Capítulo dezenove

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Conrado e eu estamos com problemas. Talvez. Quero dizer, nós dois estamos sentados em frente ao coordenador do departamento de Artes Cênicas. Ele está nos falando a respeito de uma acusação séria sobre nós dois. Aparentemente, um aluno da aula de teatro reclamou, dizendo que Conrado me deu o papel principal, porque eu aceitei me casar com ele. Resumindo a história toda: esse aluno pensa que eu sou uma mulher fácil e promíscua (para não dizer outras coisas). Para piorar, eu sei exatamente quem é esse aluno.

- Imagino que o nome do aluno que reclamou seja Dionísio – eu digo. Conrado me lança um olhar de repreensão.

O coordenador parece confuso.

- Como você sabe?

Eu respiro fundo, fingindo estar triste.

- Bem, Dionísio e eu estávamos saindo juntos no início do semestre.

- Você estava traindo Conrado?

- Não, claro que não. Nós dois tínhamos dado um tempo para pensar e esse tipo de coisa todo que casais de hoje em dia fazem. O senhor não deve saber o que é.

O coordenador me olhou por sobre os óculos e coçou sua cabeça cheia de cabelos brancos.

- Então Dionísio descobriu que Conrado e eu éramos casados e ficou com muita raiva. Por isso eu sei que foi ele quem fez a acusação.

O coordenador respirou fundo e isso me disse que ele estava de saco cheio desse assunto.

- Acontece que não foi apenas ele quem reclamou. Mais alguns alunos alegaram que vocês dois fizeram um acordo e que esse casamento só aconteceu por causa das regras da universidade.

Conrado arregala os olhos, fingindo surpresa.

- Quem diria uma coisa dessas?

- Conrado, eu admiro muito seu trabalho, você sabe disso. Admiro você tanto quanto admiro seu pai que, felizmente, retornará para as atividades no próximo semestre, mas se há uma queixa contra a sua postura profissional, você precisará tomar cuidado.

Nós dois assentimos.

- O reitor pediu a certidão de casamento original. Ele disse que a cópia não é mais válida – o coordenador fala. – Ele irá analisar o caso, assim como tudo o que eu disser para ele sobre nossa conversa de hoje, e então, se julgar necessário, faremos algumas perguntas a seus familiares sobre seu relacionamento.

Eu engulo em seco. Questionar nossos familiares seria uma tragédia. Até posso ouvir minha mãe gritando no telefone com o reitor da minha universidade: "O QUÊ? CLARO QUE MINHA FILHINHA NÃO É CASADA! NÃO, ELA NEM MESMO GOSTA DE HOMENS! ELA NÃO GOSTA DE NAMORAR! O ÚLTIMO NAMORADO DELA ERA UM TRASTE! ELA DECIDIU SER FREIRA!"

Eu olho para Conrado, que está forçando um sorriso agradecido.

- Não há problema algum nisso, senhor. Nós ficaremos felizes inclusive de abrir nosso apartamento para vocês, se for necessário – ele diz. Sua voz está tão confiante que eu quase acredito na sua mentira.

Conrado é um mentiroso. Eu também sou uma mentirosa.

Que vergonha.

- Acredito que não seja necessário... – o coordenador começa a dizer.

- Tudo bem, mas não esqueça de avisar o reitor que se ele quiser mais informações podemos marcar um jantar em nosso lar.

O jeito que ele disse "lar" quase me fez rir. Quase. Porque eu preciso parecer séria e adulta.

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