamborilei meus dedos na minha perna. Faltavam quinze minutos pra abrir a exposição. Quinze minutos pro meu sonho começar. Só quinze minutos.
Suspirei. Estava com fome, mas estava com medo de comer alguma coisa e pôr pra fora. Não adiantava me dizer o quão boa eu era, eu nunca acreditava. Eu era sempre insegura e estava sempre me inferiorizando. Eu nunca estava satisfeita com o que eu fazia, sempre desejava que fosse melhor.

Pra corrigir isso, a opinião pública e de pessoas mais inteligentes que eu me alegrava. Eu gostava de ouvir que as pessoas gostavam do que eu fazia, mas eu estava sempre com medo de não gostarem.
Nesse momento, o medo me assolava.
- Janet, achei você - Brendon me fez acordar de meus devaneios. - Vamos, está quase na hora!
Mordi meus lábios, nervosa. Hora de encarar a verdade. Será que eu era mesmo boa?
Caminhei, perdida em pensamentos, de volta à exposição. Entrei no grande salão ouvindo um ruído estranho. Demorou para que eu percebesse que eram aplausos. Corei da cabeça aos pés e me encolhi atrás da primeira pessoa que eu encontrei. Infelizmente, minha escolha foi muito errada.
- Ora, olá, Jane - O sorriso dele me pareceu tão debochado que eu fiquei enojada - Quanto tempo!
É, muito tempo. Desde quando você resolveu ser escroto e me expulsar do seu quarto, se não me engano.
Mordi minha língua antes que eu proferisse palavras de baixo calão no meu grande dia.
- É, realmente muito tempo, Lucca... Pena que você veio hoje, eu preferiria continuar no muito tempo.
Ouvi uma risada nasalada atrás dele e me virei pra cumprimentar John, Mark e Willian, os outros caras da banda. Valia muito mais a pena.
- Você pinta muito bem, sabe - Lucca me seguiu, enquanto eu seguia para cumprimentar outras pessoas.
- Obrigada.
- Isso me lembra como você fazia outras coisas muito bem também - Ele continuou.
- Agora você resolveu lembrar, é? - Eu sussurrei, deixando de cumprimentar alguém para respondê-lo. - Porque há dois anos atrás, você me achava indigna de continuar no seu quarto por mais vinte minutos.
- Eu mudei.
- E eu sou Carlota Joaquina! - Me estressei.
- Quem é essa? - Ele me perguntou, confuso.
- Não importa.
Eu virei as costas pra ele para explicar sobre um quadro pra três senhoras que rodeavam ele.
- ...Então, é a expressão da diversão sobre quando a nós podemos ter o que a nós... - Senti o hálito dele, próximo ao meu ouvido e o queixo dele encostou-se em meu ombro.
- Você está muito mais gostosa que da última vez que nos vimos - Ele deu uma risadinha e eu continuei estancada no meu lugar, envolvida demais pra me mexer - E muito mais sexy.
Então, eu despertei. Aquele idiota já tinha me feito chorar o suficiente pra uma vida inteira.
Não que eu fosse depressiva e tudo mais. Mas o que acontece é que um dia, eu fui uma garota "normal". Eu tinha minha banda favorita, que por sinal era McFLY e eu fazia de tudo por eles. Eu ainda fazia às vezes.
Mas eu passava meus dias sentada no meu computador, invejando todas as fãs que os conhecia e ainda mais as que conseguiam alguma coisa além com eles. Aquilo alimentava minhas esperanças.
Então, um belo dia, foi a minha vez. Eu, ainda hoje, não sei como aconteceu. Em uma hora, eu estava pulando alopradamente no show do McFLY e, na seguinte, eu estava no quarto me atracando com Lucca Ferraz. Como eu consegui? Só quem consegue sabe.
Mas o que parecia um sonho e a noite que eu melhor dormi na minha vida se quebrou na manhã seguinte, quando ele acordou sem saber meu nome e me expulsou do quarto dele antes que eu pudesse sequer me vestir direito.
Minha sorte foi que John me recolheu pro quarto dele para que eu pudesse me vestir e me pediu milhares de desculpas, mesmo sem saber o porquê de eu não conseguir parar de chorar. Queria, eu, ter minhas quedas por ele. Ele, sem dúvidas, era um fofo. Ao contrário do Ferraz, é claro.
- E você continua o mesmo canalha de sempre - Eu sussurrei de volta. - O que foi? Cansou de decepcionar suas fãs ou elas ficaram novas demais pra você?
- Queria pedir desculpas pra você...
- Peça pra alguém que se importe, ok? - Eu me desvencilhei dele e fui em direção ao Brendon, que acenava pra mim.
Cheguei até ele, que quase não se segurava.
- Menina, quem é esse gatinho lindo que está seguindo você?
Antes que eu pudesse proferir todos os xingamentos que eu conhecia, senti uma mão na minha cintura e um corpo se curvando sobre mim.
- Lucca Ferraz, prazer
Brendon apertou a mão dele, encantado que eu estivesse me pondo tão bem na mídia. Mal sabia ele.
Eu empurrei Lucca pra longe.
- Não encosta em mim - Eu cerrei os dentes.
- Janet... ! - Brendon quase morreu do coração com a minha atitude. Eu neguei com a cabeça pra ele.
- Ná - Lucca proferiu. - Ela só está chateadinha porque eu não dei a atenção que ela queria há uns dois anos atrás.
- Você foi um idiota - Eu disse. Metade da exposição olhava pra gente agora.
