Capítulo Quinze - Frank

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Depois daquele jantar, a única coisa que eu fiz quando cheguei em casa foi ir direto para minha cama. Estou olhando para o teto pensando em coisas aleatórias... Ou talvez não tão aleatórias assim. O leve encostar dos meus lábios nos de Hannah faz meu coração falhar uma batida, por uma simples lembrança.

Estou tentando pegar no sono há tempos, mas não estou conseguindo. Todas as minhas tentativas são falhas e se eu não estivesse de férias nessa situação em que me encontro, eu já estaria dentro de uma sala de cirurgia.

Resmungo, lamentando pela primeira vez o fato de eu estar de férias. A tentação de voltar para o hospital está me consumindo.

Respiro fundo e viro a cabeça em direção ao lado direito, onde meu relógio repousa em cima do criado-mudo.

Onze horas.

Será que alguém estaria precisando de uma cirurgia em uma hora dessas? Eu espero que sim, penso, enquanto salto da cama. Iria enlouquecer se eu continuasse deitado. Me vesti com uma calça jeans depois de retirar a de moletom que eu usava. Coloquei uma camiseta branca, ajeitei meu cabelo e fui direto para o carro.

Não demoro a chegar ao hospital porque coloco a velocidade alta que daria medo em qualquer um.

Isso foi bom porque consegui tirar meus pensamentos de Hannah ao menos por alguns minutos.

Quando passo pela porta do hospital, vejo Dr. Carter conversando com alguém perto da recepção. Ele se vira e pede licença à pessoa com quem estava conversando e vem até mim.

— Desistiu das férias? – ele pergunta com um sorrisinho de deboche no rosto. Dou de ombros.

— Eu preciso de uma cirurgia– falo, ignorando sua pergunta.

Ele suspira.

— Vá pra casa, Frank.

— Não.

Eu pareço uma criança que não quer fazer a coisa que a mãe pede e faz manha. Mas quem liga? Certamente eu não.

— Teoricamente, você está de férias, como você mesmo pediu– ele insiste. —Vá dormir.

— Faço uma cirurgia nem que seja de graça! – Se o Dr. Carter, quando coloca uma coisa na cabeça, não tira, eu também sou assim. — Eu preciso de uma cirurgia pra aliviar a tensão agora, Carter.

— Férias é pra relaxar – ele rebate. — Dê o fora daqui antes que eu te demita!

— Frank, o que você está fazendo aqui? – uma voz conhecida pergunta. Olho para o lado em direção à voz e Elena está lá, me encarando confuso. — Não está de férias?

— Estava. – corrigi. — Quero voltar.

— Qual é, não aguentou nem uma semana? – Elena morde os lábios e logo, atrás dela, chega outro médico, amigo da Dra. Harrison e meu amigo também, o Dr. Smith.

— Ei, Smith, - ela fala para ele — me dê minhas cinquenta libras! – Franzi o cenho.

— O quê? – ele pergunta, e depois olha pra mim. Dr. Carter, que ainda está no nosso meio, solta uma risadinha de deboche.

— Vocês apostaram? – Oscar pergunta e logo faço uma expressão frustrada. Sério? Sério mesmo que eles apostaram em quanto tempo eu ficaria fora do hospital?

— Sim – Elena diz, gargalhando — e eu ganhei!Pode passar a grana, Smith.

Smith torceu o rosto em uma careta, olhando para Elena em descrença.

— Você sempre ganha nossas apostas! – ele resmunga.

— Eu sei. Agora, vai pegar a minha grana. – ela retruca, terminando de rir.

Smith sai, me deixando com Elena e Oscar. Olho para o Dr. Carter sugestivamente, implorando, com o olhar, por uma cirurgia. Oscar dá uma risada e isso faz Elena voltar a rir.

— Você vai poder assistir a uma, mas não fazer. – Dr. Carter diz— Você está de férias hoje, Miller; não irá tocar num bisturi.

Eu juro que só não solto um belo de um palavrão porque Oscar é meu chefe.

Cinco cirurgias. Esse foi o número de cirurgias que eu assisti desde que cheguei ao hospital implorando para realizar uma.

E no meio de todas elas implorei para Oscar que me deixasse fazer uma, mas aquele filho da mãe era persistente em suas decisões quanto ao hospital.

Em um momento de raiva, até cheguei a desejar que um paciente morresse para que Oscar se arrependesse profundamente por não ter me chamado, mas eu rapidamente tirei esse pensamento da cabeça por mais que a minha vontade de matar o meu chefe com um bisturi fosse maior do que o céu.

Estou terminando de assistir a uma sexta cirurgia. A minha vontade de ir até lá e fazer alguma coisa está me torturando. Pelo menos meus pensamentos conseguiram ficar longe de Hannah por todo o tempo em que estive dentro das cirurgias. Só de vez em quando ela voltava pra minha mente. Aí o motivo de eu insistir tanto para Oscar me deixar entrar numa das cirurgias.

Eu estou olhando a cirurgia por uma pequena sala, que tem um vidro gigante como janela, para permitir, assim, assistir aos médicos e ao paciente. A porta desta sala se abre e Elena entra. Franzo o cenho. Ela não deveria estar na pediatria?

— Já é de manhã – ela diz — e é domingo. Quer ir comigo tomar um café lá em casa?

Elena sempre me convida pra isso, mas ela tem um marido e dois filhos e eu não gosto de me sentir intruso na vida das pessoas. Mas, como uma bela amiga, Elena percebeu o motivo da minha hesitação em aceitar o convite.

— Vamos logo – ela diz. — Você já conhece meu marido e as crianças vivem perguntando por você desde aquela vez em que você passou cinco minutos num jantar com a gente, mas teve que sair para uma cirurgia. Qual é Miller, você está de férias.

Deveria haver um estudo sobre todos os médicos serem insistentes...

Porque, pelo amor de Deus, sei que Oscar não me deixaria nunca entrar em uma sala de cirurgia enquanto minhas férias não acabassem e que Elena iria fazer esse convite até que eu estivesse sentado em sua mesa da sala de estar tomando um café ou comendo alguma coisa.

Algum dos três teria que ceder primeiro. Eu, Elena ou Oscar?

E, desde o início, torcia para que não fosse eu, mas como eu sei que Elena só irá sair desta sala comigo do lado, respiro fundo e respondo:

— Tudo bem, vamos lá! Mas é só um café.

— Credo, Miller!Só tome cuidado para seu mau humor matinal não afetar o bom humor das minhas crianças e do meu marido quando chegarmos.

Deixo uma risada escapar com a fala de Elena. Sei que, por dentro, ela está se controlando por eu ter aceitado e me permito sentir feliz com isso. Pelo menos, ainda estarei distraído com o café da manhã. Não tanto quanto uma sala de cirurgia, mas ainda é alguma coisa e eu devo agradecer por isso.



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