Passei a noite em claro. É claro.

Assim que me deitei aquela noite, sozinha, diferente da última semana, me peguei pensando no último diálogo que tive com Enzo sobre o círculo familiar. Por uma fração de segundo, senti como se tivesse regredido no tempo, quando ele desconversava para não responder o que queria. Escondia coisas de mim.

De alguma maneira, não me senti aborrecida com ele, porque sabia que era ele quem estava perdendo entre nós dois. Enzo nunca teve uma família, nunca soube o que é receber amor, por isso a dificuldade de oferecer. Sua vida sempre foi os estudos e, quando essa fase foi finalizada, o trabalho tomou lugar. Encarei o teto, tão pensativa que não pude ouvir o estrondo com que a porta se abriu e uma Lana descabelada, com as bochechas vermelhas de raiva e os olhos lacrimejados apareceu. Sim, Lana.

– Elle! – ela gritou ao meu lado, me fazendo dar um sobressalto tão grande, que não sei como não morri com a força com que bati a cabeça na parede.

– Mas que diab... O que aconteceu? – arregalei meus olhos ao ver o estado da minha amiga, algo que jamais imaginaria ver em vida. – Lana, meu Deus, o que aconteceu? Você está bem? Foi assaltada? Ameaçada?

– É claro que não, Elle! – ela me deu um tapa, tomada pelo nervosismo. – Acha que eu ficaria nesse estado se tivesse sido assaltada ou ameaçada?

"Tem razão." Pensei. "Você jamais se afobaria depois de ter sido roubada ou ameaçada."

Balancei minha cabeça, espantando os pensamentos e pensando o que poderia ser pior do que roubo ou ameaças para Lana, a ponto de fazê-la chegar em casa naquele estado.

– Você está grávida? – abri a boca, olhando para seu ventre e recebendo um tapa tão forte que o local em meu braço com certeza ficaria roxo no dia seguinte. – Mas o que é, caramba!

– Me deixe falar, droga! – ela xingou, dando mais um tapa, mas dessa vez em minha cama. – Você não vai acreditar no que Klint aprontou comigo!

"Ah." A razão logo me veio à cabeça. "Aquilo."

– O que foi que ele fez? Comprou um novo apartamento para você ter um closet maior? – ergui a sobrancelha, vendo suas bochechas ficarem ainda mais vermelhas.

– Você quer me levar a sério??? Eu estou à beira de um colapso! – Lana jogou seus saltos para qualquer canto em meu quarto e se levantou, começando a andar em círculos. – Eu estava há pouco no apartamento dele tratando de alguns detalhes com Victoria, que decidiu passar lá para verificar os armários maravilhosos que haviam sido instalados...

– Menos detalhes, tenho que estar no hotel do meu pai...

– Elle, isso é sério! Você quer calar a boca e me ouvir, droga! – ela virou seu rosto inchado para mim e não pude deixar de me calar. Talvez estivesse andando muito com Enzo e me tornando uma pessoa insensível. – Quando estava prestes a fechar negócio com a iluminação interna, Klint me chega.

– É a casa dele, Lan.

– Eu sei, sua besta. Ele chegou com a família inteira dele! A família! Da Inglaterra! Mãe, pai, irmãs e irmãos, sobrinhos encapetados... Deus do céu! – ela deu um berro, abrindo os braços. Olhei imediatamente em direção à janela, só para me certificar que elas estavam bem fechadas. – Eles começaram a falar sem parar, dizer como eu sou linda, que eles mal acreditavam que estavam me conhecendo... Pelo amor do paraíso, eles são ingleses! Não deviam falar tanto assim! Sequer deviam ter uma família grande!

– E você, como sempre, não soube se portar perto deles.

– Eu? – ela apontou para si, brava. – Eu? Ainda se fosse! Nós estávamos no meio do jantar quando a irmã de Klint deu a maldita ideia de chamar meus pais para as duas famílias se conhecerem. Mas por que diabos meus pais precisam vir aqui para conhece-los?

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