- Posso dar sua atenção agora
- Tarde demais - Eu arqueei a sobrancelha e virei às costas pra ele. John acenava pra mim, nitidamente preocupado com a situação.
Caminhei em passos confusos até ele, sem entender porque ele havia me chamado. Mas ao chegar lá, ele me ofereceu uma taça de champagne.
- Vamos comemorar sua exposição completamente lotada e os montes de dinheiro que você vai ganhar essa noite? - Ele me perguntou, sorrindo. Eu peguei a taça de champagne e brindei com ele e com os outros dois, bebericando. John se aproximou mais de mim - Esquece o Ferraz - Ele sussurrou no meu ouvido - Ele está com o orgulho ferido por ter sido tão idiota com você e ter perdido uma garota tão fantástica assim
Eu sorri com o elogio.
- Obrigada
Ele negou com a cabeça, dizendo que não era nada.
- Jane, eu quero esse aqui - Mark apontou pra um pedaço da parede, onde não haviam quadros, me fazendo rir.
- Isso é a parede, retardado - Willian lhe deu um pedala.
- Mas parecia tão real - Ele fez bico.
- É porque é, Mark - Eu ri. Ele continuou tristinho. - Depois eu pinto um quadro de parede pra você, está bem? - Ele abriu um sorriso de orelha a orelha.
Mark era uma das pessoas que não podiam sorrir tão lindamente assim em público. A outra pessoa que não podia fazer isso, me encarava intensamente do outro lado da galeria.
Eu me despedi dos meninos e fui me juntar à um grupo de jovens filhos de donos de empresas que queriam atenção.
- Olá, me chamo Janet Stuart e sou a artista em exposição - Eu sorri.
- Muito prazer - Eles disseram em uníssono.
- Então, sobre o que se interessam?
- Eu me interesso por você - Um loiro de olhos verdes disse, me fazendo corar.
- Infelizmente, eu não sou comprável. - Eu ri.
A conversa foi continuada, calma e alegremente, enquanto eu apresentava alguns dos meus quadros favoritos à eles.
Mas o meu favorito mesmo, eu evitei mostrar. Não queria que o comprassem. Ele era meu, eu não queria nem que o expusessem, mas foi insistência do Brendon.
Assim que eu acabei de mostrá-los a maioria dos quadros, o loiro se aproximou de mim, enquanto os outros se afastavam. Ótimo partido, ótimo time.
- Então... Alguma chance de você me dar meu telefone? - Ele sorriu e abaixou a cabeça, quase envergonhado.
Eu sorri e a abri a boca pra responder, mas, então, alguma coisa me puxou pelo braço pra longe.
- Quem você pensa que é? - Eu puxei meu braço pra longe dele.
- Lucca Ferraz, 23 anos, olhos azuis - Ele disse, quase que recitando. - Um dos caras mais sexies do Reino Unido, ao seu dispor
Alguns segundos depois, eu consegui voltar a piscar e revirei os olhos. Meu retardo fez ele estufar o peito de orgulho pelo efeito que havia causado.
- E, com isso, você acha que tem o direito pra me arrastar pela minha exposição pra que eu dê atenção a você?
- Claro - Ele sorriu.
- Faça-me o favor! - Eu exclamei, acenando com a mão. Me virei pra voltar a falar com as pessoas, mas ele me segurou, novamente. Ao me virar pra ele, contrariada, vi que os outros três rapazes encaravam a cena quase alarmados. - Você esqueceu de tomar seu remédio hoje?
- Estou tentando tomar, mas está difícil - Ele arqueou a sobrancelha pra mim.
Suspirei pesadamente, pronta pra proferir mais umas respostas idiotas, mas eu apenas acenei negativamente e virei às costas.
Eu precisava de um ar.
Sai da galeria em direção ao galpão. Ia me deitar no sofá lá e respirar até conseguisse me acalmar o suficiente pra voltar à exposição.
A noite estava pouco estrelada, uma noite comum na Londres cinzenta.
Eu me encolhi com o frio e suspirei. O ar gelado penetrou nos meus pulmões, ajudando-me a acalmar-me.
- Com frio? - A voz dele atrás de mim me fez tremer mais ainda. Ele jogou o paletó por cima dos meus ombros e ajeitou-o sobre mim. O perfume dele não ajudava em nada na minha sanidade.
- Você não vai me deixar em paz? - Eu perguntei, fechando os olhos.
- Não até você resolver jantar comigo qualquer dia.
Eu sacudi a cabeça, negando. Deixei o paletó cair pelos meus ombros até chão, atrás de mim e arrisquei passos confusos até o galpão.
Eu empurrei a porta da entrada e congelei, de olhos arregalados com a cena.
Um disparo.
- AHH - Eu gritei de susto e desespero. Lucca correu até mim e ao ver a cena, tampou a minha boca, me abraçando por trás, numa tentativa frustrada de me proteger e me acalmar.
Mas era tarde demais.
Os olhos mais frios que eu já havia visto me encaravam. O tempo parou.
O ar gelado não enchiam meus pulmões em pânico. O braço de Lucca que envolvia a minha cintura me apertou com mais força.
E o assassino apontou a arma em nossa direção.
Eu arfei.
Naquele momento, eu acreditei que era o fim. Ao menos eu morreria com a glória da minha primeira exposição e abraçada com o cara que mais havia me encantado e mais haviam me decepcionado em toda minha vida.
Era o fim, só podia ser o fim.


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