Capítulo vinte e três

8.3K 910 262

No dia primeiro de Julho, nós estamos no maior auditório da universidade, assistindo os quarenta minutos restantes, antes da apresentação, voarem diante de nossos olhos. Eu estou um pouco nervosa. Na realidade, todos estão um pouco nervosos, porque essa peça de teatro é realmente importante para todos nós.

Dou uma rápida olhada para Conrado e sinto meu peito doer, da mesma maneira que aconteceu todas as vezes nos últimos dias, desde que ele confessou que não gosta de mim. Fiquei com muita raiva no começo, mas agora tudo o que sinto é tristeza. Eu já imaginava que ele não gostava de mim, considerando suas alterações de humor, porém ainda assim foi difícil escutá-lo dizer que não gosta nem mesmo de ter que olhar para mim. Felizmente, dentro de pouco tempo eu vou poder voltar para meu dormitório, viver com Lola e... Ah, não, espera aí, Lola nunca iria me querer de volta. Então eu sou praticamente uma sem teto. Minha sorte que as férias já estão por vir.

- Zahara – a voz rouca de Conrado chama meu nome. Era a primeira vez, em incontáveis dias, que ele fala diretamente comigo.

Eu quero ignorá-lo, permanecer de costas, porque não sei qual será minha reação ao olhá-lo nos olhos. E se eu fraquejasse? Eu já conseguia sentir a tristeza queimando minha garganta, com todas as coisas que eu queria dizer, mas não podia. Queria dizer a ele como ele me magoou ao agir como um imbecil, fingindo gostar de mim; queria dizer a ele que eu havia realmente acreditado em todos os jantares amigáveis, os filmes assistidos juntos, as risadas, as horas deitados na sala, apenas conversando sobre nosso dia. Como é que alguém consegue fingir algo assim por tanto tempo? Como é que alguém consegue fazer com que outra pessoa se apaixone dessa maneira? Eu, provavelmente, sou muito estúpida para ter caído nessa história.

- Zahara – ele me chama de novo.

Eu me viro, em silêncio, e preciso engolir as lágrimas quando nossos olhares se cruzam. Sua expressão é firme, seus olhos estão fixos em mim, e ele parece inseguro se deve ou não falar comigo.

- Se isso for um pedido de desculpas, eu não quero ouvir – digo.

A expressão calma dele imediatamente se torna irritada.

- Não vim pedir seu perdão.

Suas palavras fazem com que eu me sinta ainda pior.

- Claro que não – eu falo, amargurada.

- Só vim avisar que o imprestável do seu ex-namorado não vai vir para a apresentação.

- O quê? – eu pergunto sem entender nada. – Kevin me trouxe até aqui, claro que ele...

Quando Conrado fechou os olhos e bufou, eu parei de falar. Parecia que o nome de Kevin o irritava.

- Eu estou falando do outro.

- Não tenho outro ex-namorado.

- Dionísio, Zahara! Estou falando do Dionísio! – ele diz, impaciente.

- Não se atreva a gritar comigo – eu digo, irritada também. Até que eu finalmente compreendi o que aquilo significava. – Como assim Dionísio não vai vir? Ele é o principal! Como é que vamos ficar sem o Romeu?

- Espero que você saiba que isso é uma vingança contra você – Conrado fala com desprezo.

- O quê? Do que você está falando?

- Ele sabia que essa peça era muito importante para você, por isso decidiu não vir – diz. – No meu mundo, isso se chama vingança.

707Onde as histórias ganham vida. Descobre agora