Capítulo seis - Hannah

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— Então, conte-me mais sobre seu médico – Beth pede, olhando para mim com um olhar de cachorro abandonado. Já disse "Não" para essa pergunta milhões de vezes, mas Beth é a pessoa mais teimosa que eu conheço. Ela não vai desistir até ter o relatório completo. Mas, mesmo assim, insisto na minha decisão... Ela não pode ficar me irritando tanto assim. Eu acho.

— Não, Beth, quantas vezes eu vou ter que repetir?! Não.

— E, também, porque você não me avisou que estava no hospital assim que acordou? Vou colocar meu número como emergência no seu celular, assim eles têm pra quem ligar – ela fala,ignorando totalmente meu pedido; mais uma vez.

— Perdi meu celular. –explico pela décima vez naquele dia. Alguém mande Beth calar a boca!—. Agora, será que dá pra gente mudar de assunto?

— Não.

Mas, que droga!

— Beth, dá pra calar a boca? – pergunto, indo direto ao ponto, porque estou começando a sentir uma dor de cabeça atacar novamente.

Já passou do meio-dia e estamos no refeitório da rádio. É um prédio pequeno e é diferente dos outros prédios comerciais por vários motivos, começando pelo refeitório próprio para todos os seus funcionários e, por algum motivo bizarro, isso me lembra a época da escola.

— Não – Beth me responde e completa em tom de deboche: — É claro que não... Por Deus, Hannah, você levou um tiro!

— Dá pra me deixar em paz, Beth?! – pergunto e minto: — Estou forte como um cavalo agora. Será que dá pra me deixar em paz?

— Eu hein! Que bicho te mordeu lá no hospital pra você voltar grossa assim? – Suspiro com a pergunta dela. E com a voz mais suave, completa: — Hannah. Estou preocupada. – Encaro seus olhos, que estão lacrimejando.

Sinto-me culpada por ter sido grossa com ela. Não é porque eu estou tendo uma semana ruim que preciso despejar nela. Suspiro.

— Tudo bem. Desculpe-me por ter sido uma ignorante. Só estou com dor de cabeça.

— Vamos até a enfermaria, aí você toma um remédio.

Sim, aqui tem até uma enfermaria, mas não recuso o pedido de Beth já que sinto outra pontada na minha cabeça. Inferno, eu já tinha passado pela cirurgia. Precisa doer mais?

Nós duas, lado a lado, deixamos nossas bandejas no devido lugar e vamos andando, sem pressa, para a enfermaria enquanto conversamos.

— Frank me pediu desculpas por ter me zoado no colégio. – explico a situação à Beth, enquanto vamos até a enfermaria que fica no mesmo andar. Vejo um sorriso crescer em seus lábios por eu ter, finalmente, contado alguma coisa. Respiro fundo e termino de contar o que aconteceu. — Isso já faz séculos, eu não estou mais ligando para as idiotices que eles faziam... Mas ele parecia perturbado por isso quando me viu. E outra... Ele ficou me observando enquanto eu dormia, Beth. Por que ele fez isso?

— Vocês se beijaram quando eram adolescentes. É normal ele estar dando em cima de você agora, ainda mais, sendo o seu médico, aquele que tirou uma bala de você – Beth me lembra do que eu mais queria esquecer.

— Não é não – retruco — Ele me observou dormir, Beth. Que médico faz isso com sua paciente?

— O médico que já beijou a paciente – Beth responde como se fosse óbvio. — Mesmo que há anos.

Suspiro. Conheci Beth durante a faculdade, mas acabamos nos aproximando muito, e em tão pouco tempo que, quando vi, já tinha compartilhado toda minha vida com ela, e ela a dela comigo. E Beth foi e imagino que sempre será minha única melhor amiga.

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