16.3 TÍTULO

1.4K 152 22

Meus dois braços já estavam doloridos quando eu alcancei a rua de Drica, trocando a mala de mão a cada minuto de caminhada porque não aguentava mais. Parei em frente a sua casa com um suspiro de alívio e dei algums tapinhas de leve no portão, já que bater forte não iria rolar com todas aquelas dores. Enquanto esperava a gritaria de "já vou" e os barulhos estranhos que viam do lado de dentro da casa, amaldiçoei a hora em que decidi colocar o ferro de passar roupas dentro da mala porque era, obviamente, o que estava fazendo-a pesar tanto.

Drica abriu o portão com um sorriso animado e congelou ao me ver, arregalou os olhos ao encarar minha mala e eu vi seu semblante animado se desmanchar para exibir confusão aos poucos.

- Oi - tentei.

Ela engoliu a seco e forçou o sorriso a se abrir novamente, mas não estava sendo muito sincera e eu permaneci encarando-a, sem saber como reagir. Percebi que ela não sabia que eu havia sido convidado e aquela era mais uma das tramóias de Talles e Mila para nos juntarem... Ainda mais.

Ao contrário, porém, do que eu achava, que teria pedir licença e entrar na casa enquanto Adriana mantinha-se sem se mover, ela levantou-se, colocando-se na ponta dos pés e grudou os lábios nos meus por um milésimo de segundo, me deixando com um puta gosto de quero mais.

- Que surpresa! - Drica ainda parecia levemente afetada e não totalmente feliz com a minha presença, mas estava sorrindo levemente e de forma verdadeira. - Não sabia que ia com a gente.

Abriu espaço para me deixar passar e eu forcei minha mala para passar por cima do pé do portão, já quase sem nenhum poder nos braços.

- Talles acabou de me convidar - relatei a ela. - Motorista.

Ela riu e deu de ombros. Estava tentando parecer natural e não incomodada para não me magoar, eu sabia, mas estava lá, em seus olhos, a leve preocupação com a minha presença.

- Alguém podia ter me falado! - Reclamou, rindo, como se fosse uma piada.

Sempre escutei os mais velhos dizendo que eram nas brincadeiras que proferiamos as verdades mais sinceras e eu nunca tinha visto nada tão real para definir aquele provérbio antigo. Porém, fiquei feliz em saber que seu incomodo não era a minha presença, e sim a falta de comunicação.

- E aí, cara! - Talles apareceu ao redor do carro e já foi abrindo a mala do carro para me ajudar a guardar a minha. - Cê conseguiu chegar!

Franzi a testa para ele porque estava forçando o sotaque ao máximo para imitar o carioquês, sem muito sucesso.

- Tá tudo pronto? - perguntei.

Mal tinha feito a pergunta e estávamos todos no carro, rumo a nem um pouco amada Avenida Brasil. Dessa vez, pelo menos, seguíamos ao inverso da confusão, rumo às praias da Costa Verde e fora da cidade. Como esperado, a estrada estava vazia e a maior parte do fluxo fazia o caminho inverso, voltando para a cidade, ainda do feriado.

- Gente, isso aqui tá tudo diferente - Mila reclamou, quando passamos pelo primeiro túnel, entre itacuruçá e Muriqui.

- Tem uns sete anos que você não vem aqui, o que você esperava? - Drica riu. - João, será que você pode parar na próxima praia? A gente costumava vir aqui quando a Mila passava as férias com a gente, acho que vai ser legal a gente dar uma relembrada.

- Por favor, sim! - Mila concordou, extremamente animada.

Aproveitei que Talles deu um beijo em Mila, provavelmente usufruindo do seu bom humor e animação momentaneos, e deslizei minha mão da marcha para a coxa de Drica. Ela soltou um suspiro, encostou a cabeça no encosto do carro, amassando seus cachos delineados e virou o rosto em minha direção com um sorriso deslumbrante na face.

Não queria dizer uma coisa dessas, não queria pensar em uma coisa dessas. Mas são coisas da vida.

Eu estava completamente apaixonado por aquela garotinha confusa e desajeitada, dos beijos quentes e das fugas enroladas. E apesar da minha vida estar uma bagunça, eu queria ficar com ela. Aliás, a única certeza que eu tinha, naquele momento, era que eu queria estar com ela.

Estacionamos em uma área aberta, cheia de lojinhas e com uma lanchonete grande a frente. As meninas pularam para fora do carro rapidamente e correram para a direita, de onde podíamos ver um mirante. Talles e eu ficamos para trás e caminhamos até elas sem muita pressa, enquanto as admirávamos tirando selfies com a praia ao fundo.

- Mila não tem muitas amigas - Talles murmurou. - Bom ver ela assim.

Não achei que tinha sido algo exatamente para mim, devia ser algo que ele só queria colocar pra fora.

- Ela era bem social quando eu conheci, uns anos atrás - ri. Talles fechou a cara e eu soube que ele já havia sido informado que Mila e eu tivéramos um caso. - Gostava de todo mundo que conhecia e ficava amiga de todos. - Tentei consertar.

Sentamos em uma das mesas da lanchonete, deixando as meninas se divertirem, correndo de um lado para o outro do mirante, procurando a melhor posição para a foto.

- Acho que foi o problema lá com as drogas, ou talvez o período na reabilitação - deu de ombros. - Quando eu a conheci, ela só tinha um amigo e o cara era um babaca.

- Me sinto um pouco culpado - confessei. - Quando soube o que tinha acontecido com ela... Sempre quis pedir desculpas, na verdade. Ela fumou maconha pela primeira vez comigo e ficou curiosa com as outras coisas.

Talles me analisou por longos segundos e eu soube que ele estava ponderando se colocaria a culpa em mim ou não.

- Mila é curiosa sobre tudo - riu e decidiu não me culpar, o que me fez suspirar aliviado - não vai sossegar até descobrir todas as coisas do mundo.

Durante aqueles poucos minutos em que nos distraímos com a conversa, Drica e Ludmila desapareceram. Comecei a olhar ao redor antes que Talles reparasse no sumiço das duas e obtive um sorriso de Drica, se aproximando com algo branco em suas mãos.

- Come isso - ela me empurrou um cuscuz, enquanto a prima sentava-se no colo do namorado e oferecia um pedaço do seu próprio cuscuz a ele - É a melhor cosa que você vai comer na vida. Sério.

Provei e realmente era bom, mas não era a melhor coisa que eu já havia provado.

Esse título ficava com os beijos dela.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!