Crônicas de Almakia - Dragão de Fogo

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Almaki. A palavra estrangeira sempre ecoava mais familiar do que qualquer outra. O nome dado aos poderes elementares de Almakia, o maior Domínio existente, era parte de um passado que eu evitava reconhecer... e isso era tudo até então.

Morando em Lotus, a capital de Sutoor, Domínio sem muito destaque no resto do mundo, acostumei-me a ver as pessoas estufarem o peito e se vangloriavam de terem conhecido um almakin, ou de terem visto um manejamento de almaki. Da mesma forma, acostumei-me com as expressões chocadas dessas pessoas quando, perdendo meu controle, demonstrava também ser um manejador. Era estranho, mas inegável: meu avô fora um almakin de Almakia. Mesmo tendo nascido no exílio, não pude escapar desse destino.

Não. Ter um almaki não é uma coisa boa. Principalmente se for um como o meu tipo. Vendo de fora, é incrível ter a capacidade de prever e adivinhar o que o tempo reserva ou esconde de alguém. Como meu avô costuma dizer em tom sonhador, só um almaki de luz pode iluminar o caminho das pessoas. Soa bonito, mas esconde uma essência aterradora: ao mesmo tempo, ele escurece o caminho do próprio manejador... literalmente.

O almaki de luz tirou a visão de meu avô desde muito cedo, e meu pai quase não enxergava quando morreu...

Mas, não cabe aqui contar sobre o preço a se pagar, os reveses da minha família, do motivo de sermos exilados ou sobre os ensinamentos do meu avô.

O almaki da luz pode nos cegar, mas não nos impede de lembrar o que já vimos e sentimos. Seguindo essa linha de pensamento, dentro do contexto do meu poder, uma lembrança pode se tornar mais preciosa do que um vislumbre... E minha lembrança preciosa é completa: tem cores, sensações, emoções... um nome e um título.

Era uma tarde quente de um dia eleito para ser o dia da organização do depósito da loja de artefatos raros e antigos do meu avô. Assim minha mãe decretou que a tarde de Aruk seria em função dos tapetes, independente do que eu, Aruk, achasse que faria de proveitoso naquela tarde. Então, entre pó, espirros, teias de aranhas e muito esforço para estender tapetes, passei horas inteiras na tarefa de batê-los diante da grande janela do depósito.

Como nunca tinha usado meu almaki daquela forma, quando meus olhos se voltaram para além da janela foi como uma simples necessidade de olhar para fora no meio de um afazer entediante. E lá estava ela, na rua, encarando desafiadoramente a porta da loja, como se também sentisse um impulso de entrar, mas sua teimosia não deixasse. Ao seu lado, havia um menino que lhe puxava a roupa imperiosamente.

De primeira reparei no modo como se vestiam e imediatamente percebi que eram estrangeiros, tanto pelo brilho quanto pela suntuosidade com que se trajavam. Depois, aqueles cabelos cheios, avermelhados pelo sol, como se criaturas cheias de tentáculos tivesse criado raízes em suas cabeças.

Quando comecei a achar graça no que via, ela olhou para cima, diretamente para mim, e tudo me atingiu como um golpe.

Ao mesmo tempo em que me sentia tombando para trás em um movimento impossivelmente lento, uma série de imagens desconexas com aquela garota passaram na minha frente. O que parecia ser a voz dela ressoou nos meus ouvidos, usando palavras que me eram familiares. Mesmo que na época eu não fosse um exemplo em falar a língua de meus antepassados, compreendi claramente o sentido: É meu direito queimar qualquer um que ouse ficar no meu caminho. No mesmo instante, percebi que ela era terrível. E, ao mesmo tempo, percebi que ela precisava ser terrível.

Quando bati contra o chão a lentidão cessou. Olhei em volta, assustado. No tempo em que eu conseguir entender o que acontecera e descer correndo para a loja, a garota havia entrado.

Minha mãe perguntava o que queriam, mas ela apenas olhava em volta, com uma expressão de quem não sabia o motivo de estar ali. E isso a irritava. O menino mexia em tudo que estivesse ao seu alcance, curioso. Parecia alguém que nunca entrara em lojas antes e não entendiam que aquelas coisas ali não eram suas. Fiquei lá, paralisado, observando.

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