Asylum

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[ Mariam ]

Me deitei no banco de couro e senti minhas bochechas grudarem. Eu estava em choque, chorando como se aqueles fossem os meus últimos momentos de vida. E o que mais me doía, era o fato de eu não saber se realmente eram. O barulho do granizo sobre o capô do carro eram as únicas coisas que eu conseguia me concentrar. O ar-condicionado fazia minhas lágrimas e lábios secarem, além de meus ouvidos ficarem tapados. Eu me perguntava aonde iria, o que faria e se aqueles momentos eram meus últimos. Eu não conseguia ficar em paz. As risadas dos alunos do colégio ecoavam em minha mente. Minha visão estava embaçada. Ouvi eles dizerem que demoraríamos um bom tempo para chegarmos. Esse tal de Asylum era meio que uma prisão? Devia ter prestado atenção em geografia da cidade.

[ 2:40 PM ]

Estava quase dormindo quando as rodas do carro rasparam nas pedras. Os dois homens me arrastaram para fora do carro, eu estava zonza. Consegui ver uma mulher vestindo uma roupa preta na porta do prédio. Ela sorria, mas não um tipo de sorriso dócil, um tipo de sorriso que faria uma criança ter insônia e medo por meses. Senti um mal estar assim que pisei no prédio. E tudo ficou preto.

*

Abri meus olhos, eles estavam grudados graças as lágrimas, eu acho. Aliás.. Que horas são? Olhei em volta do quarto. Paredes cinzas.. Uma janela com uma cortina branca manchada.. Uma porta com um quadrado de grades.. E uma cama. A mais ou menos dois metros de mim, eu diria. E tinha alguém nela. Um cara. Ou um garoto? Seus cabelos eram castanhos e ele estava virado para a parede. Havia uma mesa de madeira caindo aos pedaços com dois bancos ao lado da porta. Eu estava usando minhas roupas normais. Mas elas estavam ensopadas. Fiquei por ali durante algum tempo até que escutei um barulho estridente e demasiado alto. O sujeito se levantou. Seus olhos eram azuis como uma piscina. Ele estava com olheiras bem marcadas. Em um beep a porta de concreto se abriu, revelando várias pessoas caminhando para uma direção própria. O garoto já havia saído. Fui atrás dele.
Ao ultrapassar algumas dezenas de pessoas me deparo com uma grade enorme. A grade se abre, e todos saem. Um jardim, com grama escura e árvores. Grande até. Vi um canto vazio e resolvi ir até lá. Queria saber aonde estava, porque eu realmente não tinha ideia. Alguns me olhavam com desgosto. Outros, com olhares ameaçadores. Me sentei na grama. Estava semi-seca. Mas como assim? Estava chovendo quando entrei aqui. Vi a mesma mulher da entrada chegando perto de mim. Ela estava séria, com um crucifixo pendendo sobre sua roupa de freira.

- Sra. Mariam. Venha comigo. Sou a Irmã Judy. Vou te mostrar os lugares daqui de dentro. Dormiu alguns minutinhos. Nada demais. - ela estava falsamente sorrindo. Apenas me levantei e fui junto a ela. Todos me olhavam, como se minha existência fosse fatal. Aquilo me dói.

- Aqui é o restaurante. Mas não um restaurante normal, pessoas como você merecem comer comida podre. - ela riu. Não entendi a piada. - bem, o resto dependerá de seus amigos. Se tiver amigos aqui, claro. Tenho mais coisas para fazer. Má sorte, Mariam. - e desapareceu por um dos corredores. Esqueci de mencionar que eram vários. Voltei para o jardim. Um cara se aproximou de mim. Ele era alto, sua pele um pouco clara demais, e seu cabelo castanho, ele sorria.

- Oi? Você é a... Mariam? - Ele se sentou ao meu lado.
- S-sim sou eu. - Ele pareceu desapontado. Sinto muito amigo, mas amo respostas frias e curtas.
- Meu nome é Alan. Estou aqui a dois anos. - ele pareceu simpático. Sincero.
Judy entrou no campus chamando por um Rafael. Ele saiu de trás de uma árvore a a acompanhou. Era o cara da minha cela.
- Ele também é novo aqui? - perguntei para Alan, imaginando que Judy mostraria o lugar para ele da mesma maneira.
- Ah, não. Ele está aqui faz 6 meses. - sua voz falhou.
- Algum problema? - me virei pra ele.
- Ninguém sabe. - ele pareceu estar com medo.
- Ele está na minha cela. - Alan me olhou e seus olhos ficaram sem expressão.
- E-ele? Na sua.. Na sua cela? - Alan estremeceu. Eu assenti.
- Sabe onde é o banheiro? - perguntei. Ele apontou o caminho e me despedi. Entrei e dei de cara com uma garota de cabelos lisos e castanhos. Ela estava usando óculos quadrados e bastante desgastados. Ela franziu a testa e passou por mim. Seu crachá mostrava:

Detento HC5N921
Maethe

Maethe. Que nome bonito.
Acabei saindo do banheiro também. Eu precisava de uma roupa. Um daqueles uniformes. Virei no corredor do "restaurante" e um garoto magro alto de cabelo ralo esbarrou em mim. Ele tinha uma pilha de roupas azuis amontoadas. Seu crachá dizia "ajudante".
- Ah! Oi. Desculpa. Meu nome é Thiago. Você.. É a Mariam, né? Bem, eu to com o seu uniforme. Judy me mandou entregá-lo. Foi bom te ver. Tchau. Ah, eles me conhecem como Calango. Então se procura por mim diga calango, não Thiago. Até mais! - ele me entregou o uniforme e estava estérico. Ele falava rápido. E estava agitado. Saiu pelo corredor caminhando.

Fui até o banheiro e abri uma das cortinas de plástico. Liguei o chuveiro e tirei minha roupa. Entrei na água e um relógio contava os minutos que eu me banhava. Meu cabelo estava nojento. Massageei a barra de sabonete de coco contra ele. E me lavei. Me sequei com uma toalha das limpas e me troquei. Procurei por todos aqueles armários até achar um pente desdentado. Comecei a pentear meu cabelo e o alarme chiou. Ouvi pés correndo, e acabei por sair junto. Senti uma mão sobre meu ombro. Era Alan. Ele sorria e dizia " Corre! Nunca fique para fora depois da buzina! " Em beeps intermináveis as portas começaram a se fechar. Eu precisava encontra meu quarto. Vi Rafael entrando e a porta batendo.

E eu não entrei junto à ele.

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