16.2 MALAS

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"Cara, foi mal n ter te falado antes... A gente vai pra Angra hj final da tarde, qr ir?"

Encarei o celular um pouco cético. Aquele tipo de coisa não costumava cair no meu colo. Sentei-me no braço do sofá, ouvindo Pepê e Cela se despedirem enquanto o tintilar da minha mãe com os talheres na pia ressoavam e ecoavam no ambiente.

"Eh que a gente precisa de um motorista pq eu n conheco a estrada e a Mila ta meio neurotica"

Gargalhei lendo a mensagem; sabia que Talles corria rachas pela faculdade porque Mila já tinha resmungado sobre isso algumas vezes. Imaginava que ele sabia dirigir muito bem, melhor que eu com certeza, mas aquela era apenas uma desculpa para ela implicar com ele quando tinha a chance.

Os dois eram muito engraçados.

- Mãe, tranquilo se eu fizer uma viagem? - perguntei.

Certo, eu tinha quase vinte e quatro anos e já havia morado sozinho na maior cidade do país por quase cinco anos, mas... Perguntar não ofendia e tinha certeza que minha mãe preferia assim.

- Pra onde você vai? Quando e com quem?

Revirei os olhos, vendo-a aparecer na sala e fechar a expressão ao me ver sentado displicentemente sobre o braço do sofá. Levantei-me apressado.

- Angra... Daqui a pouco. A Mila e o namorado precisam de um motorista...

Minha mãe estava sorrindo daquela forma que me informava que ela sabia exatamente o que estava acontecendo.

Eu não gostava de planos em cima da hora, preferia que as coisas fossem planejadas e acontecessem em seu tempo e com um grau elevado de perfeição. Uma viagem em cima da hora? Precisava de um bom motivo.

- Adriana vai?

Concordei com a cabeça, tentando não parecer constrangido. Era tão óbvio assim que esse era o meu bom motivo e a razão da minha animação repentina?

- Quer ajuda com a mala?

Ponderei o tempo que demoraria para fazer a mala sozinho e o que eu economizaria se minha mãe me ajudasse a lembrar das coisas mais básicas - que eu possivelmente esqueceria, já que estava com o tempo apertado e com um pouco de pressa.

- Uma ajuda não cairia mal - concordei.

Ao contrário do que eu esperava, ela virou as costas para mim e correu para a pia da cozinha, voltando a organizar os pratos sujos.

- Vou só terminar a louça e já te ajudo.

Ela voltou para a cozinha e ouvi a velocidade de seus tintilares se intensificarem. Mandei uma mensagem para Talles confirmando e perguntando a hora correta e dei uma pequena corrida até o meu quarto. Quando puxei a mala de cima do meu guarda roupa, meu celular apitou.

"Só arruma a mala e vem, mas não demora".

Sem direito a demorar, entendi.

Abri meu armário e peguei uma pilha de camisetas sem manga porque me pareceram apropriadas. Eu nem ao menos sabia quanto tempo passaria em Angra, mas ia ter que me virar com aquilo. Peguei algumas blusas de manga, um casaco, quase toda a minha gaveta de cueca, algumas calças jeans e bermudas e uma sunga.

Encarei a confusão de escolhas em cima da minha cama, quando minha mãe entrou no meu quarto sem nenhum aviso, depositando minha mala em cima da cama. Não fazia ideia do que havia acontecido com ela - as coisas tinham magicamente aparecido no meu armário e a mala fora declarada como desaparecida; agora ficava claro que fora obra da minha mãe.

- Não esquece a escova de dentes, toalha, protetor solar, desodorante... - Ela foi relatando uma lista infinita de coisas que eu não deveria deixar de levar enquanto nós dois dobrávamos as roupas e arrumávamos na mala juntos, procurando poupar espaço para caber o restante.

O celular apitou no segundo em que minha mãe saiu do quarto com o intuito de recolher alguns produtos de higiene pessoal para me auxiliar na minha jornada. Terminei de encaixar a blusa que estava em minha mão no cantinho da mala que havia deixado para ela e corri até o aparelho. Desbloqueei a tela e era mais uma mensagem de Talles.

"KD VC MANO?"

Torci o nariz e encarei a pequena bagunça em cima da minha cama. A pressa dele deveria significar que eu não teria muito mais tempo para organizar tudo, então estava planejando pegar o restante e jogar de qualquer maneira dentro da mala.

"Arrumando a mala. Vcs tão cm mta pressa?"

"+/- vem logo"

Minha mãe retornou ao quarto enquanto eu lia a última mensagem e planejava enfurnar tudo na mala de qualquer jeito. Pegou-me com os braços cheios de coisas e prestes a jogar tudo em cima do que estava arrumado.

- O que tu tá fazendo? - reclamou, com a voz uma oitava acima do normal.

- O namorado da Mila tá me apressando - joguei as coisas mesmo assim, ela balançou a cabeça negativamente, mas nada disse. Ao invés disso, começou a empurrar as novas aquisições para que coubesse tudo, mesmo bagunçado.

Levou mais ou menos dez minutos até que conseguíssemos fechar a mala - minha mãe teve que sentar em cima dela para que eu puxasse o zíper, mas Talles ficou bastante feliz ao saber que eu estava a caminho. Desci a mala pelas escadas, com toda a minha força sendo utilizada e minha mãe atrás de mim, em meu encalço. Pelo seu olhar, eu sabia que ela estava levemente chateada em me ver sair mais uma vez, mesmo que por pouco tempo. Imaginava que a memória de eu ter me mudado para São Paulo não lhe fosse muito agradável.

Ela esperou, porém, até eu chegar no portão para me dar um abraço apertado, daqueles que esmagam a costela e parecem que vão durar para sempre. Fingi não perceber que ela estava prestes a chorar - achei que era melhor não entrarmos no mérito emocional da coisa, afinal, era só uma viagem de alguns dias e eu logo estaria de volta.

- Se cuida, tá? - Pediu. - Não vá beber demais e veja se cuide da menina direito.

Sorri, agraciado com suas palavras e concordei com a cabeça. Beijei-lhe na bochecha e ela suspirou profundamente.

- Bença, mãe. Te ligo.

- Deus lhe abençoe, meu filho.

E com suas palavras doces, comecei a arrastar minha mala pelas ruas tortuosas da favela até a casa de Drica.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!