Capítulo 01 - Mesmo se a porta estiver trancada?

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Entre Sem Bater

Por Andréia Kennen

Capítulo 01

Mesmo se a porta estiver trancada?


- Não é apenas por 20 centavos!

Não fora bem um grito, mas uma exclamação em tom imponente, acompanhada do som de punhos fortes e fechados batendo fortemente sobre a mesa, os quais fizeram um silêncio sepulcral se instaurar dentro da sala de aula.

Meu sono se esvaiu no mesmo instante. Estava acostumado a cochilar mesmo com todo o barulho de dentro da sala de conversinhas paralelas e a voz do professor tentando sobressair as das conversas.

Levantei a cabeça devagar e direcionei meu olhar ao foco da atenção de todos: a fileira do canto direito da sala.

Thiago estava de pé, com a cadeira afastada e com as mãos espalmadas em cima da mesa. Seus óculos haviam escorregado para a ponta do nariz, dando a estranha sensação que iriam cair. Talvez devido a maneira abrupta com que ele havia se levantado para dar aquele brado.

Mas, pelo amor de Deus, com quem ele tinha que se meter?

Logo o professor Roberto de Legislação Trabalhista e Previdenciária?

O cara é do tipo conservador, mesmo que não aparente ser tão velho. Provavelmente o Roberto esteja beirando os quarenta.

O professor Carlos, de Matemática Financeira, um senhorzinho de quase sessenta anos, tinha ideais muito mais liberais que o Roberto. O que prova que idade não faz o conservadorismo.

Não demorou o professor Roberto rebater a exclamação do Thiago e os dois recomeçarem a discussão de forma fervorosa, cada um defendendo seu ponto de vista com uma paixão avassaladora. O Thiago falava a favor das passeatas que estavam ocorrendo em São Paulo e no Rio de Janeiro contra o aumento da tarifa de ônibus. Assunto do qual eu tinha conhecimento não por estar de olho nos noticiários, mas porque aquele era o assunto do momento nas redes sociais, principalmente no Facebook.

Todavia, o professor Roberto, que também parecia seguro do seu posicionamento, defendia o ponto de que a segurança e o patrimônio público estavam sendo afetados. Que esse tipo de manifestação era a abertura perfeita para vândalos destruírem a cidade, saquearem o comércio, caixas eletrônicos, depredarem as vidraças e que o prejuízo não compensava a causa.

Eu vi o rosto moreno do Thiago ser coberto por um rubor discreto, suas mãos se fecharem em punho e tremerem ainda apoiadas na mesa. Achei que ele fosse estourar, mas, diferente do que eu imaginava, o Thiago endireitou a postura, arrumou os óculos no rosto e encarou o professor Roberto com uma calma de causar arrepios.

- Eu não acredito que o senhor se considera "educador" com uma linha de raciocínio tão limitada.

Não entendi exatamente o porquê, mas aquela resposta ferina, ousada e dita de forma tão amena, fizera meu estômago comprimir. Parecia que ninguém na sala respirava. Olhei para a carteira ao meu lado e vi a Laura com os olhos arregalados na minha direção. Ela parecia gritar com o olhar que agora a discussão iria pegar fogo.

Porém, não pegou da forma que imaginávamos. O professor Roberto recuou, caminhou até a porta da sala e a abriu. Provavelmente, tentando retomar sua postura de "educador", ele solicitou ao Thiago que saísse da sala.

- Por favor, Thiago, me espere na coordenação. Vamos continuar essa conversa lá.

Thiago apanhou a mochila e os cadernos na carteira, se levantou e, com a cabeça erguida, saiu da sala sem dar uma palavra.

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