- Pensei que não iria comentar sobre.

- E perder a oportunidade de te pegar desprevenida? De jeito nenhum. O afastador, por favor - esticou a mão esperando o instrumento. Pelo menos esse eu sabia qual era. - Estava te observando dançar lá na pista com sua amiga. Eu até estava com uns planos pra você, mas depois vi um cara dançando junto com vocês e deixei quieto - Marcelo, óbvio.

- Você está falando na minha cara que tinha planos pra mim? Que tipo de médico respeitador você é?

- O tipo que gosta de curtir a vida de solteiro - Bingo!! Solteiro! - E com certeza iria gostar bastante de curtir com você. Aliás, aquele cara é seu namorado? - desviou os olhos do menino por dois segundos para me encarar. Eu com certeza estava corada. Pelo menos estava com a máscara cirúrgica.

- Não, eu não namoro - decidi ignorar o comentário anterior.

- Que bom.

- Você foi embora cedo... - deixei escapar. Não queria que ele pensasse que eu fiquei o observando, embora fosse exatamente o que aconteceu.

- Tinha plantão no hospital. Foi a sua sorte, anjo. Já que se eu tivesse ficado não resistiria em ir falar com você naquele bar toda bonitinha batendo um papo com o barman - ele deu risada da minha desgraça.

- Bom, sorte a minha então - disse contrariada.

- Ou não, doutora... Ou não.

(...)

Depois do garotinho com lábio leporino, auxiliei Alex em mais três bebês. Todas as cirurgias foram simples, de modo que me saí bem. Alex não voltou a falar da noite na boate, o que achei bom, pois estava começando a me intimidar, já que ele se lembrava de fatos que eu não, como quando ele disse que eu comecei a levantar a roupa na pista de dança por estar "com calor". Eu jamais teria feito uma coisas dessas, né? Jamais.

Eram exatamente seis horas quando começamos a nos preparar para a última cirurgia. Alex ainda estava de plantão, mas disse que eu poderia ir para casa quando acabássemos aqui. Esta cirurgia seria diferente, pois a realizaríamos ao lado da Cirurgiã Obstetra, Paola alguma-coisa, não me lembro. Só sei que era uma boa médica, simpática com todos, menos com Alex. O motivo eu viria a saber depois.

- Como eu comentei mais cedo, o bebê de Susan têm os órgãos funcionando fora do corpo. Isso foi diagnosticado um pouco tarde demais, mas, graças ao excelente cirurgião pediátrico que este hospital tem, poderemos salvá-lo - eu reviro os olhos lentamente e ele ri. - O quê? Não sou excelente?

Soltei um "rum" mais pra dentro do que pra fora, mas Alex era insistente e queria uma resposta. Ele era excelente mesmo. Cheguei a fuxicar seu histórico antes do almoço, enquanto procurava outras coisas para ele. Nos últimos dois meses, ele só havia tido uma baixa. E isso é incrível quando se trata de bebês que são sempre tão frágeis.

- Você sempre foi convencido desse jeito?

- Eu sou realista, anjo - ele diz simplesmente, o que me faz revirar os olhos de novo, embora minha verdadeira vontade fosse outra. - Mas, continuando: Paola fará o parto e cuidará da Susan enquanto nós começaremos a operar o bebê. Certo? Acho que vai levar algumas horas.

Eu estava um pouco insegura, mas concordei com a cabeça. Na faculdade já havíamos estudado estes casos e foi sempre muito complicado manter o bebê em boas condições após o nascimento.

Nós terminamos de nos lavar e logo a equipe de preparação vem colocar nossas luvas, toucas e máscaras. Lá vamos nós de novo!

- Está atrasado, Alex! - Paola reclama. Percebo que ela já está com a lâmina na mão. Todos ao redor, inclusive a paciente, estão preparados. Mas, de acordo com o relógio, não estamos atrasados. E ela deveria ter dito "estão atrasados", porque afinal, estou com o Alex, certo? - Ah, já sei. Andou mostrando o quarto de descanso para a Nina?

Olho para ela, em dúvida. Não sei se eu deveria me sentir ofendida.

- Como você sabia? - Alex perguntou. Cara de pau! Decidi não contrariar, porque né. - Continua obcecada por mim, Paola? Já conversamos sobre esse negócio de mandar os internos me espionar.

Mesmo de máscara, percebo que Paola está vermelha. Mas não de vergonha, é claro.

- Não seja ridículo - ela diz. Como se ele conseguisse, eu penso, enquanto me posiciono ao lado de Alex na maca. - Vamos ao trabalho!

Ele concorda com aquela postura profissional, mas sei que por dentro está feliz e presunçoso.

(...)

- Foi in-crí-vel! - eu digo, por fim.

Quatro horas. A cirurgia durou quatro horas! E eu permaneci ao lado dele todo este tempo! Estou realmente em êxtase, pois deu tudo certo e Susan logo poderá ver o bebê. Sinto vontade de agarrar o Alex, como eu fazia com Marcelo, mas me contenho. Estamos no elevador. Eu já estava pronta para ir para casa, mas Alex ficaria aqui. Ainda assim, ele insistiu em me acompanhar até a recepção.

- Eu sempre sou incrível. Mas você foi boa também.

Dou risada, dando um soquinho no ombro dele. Os outros médicos no elevador nos olham de canto, meio desconfiados com toda essa intimidade. Para ser sincera, até eu estou surpresa que já estejamos assim.

- Pode me bipar se precisar que eu volte, tá? Não estou de plantão, mas adoraria entrar naquela sala de novo! - eu dou um gritinho. - Quer dizer, não se isso significar que as coisas pioraram para o bebê, mas... Ah, você entendeu - eu faço um gesto com a mão e ele ri. - O pager deve funcionar!

- Ou não - ele faz cara de santo.

Neste momento o elevador para. Nós saímos e ficamos parados do lado de fora.

- Como assim? É claro que funciona!

- Só para garantir, é melhor que você me dê o seu número.

Arqueio uma sobrancelha.

- Meu número?

- Claro, já aconteceu de eu precisar de um residente e o pager não funcionar - ele diz, completamente convincente. Claro!

- A-hã. Certo, anota aí...

E eu passo o número, me esforçando para não perguntar se ele não queria o meu endereço também para, vocês sabem, me fazer uma visita. Meu Deus, o que está acontecendo comigo? Deve ser culpa do café, eu tomei litros hoje. Sim, foi o café.

- Nos vemos depois então, anjo.

- Boa noite, doutor.

Ele sorri. Ah, meu Deus, por que ele sempre sorri assim?

Enquanto ia em direção do estacionamento, me lembrei de perguntar o que sempre esquecia. Qual era essa do "anjo", hein? No início pensei que ele chamava todas as médicas assim, talvez por salvarem vidas, sei lá... Mas hoje o vi chamar Paola de Paola e Fernanda de Fernanda.

Quem é que entende? Mas que é bonitinho, é, né?

*****

Esperamos muito que tenham gostado!

Gabriela e Natália.

18/09/2015


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